O Melhor AmigoO Melhor AmigoUma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue) Articles
Tunning
2008-06-28 17:12:00 O teu carro existe e é vermelhodesejo a tua namoradadisposta a tudo desde que seja contigoaté casar e ter filhospara semprenesta terra de fugir.- João Almeida
Overrated
2008-06-27 00:38:00 Numa estação qualquer, à espera de qualquer autocarro, o corpo é o silêncio e a sua pulsação aderindo aos tiques comuns e destrutivos do tempo, variando entre instantes ardidos numa cronologia imprecisa, descartando afeições - e depois pára. O pensamento recupera uma ordem, um método e vai buscar força aos sinais exteriores, a realidade que por pouco que seja, ou nos convença, ainda é só aquilo que nos faz companhia. Alguns velhos bebem cerveja, jogam às cartas e falam suficientemente alto para que mesmo longe os oiças. E é só isso, a conversa entre os velhos, sem nada que mereça ser sublinhado, mas agora concentras-te neles. Mais tarde chega um outro homem trazendo nos braços uma caixinha de chuva, senta-se na parte final de um verso teu (pode ser aqui) e deixa-se estar muito quieto no seu egoísmo solitário, mimado por alguma tristeza. O som da chuva a cair e as suas expectativas bem calibradas, reduzidas pelo dobro dos anos que acumulas de vida nesta antiga e fácil pátria da amar... More About: Overrated
Fidelidade
2008-06-26 22:07:00 Diz-me devagar coisa nenhuma, assim como a só presença com que me perdoas esta fidelidade ao meu destino. Quanto assim não digas é por mim que o dizes. E os destinos vivem-se como outra vida. Ou como a solidão. E quem lá entra? E quem lá pode estar mais que o momento de estar só consigo? Diz-me assim devagar coisa nenhuma: o que à morte se diria, se ela ouvisse, ou se diria aos mortos, se voltassem. - Jorge de Sena
Casualties
2008-06-24 14:17:00 My thoughts are childrenWith uneasy facesThat awake and riseBeneath running skiesFrom buried places.Philip LarkinUma módica dose de interessesossegado, a ver a transferência entre estadosde umas pedras de gelo no copo. As mãos também,relutantes, umas vezes pousadas outras dissertando.A escrita vai começando bem, pelas palavras,mas depois a tinta permanente tropeça-te no corpo,e não há outro sofrimento mais lúcidodo que o deste pedaço de vidaa boiar nalgum refrão. Enfim,talvez até isto resultasse melhorse se pudesse dispensar o fôlego da voze - já agora - o dos próprios versos.Não disseste ainda o que querias,ou, mais fácil talvez, fosse provar quese nunca tivesses escrito um versoterias dito tudo num arroto, e melhor.Estás mais velho, mais triste, despistasteo teu último sonho e a sua criançanuma carruagem apinhadade outro comboio para a terra do nunca- juntamente com aquela jura de amorque não tinha como ser cumprida - e hojeo mundo que te resta é uma simplese fiável dor de cabeça,... More About: Casualties
PRINCIPIO
2008-06-23 13:02:00 No meio de frases destruídas,de cortes de sentidos e de falsasimagens do mundo organizadaspor agressão ou por delíriocomo vou saber se a diferençanão há-de ser um pacto novo,um regresso às histórias e àsárduas gramáticas da preservação.Depois dos efeitos de recusase dissermos não, a que diremosnão?Que cânones são hoje dominantescontra que tem de refazer-sea triunfante inovação?Voltar junto dos outros, voltarao coração, voltar à ordemdas mágoas por uma linguagemlimpa, um equilibrio do que se dizao que se sente, um ímpetoao ritmo da língua e dizera catástrofe pela articuladaafirmação das palavras comuns,o abismo pela sujeição às formasdirectas do murmúrio, o terrorpela construída sintaxe sem compêndios.Voltar ao real, a esse desencantoque deixou de cantar, vê-lona figura sem espelho, na perspectivaquase de ninguém, de um corpopronto a dizer até às manchasa exacta superfície por que vaionde se perde. Em perigo.- Joaquim Manuel Magalhães
Sombras pelo caminho
2008-06-22 12:58:00 Foges, mas de tal modo a olhar para trásque a tua sombra fica pelo caminho.José Amaro DionísioAcomodado entre pretensões estafadas,rastos e resumos nas paredes, números de telefonepara ligar no caso do silêncio nos pegar fogo,está ali um rosto a emoldurar o susto deste cenário,com o olhar a pique recortando desajeitadamentecada vulto, os contornos indistintosdo capital humano desbaratado noutros sonhose derrotas. Tresnoitados, inflamáveis, livrespara morrer e diluídos na assombração uns dos outros.De pouco se fazem, aqui, os dias.Alguns trocos para simplicar a ciência holísticado abandono, um modo de florear a ausência,as pontas dos dedos adoçadas, revirando um bolo,depenicando o creme, separando outro cigarropara a extinção - fumo e efeitos no dominódestas tardes. Mas estavas a pensarnuma outra ocasião, sensivelmente distante,em que alguém - cansando-se de esperar -se deixou perder recostada a uma dessas cançõesque na falta de assunto se desviam para o amor,e seguia por aí declara...
