DirectoryPersonalBlog Details for "O Melhor Amigo"

O Melhor Amigo

O Melhor Amigo
Uma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue)
Articles: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7

Articles

Ofício de suicidas
2008-08-14 22:44:00
Poucas as palavras, pequenos seus desígnios,nomeiam sempre realidades banais,triviais signos, factos consumados,e, ao fundo, sórdida presença da morte.Ofício melancólico, construir estas grades,estas escassas lápides do tempo que nos passa,ofício de suicidas, tentar retero rasto da luz em sílabas de sombra.- Juan Luis Panero
Grand Hotel København, 326
2008-08-14 22:21:00
Onze horas: a tua mão adormecida marcaagora um conto de Karen Blixen- veremos em breve essa casa cinzenta,em Helsingør - enquanto eu ouço uma sonatade Scarlatti tocada por Scott Rosse sei que também isso ficarei a dever à Dinamarca.Apontamentos culturais? Podem até chamar-lhesassim, ignorando a áspera nudez da voz,o grito comum que viemos suspender aqui.Lá em baixo, por exemplo, os funcionários dorestaurante, terminado o serviço, abrema terceira garrafa de champanhe e fumamruidosamente, como se amanhã não existisse.A questão, no fundo, é apenas esta: há momentosem que a vida nos parece quase bela,escolhos onde embatem as mais íntimas certezas.Talvez adormeçamos lado a lado,de costas para a morte, e haja corsários ao fundo,um mar de gelo protegendo-nos da noite.- Manuel de Freitas
More About: Hotel , Grand Hotel , Grand
Alívio rápido
2008-08-13 20:07:00
A idade da poesia cedo nos abandona.A prosa, pelo contrário, vai-se tornando imperativa,obriga-nos às flexões da fala e encobre,com elas, possibilidade tão bela, tão nobre.Como se falar fora maneira de transformaro menos em muito, e assim em paz com os sonhose com menos ânsias nos dedicássemosà arquitectura das grandes causas,a família, o emprego, as heranças.Morre-se tanto à espera da sorte grande.Por isso, quando dizes amanhã todo eu me esforçopor não cair no mau teatro dos cúmulos,o do forno, o da panela ao lume. Mas, confesso,as palavras enchem-se de crude e empoladase vulgares, nesse tom tão rente ao risível,não dizem, planam, afectadas, vazias.Só depois me lembro que o amanhã é próprioda meteorologia e que esperarfoi sempre um propósito digno. Mais não sejaporque o coração precisa de uma ginásticarude, que o endureça e torne elegante.- Carlos Bessa
Carlos de Oliveira
2008-08-11 14:06:00
BOLOROs versosque te digama pobreza que somoso bolornas paredesdeste quarto desertoos rostos a apagar-seno frémitodo espelhoe o leito desmanchadoo peito abertoa que chamasteamor.SONODormirmas o sonhorepassaduma insistente dora lembrançada vidaágua outra vez bebidana pobreza da noite:e assim perdidoo sonoo olvidobates, coração, repetessem querero dia.ESTRELALegendapara aquela estrelaazule friaque me apontastejá de madrugada:amaré entristecersem corrompermosnada._
More About: Carlos de Oliveira , Carlos
Wants
2008-08-11 10:18:00
Beyond all this, the wish to be alone:However the sky grows dark with invitation-cardsHowever we follow the printed directions of sexHowever the family is photographed under the flag-staff -Beyond all this, the wish to be alone.Beneath it all, the desire for oblivion runs:Despite the artful tensions of the calendar,The life insurance, the tabled fertility rites,The costly aversion of the eyes away from death -Beneath it all, the desire for oblivion runs.- Philip Larkin
Workshop
2008-08-09 11:15:00
I might as well begin by saying how much I like the title.It gets me right away because I?m in a workshop nowso immediately the poem has my attention,like the Ancient Mariner grabbing me by the sleeve.And I like the first couple of stanzas,the way they establish this mode of self-pointingthat runs through the whole poemand tells us that words are food thrown downon the ground for other words to eat.I can almost taste the tail of the snakein its own mouth,if you know what I mean.But what I?m not sure about is the voice,which sounds in places very casual, very blue jeans,but other times seems standoffish,professorial in the worst sense of the wordlike the poem is blowing pipe smoke in my face.But maybe that?s just what it wants to do.What I did find engaging were the middle stanzas,especially the fourth one.I like the image of clouds flying like lozengeswhich gives me a very clear picture.And I really like how this drawbridge operatorjust appears out of the bluewith his feet up on the...
More About: Workshop
Chega-se a um momento na vida
2008-08-08 09:28:00
Chega-se a um momento na vida(e por coincidência a um momento do mundoque seja por linguagem o nosso)em que o poeta se interroga antes de escrever:porquê, e para quê, e para quem?De nós mesmos falar não é possível:seria necessário que houvesse humano respeito,delicadeza humana, e não este descasode assassinos que se pisam sem desculpas.Falar do que vai por este beco do universoonde as comadres se acotovelam para levantar a saiano escuro dos portais? Seria precisoque a tristeza e a amargura e a visão do abismofossem partilhadas mais a fundo que a retóricade serem tão infelizes no confortodo piolhoso que vê mais dois piolhos na cabeça do outro.Pensar em melhores mundos? Haverá,mas não aqui. Aqui é o fim da festa,o fechar das luzes do último diada Exposição dos Centenários, o arriar das bandeiras,o apodrecer dos barcos pela praia.Aqui só há lugar para metáforas,óbvios símbolos, jogos de prendas poéticas,para a droga de um sexo reduzido a palavras.Cantem a beleza que se esvai, da juvent...
More About: Vida
O último cliente
2008-08-08 07:44:00
Uma boca ferida e um olhar acostumado ao escuro,atravessando a respiração crua da noite,dirão novamente muito pouco.Distâncias tão indirectas, intermitências e gestosde uma gentileza sem explicação.Esqueceste alguns nomes próprios,ficaram-te alguns provérbiose esta triste escolha de palavras.Por aqui a cidade é um extenso monturosem significado. Superfícies afiadascontra corpos dispersos, magros e envergonhados,revolvendo os despojos no fim da festa.Ainda podes meter conversa, mas issode pouco adianta. A uma hora destasum homem vale tão poucoe o seu único segredo é a sua solidão.Serves-te de nada, de bebidas com alto teorem arrependimento - perdas e coisasque não vais dizer. Tens uma lâminae um souvenir afectivo no bolso das calças,debaixo um sexo mole e outros ferimentos,além das duas pernas que te levamao desmancho entre destinos abreviados.És o último cliente, figurante num filme mudo,sem cor nem história. E talvez nem existissesse não regressasses noite após noite.
Depois dos Sopranos...