Ron Mueck
2008-06-20 18:04:00 A Girl, Mixed Media. 2006 A Girl, (Installation) 2006 A Girl, (detail) 2006 Spooning Couple, Mixed Media. 2005. Spooning Couple, 2005 (in progress) Spooning Couple, 2005. Human hands comparison Untitled (Head of a Baby), Mixed Media. 2003 Boy, 1999. Mixed media. 4.9 x 4.9 x 2.4 m Boy, 1999. Top view Boy, 1999. Close-up Boy, 1999. Close-up foot Untitled (Seated Woman), 1999. Mixed media. 25 1/4 X 17 X 16 1/2 inches In Bed, 2005. Mixed media, 63 3/4 x 255 7/8 x 155 1/2 in. (161.9 x 649.9 x 395 cm). Private Collection In Bed, 2005. Close-up In Bed, 2005. Rollers in the hair - Close-up Big Man, 2000. Mixed media, 80 x 47 1/2 x 80 1/2 in. (203.2 x 120.7 x 204.5 cm). Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, Smithsonian Institution, Washington, D.C. Big Man, 2000. Different angle Two Women, 2005. Mixed media, 33 1/2 x 18 7/8 x 15 in. (85.1 x 47.9 x 38.1 cm). Glenn Fuhrman Collection, New York Two Women, 2005. Close-up Mask III, Mixed Media, 2005. Mask III, 2005 (Insta... More About: Ron Mueck
Requiem por um desconhecido - Claude Chabrol (1969)
2008-06-20 06:58:00 Chamem-lhe arcaísmo, se quiserem,mas eu penso que a vingançatem ainda lugar no coração da justiça.Quando o corpo é ofendido e perde sangueaos borbotões, a lei é uma compressaineficaz, não estanca a dor que sentes.Se te arrancam a mão direita, tu vais pôr-te,com a esquerda, a coçar a cabeça?Não vais. Há dívidas que só podemser cobradas por quem sofre.Orestes, que não tinha felizmente, advogado,fez o que lhe competia.Tivesse ele posto uma acção em tribunalcontra Clitemnestra e - quem sabe -ainda hoje andaria por aí, de crânio na mão,a soluçar como um pateta vindimado:ser ou não ser, eis a questão.Não. A lei não dá conta de todo o mal.Às vezes é o sangue, por estranho que pareça,o melhor detergente. Nisto me fundopara reclamar de vós, juízes, a absolvição.- José Miguel Silva More About: Requiem , Claude
Advertising space
2008-06-18 14:11:00 I saw you standing at the gatesWhen Marlon Brando passed awayYou had that look upon your faceAdvertising spaceQuem me dera sermenos realista, menos real,menos permeável ao desgosto.Para quem insiste tanto podias(pelo menos agora) fabricaralguma coisa fora do programa,falar que hoje a presença a que confiasas tuas tardes todas, se esqueceuda doença que o há-de levare sorriu quando entrastee lhe reduziste um pouco a médiadas idades que mantêmo seu estabelecimento aberto.Mas, como é sabido,um sorriso é das coisas quemais facilmente se perdempelo caminho de regresso a casa,à medida que deixas o rascunhoe arrumas entre estrofes tudoo que não tens a quem dizer.Falas por alto, sozinho, num disfarcede loucura, falas de tristeza e abulia,este serviço público que varreos seus utentes das ruas para os cafés,onde a luz e a cor só entramde forma muito racionada, em fiapos.Encontra-nos ainda cedo quando vamospara as praças dar o corpo de comeraos dias, e vem chamar-nos, vem brincaràs escondidas. ... More About: Space , Advertising Space
Spot