2008-08-05 06:08:00
BROTHERHOOD - 8/10
More About: Sopranos
PARA BELLUM
2008-08-05 01:30:00
Protestos, livros, poemas, sacrifícios,a história analisada e desmascarada: a paze não a guerra desde sempre a guerra.É velho tudo isto. Há malandrospara ganhar com as guerras, há patriotaspara mandar os outros morrer nelas, háheróis ou não heróis que morrem nelas,há multidões para serem massacradas.Eu protesto, tu protestas, ele protesta, etc.E nada muda, ou muda para mais.Antigamente, os faraós ao contar os mortos inimigos(nunca os próprios mortos) exageravam - evidente.Hoje, os comunicados cometem sempre esse exagero(e a mesma distracção discreta). Mas há semprehumanidade com vocação para matar e multidõescom vocação vacum para cadáver.E neste cheiro a podre milenário - vale a penasequer dizer que são filhos da puta?- Jorge de Sena
More About: Para
Flight of the Conchords
2008-08-04 02:35:00
Uma parvoíce pegada com cuspo e muita graça - 8/10
More About: Flight , Flight of the Conchords
Ode à Beira-Nada
2008-08-02 05:39:00
(Tendo lido um poeta lírico armado em poeta heróico)Eu leio estes poetas com imensa amargura.É tão verdade que todos desejamos(todos, menos quem deseja o sossego dos outros)a liberdade mais perdida a cada sonho com elacomo flor tranquila vicejando alguresonde contemplá-la é só chilreio vagodo campo antigo!... Eu espero, eu vejo, eu quero,mas há em tudo isto um travo exactoa deslealdade, a fuga, a evasão, e não a luta,um travo a imaginar que a outra humanidadeserá melhor apenas para nós sermos os mesmoscom auditório melhor. Tudo será igual,no fundo querem tudo igual, pois quando gritampor este vácuo de universo e acaso,delírio de estruturas consumindo-sevoltadas para um fim que não possuem,pois quando gritam (e dizem nomes belos,imprecações brilhantes, vocativos mágicos)por este claro monstro que em mim trago,de que não há cesariana que me salve,não é por ele que chamam; não procuramsaber que existe, desconfiam, temem,agarram-se uns aos outros, temerosos,fingindo rir da ingenuidade a...
More About: Nada
Contra os optimistas
2008-08-02 00:38:00
Chamam destino ao rifão do acasoe chamam à fraude boa fortuna.Crêem no Batman e na Virgem Maria.Duvidam do frio, não da políciae nunca dão crédito àquilo que vêem.Reservam a tempo um lugar na geral,põem o pé entre duas ciladase ficam a rir-se nas fotografias.Sujam a roupa tal como nós, masmandam-na sempre a lavandariasque sabem tratar dos casos difíceis.Nunca dão ponto sem antes o nó,mas fazem um laço por cima do nó.Compram revistas de aval científicoem cujos artigos se prova o seguinte:é quase impossível determinarse é falsa uma lágrima ou se é verdadeira.Depois, jantam em grupo, falam dinheiro,guiam a vida por grandes veredas e ouvemsininhos, muitos sininhos de música sacra.- José Miguel Silva
More About: Contra
Passageiro
2008-07-31 22:02:00
Sou um passageiro.Isto em bom portuguêsquer dizer: estou de passagem.Virá o dia em que caduquea minha validade.Só o comboio é perene,inextinguível.Por isso é uma gratuitacrueldade a voz do altifalantedizer de vez em quando:- Senhores passageiros, isto.- Senhores passageiros, aquilo.Passageiro.Caramba,não preciso que mo lembrem.Não me enterrem maisa coroa de espinhos:já me está apertada,fundida com o crânio quanto baste.- A. M. Pires Cabral
As cidades ansiosas
2008-07-31 21:31:00
Estiveste ausente, nessa parte incertaonde um mundo inteiro conflui e se entretém.Maldições da espécie, esta fúria cega erguendoimpérios de areia que nos atiram para a convicçãode um futuro que não se chama amanhã.Por hoje regressas ao cativeiro de música ligeira,sílabas entrecortadas e queimaduras de cigarro.Estavas a pensar nela, em como arrefecemas inconfidências e logo se pressentea decepção da carne - tudo o que se dissee a esta hora já não passa de mera pornografia,rimas de um mau gosto avassalador.Contra o balaústre copiaste a imagem e o movimentode algum plano cinematográfico, numa mímicaencostada ao vazio. Retirado, num lapso para ládas implicações diárias e do momento que se seguea este - tão longe da hipótese de te atirares lá abaixo.Largos, praças e ruas que induzem em erro,manchadas de lentidão e inconsistências que atacama pele. Infelizmente deves estar enganado, mas parecepossível que se algum desses encantadores de palavrasse demorasse aqui nos habituais rodeios e se...
À janela da noite
2008-07-31 00:46:00
A noite chocalha de pesadelos.Crianças choram nas casas amontoadas,Um homem apodrece a ressonar.De pés silenciosos, guardas experimentam portas.Passadas tornam-se pessoas à luz de candeeiros.Bêbedos regressam de paródias,Soando a garrafas vazias e velhas cantigas.As raparigas voltam para casa,O prazer nelas ensurdece-me.Trotam como póneisE desaparecem por entre camas brancasÀ beira da noite.Todas as janelas se abrem na noite escaldante,E os que não têm sono, fumando no escuro,Fazendo pequenas luzes rubras junto à boca,Contam os anos dos casamentos. - Douglas Dunn
Anúncio
2008-07-28 05:28:00
Procuro mulher sincera e cautelosa,bela, hábil na cozinha e na cama,de boa linhagem, sábia e eficiente,que seja cuidadosa, terna, doce,extrovertida e de aspecto elegante.Que se dispa lentamente e tenhacarta de condução, uma carreira,olhos grandes e boca muito suave.Nem muitos nem poucos anos: os necessários.Deverá, ainda assim, dar-me alegria.Tem de praticar desporto, e gostarde música clássica e de leitura;atenta e sociável com os meus amigos.Não interessa a cor do seu cabelo,a raça ou a cultura. Quero apenas amá-la.Quero que, ao vê-la, a vida comece.Procuro apenas uma mulher preparadapara viver a minha prolongada morte.- Toni Montesinos Gilbert
Sobre o lado esquerdo
2008-07-27 05:22:00
De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.No segundo caso, o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».- Carlos de Oliveira
Outro
2008-07-27 00:06:00
Ao entardecer as ruas deixam-se atingirpelo que quiseres. Compassivas, legendadaspara um ameno português, enredam-see vão falindo pelas linhas tortasde uma subserviência sentimental.Numa hora em que ninguém te olhaou sequer procura, desfazes-teentre curvas e erros, passos teuse de um estranho que se habituoua seguir-te sem fazer comentários.Temos gostos diferentes e num cafécada um pede o que lhe apetece.Eu penso na vida, ele na morte, e ficamoslaborando à volta de insignificâncias,vagas ficções que acariciamos sabendoque houve gestos mais memoráveisque os nossos, arranhões mais fundosna pele do tempo, e que de qualquer modotudo sarou. O mal a que os dias nos levamtambém já pouco abala este peito.Vinte e três anos depois chegamos a isto- a floração podre do desencanto.Vejo agora esse enorme cadafalsoe como, um por um, os paraísos escoampelo ralo do nosso desinteresse.Como um espasmo, um pensamentodescobre-se consanguíneo com a cinzacuspida por este cigarro e o mais difícilde assumir...
More About: Outro
the dark knight
2008-07-25 19:23:00
10/10 - Uma obra-prima, pelos piores motivos
More About: Dark Knight , Knight , Dark , The Dark Knight , The Dark
Conserve este bilhete até ao fim da viagem
2008-07-25 19:19:00
Devo dizer que sempre preferios versos feridos pela prosada vida, os versos turvosque tornam mais transparentesos negros palcos do tempo, a dorde sermos filhos das estaçõese de andarmos por aí, hora apóshora, entre tudo o que declinae piora. Em suma, os versosque gritam: Temos as noitescontadas. E tambémos que replicam:Valha-nos isso.- Rui Pires Cabral
More About: Este , Conserve
Alcantis da Noite
2008-07-07 21:28:00
Para a Ana e o Diogo que estão sempre láFomos pelos arredores da alegria,tomando caminhos exíguos onde,entre os três, dividimos algunssorrisos benignos. E o corpoera a entrega mais fácil, o que primeirose adapta, desperdício vagante quealgumas vezes não pesa maisque a ligeira impressão de não haverregresso. Um gesto simplese no ínicio da noite ficava extinta,num cinzeiro, a primeira criançaque berrou virando-se num desaireafectivo - baloiço estragadode um parque que há muitodeixou de facilitar-te ingenuidades,delírios infantis e sonhos molhados.Rumámos, calmos, com os estranhosna obsidiante mistura de perfumes -higiene prática entre sórdidos desviose harmonias despedaçadas.Senhas e contra-senhasna lotaria da matéria carente:Bem-me-quer, mal-me-quer -gramáticas ordinárias e frutade uma época morta, crivada de ardorese desejos em segunda-mão. É a elegiapossível, aturando olhares sem fundoe despojos de novelas amorosasa demorar nos degraus que te antecipamtodos os sentidos e quedas pro...
Sou daqueles que
2008-07-07 21:26:00
Sou da geração dos que decidiram fazerpoemas depois de ler Lobo Antunes.Sou da geração dos que vivem a guerradiária contra vasos de flores de plásticoengomadas como os sorrisos que tentamsubstituir, mais falsas que a preocupaçãopelo bem-estar de um dente que imitam; sou dos que vivem a guerra diária contra a desordem no linho sulcado de suor evincos sem sono. Sou dos que antecipam a velhice por preferirem trocar os nomes dos filmes a não ver sempre os mesmos. Dos que estão na segurança tépidada casa como no calor polvoroso da guerra:sozinhos sem saber onde pôr as mãos e apontarcom igual insensatez ironias e metralhadorasde fabrico israelita; dos que não conferem duasvezes o canhoto do espelho, dos que não levantama tampa da sanita nem espremem por baixoo tubo de pasta dentífrica. Sou dos que se colam ao chão malgrado a minha idade e formaçãopara ouvir conversas de criadas com pobres de pedir, animais domésticos de tias etéreas que lhes colocam coleiras, açaimes e guizos. Sou dos que...
Estropiados da vida
2008-07-04 18:24:00
Estaremos reduzidos para sempreaos nossos semelhantes?E. M. CioranDesnecessárias afinal as melhoresdas tuas horas mais tristes, respira-seaqui e agora o ranço da desolaçãoe tu envolves-te uma vez maisem diferenças mínimas: de pequenas insistênciasa uns instantes de contágio.Alguma memória amestradora apertaum pouco mais contigo - uns restosde um sonho de véspera que se aguentarame te insinuam de novo o coração que já não tens.Os dedos, sem nada a apontar, apenasreparam as falhas no verniz e recontam-se.Tens dessas fixações com padrõese acasos simultâneos, alinhados, talvezporque o escuro e o caos te pesem tantonos ombros. A mesa e o corpo aconchegam-se,caucionados entre distâncias muito repetidas,figuras de estilo e outros sintomas que,melhor ou pior, se tratam com o fim da tardee do mundo, alguns copos depois.Aqui não há talento, só a indigente prestezade quem nunca se achou num espelho e que por issorouba de outros corpos o seu reflexo.E como me desculpo!, como me admito assustado...
More About: Vida
A.J.F.
2008-07-03 15:28:00
Podia não parecer, mas tinhamau feitio - e a caspaquase lhe ficava bemno veludo dessas tardesganhas ou perdidasnuma esplanada com vistapara o tráfego sonâmbulo das pombas.Não diria o tráfico, actividadesparalelas não se soube ao certo a quêe os tantos assuntosque morreram a seus pés.De resto, abominava os pássaros,os quatro elementos e a morte,cadáveres poéticos dos seus "contempo-raneozinhos" (necrófilos desempregados,sem jeito para alexandrinos).Repugnavam-lhe - e percebe-se muito bemporquê - a água pungente das sílabase o bucolismo azedo de certos cretinos.Ecologismos, só se lhe dissessem ondee para pós-moderno faltava-lhe o guarda-roupa.Talvez por isso se despeça aindahoje das antologiascomo um dia se despediu da vida:sem sombra de adeus, caramba!- Manuel de Freitas
Desolation row
2008-07-03 11:44:00
Everybody is making loveOr else expecting rainBob DylanÉ tudo uma questão de sombra,demorada e simples.Manuel de FreitasCoisas paradas, imersas na sua inutilidade,convidam-te à enumeração. Lá foraé como se o céu te doesse, aqui é mais fácileducar o cultivo e colecção de sombraspregando-as a variações cardíacas, letrasna direcção de um pequeno enfarte.Da arte poética, como de resto de outraqualquer, já se disse aquilo e o contrário,só o poema é que continua a seruma espécie de crime sem solução,cometido por quem, na altura, não estariapreocupado com isso. Pouca sorte talveze alguma destreza na captura de vestígiosde vida em ângulos improváveis, contraluz.O corpo é uma vaga margem onde atracamtantos silêncios, puxa-se a palavra como um filtropara este excesso que não se pode dizer, e no finalos versos recolhem o pó dos gestos, panfletose cartazes falando por alto da nossa solidão.Se esta fluência numerosa e acidental de artigosmerece atenção, não sei, se isto é um homem,também não fa...
Agente duplo
2008-07-01 23:54:00
Em casa sou um agente duplo. Agora em casa sou um agente duplo. Passo os dias a entrar e a sair com as abas da gabardina levantadas, a murmurar senhas, contra-senhas, códigos esfíngicos a garantir segurança, enquanto faço passar microchips dentro de aspiradores de 3 válvulas, a velhas de barba mal disfarçada, numa lojinha que fica numa cave de uma rua debaixo de uma varanda pegajosa. E tanto passo um chip a velha com barba e voz de barítono, como recebo um outro de um homem de trinta anos dobrado sobre o peso do reumático e e de 7 décadas encavalitadas nas saliências das omoplatas. Vendo e compro, ouço e falo, faço-me acompanhar de malas de couro negro e chapéus largos quando atravesso a cidade borbulhante da sala-de-estar, a despeito das forças inimigas que também são as amigas, e vice-versa (a minha vida é feita de "e vice-versas"). Viajo apenas dentro do nevoeiro londrino que são televisores ligados em explosões de luz, cor e apatia. Estou por dentro e estou por fora, estou contr...
Sidi Amar no Inverno
2008-07-01 07:22:00
Penso que nunca vi o teu rostoNum dia de chuva, quando as sombrias artérias do céuPulsam junto às árvores, e no teu coraçãoA água corre. Nunca te vi chorarCom o monólogo da noite, com a tua mente resistindo ao silêncio.Chegará o dia em que as linhas do céuSe desprenderão das torresE em que tu, que tremes pela noitePartirás para os lugares sombrios ao lado de um desconhecido.- Paul Bowles
More About: Amar
All you need is love 2
2008-06-29 19:59:00
Mas não é bem assim, dir-se-á.Vinte e seis séculos de líricadeviam, pelo menos, provar o contrário- na hipótese argilosa de essescadáveres afamados terem alguma coisaa dizer-nos quanto ao melhor métodode atravessar ruas superpovoadas.Onde eu te vi passar, meu amor,com o lenço vermelho, os cabelosmais curtos e as pernas que emboratenazes herméticas te davam - porassim dizer - um ar sofrível de corpo.Não sei porque é que reparei nisso,logo eu, logo hoje. Simples distracção da morte- a reinvindicar uma anatomia, e paz.- Manuel de Freitas
More About: Love
All you need is love 1
2008-06-28 19:44:00
E no entanto regressamos- aos becos onde o sangueinsiste em não ser tocado e visto.À espera de novos punhais. Quem sabe?Talvez a vontade - desejo de anulaçãonos braços tranquilos de ninguém.Ou a simples obstinação da carne, a levar-nospor onde jurámos não ir, lembradosdas vísceras e das intempériesa que emprestámos poemas maisou menos maus e uma urgência igualà que julgamos sentir agora.O amor? Não me fodam.Apenas um filme sem enredoque já vimos demasiadas vezese que vai continuar a acabar mal- como a puta da vida, aliás.- Manuel de Freitas
More About: Love
More articles from this author:
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7
44449 blogs in the directory.
Statistics resets every week.


Contact | About
© Blog Toplist 2008 - Supported by Web Catalog - SEO by FeWorks
eXTReMe Tracker