2008-06-18 08:51:00 "A vida não pode ser assimtão assustadora",diz a margarina becelem horário nobre,para não-cardíacos.O que, na verdade, medeixa saudades da censura,de uma censura novaque exterminasse imbecise deixasse a terra a quemela é, como deve ser, pesada.- Manuel de Freitas More About: Spot
Tatuagem
2008-06-18 05:37:00 Olhas para ele divertida e convidas-te a um copo.Se a sua história fosse boa,se tratasse de uns homenzecos sujos,de drogas ou de hotéis vermelhos como um corno,de uma morte não explicadaou de uma vida inexplicável,a coisa, querido, mudaria.Mas não. O pacóvio palra e palra de Acapulco,canta Aznavour com voz de franciscano.Eu sou, atira-te, gémeos, e tu,espera querida, espera, tu és touro.Assim é como o gajoconsegue uma queca lá na tribo dele.Com isto do amor, digo-lhe por coqueteria,vai bem o bâton gretado,os parques remotos, o cigarro sozinha,as luas amolgadas,os carros espatifados.Levanto-me para comprar Gauloises.Deixo-o com os olhosafundados no copoainda mais turvo que os meus olhos.Já na rua,penduro-me de um catalãoE trauteio esta canção de Piquer:E ele veio num baaarco?- Violeta C. Rangel
Estudos comparados sobre o silêncio
2008-06-17 08:14:00 Comprimidos e um revólver para persuadiro sono a avançar agora que já passa das três.A respiração tornou-se mais pesadaenquanto se enrolava no gatilho, só quea consciência não quis ceder e ficou presaa observar o rio parado entre estas mãos,dois inseguros electrodomésticos ligadosà corrente, em standby.A casa suspira longamente e a mobília mental,que encomendaste quase toda por catálogo,abre as suas gavetas e portas para recolhero que fica após o curto-circuito de uns versos.A noite às colheres, a mastigar-te lentamentee quase às escuras, só és um vulto impreciso.Os olhos como dois furos na página e a bocaa tremer, num modo de soletraralguns devaneios e pequenas distorçõesde nicotina. Surge-te pela frenteum corpo de mulher, um breve desenhode fumo, dançando no arantes de se elevar para além do tecto,numa ascensão que oferece provas à tua ideiade que o mundo está todo a cair.Aqui estás tu, outra vez, assumindouma produção em série a partir de vocábulosimperfeitos e memórias vencidas,...
Parque Eduardo VII
2008-06-16 05:23:00 Uma sala inteira ouvindoversos insípidos de um poeta,longe do coração, escorrendopelas paredes, previsíveis,como água pelo casco de um navio.(Tratando-se de um filme, os violinosentrariam poventura nesta parte.)Tudo o que sinto é uma bolhano calcanhar do pé direito,mal escolhidos os sapatosque me trouxeram até aqui.A vida raramente nos conduzaos locais certos. Talvez a morte,mas não quero pensar nisso.Há-de haver outra maneirade sair desta cidade.- Vítor Nogueira More About: Eduardo
Em Creta com o Minotauro
2008-06-16 05:19:00 Nascido em Portugal, de pais portugueses,e pai de brasileiros no Brasil,serei talvez norte-americano, quando lá estiver.Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,se usam e se deitam fora, com todo o respeitonecessário à roupa que se veste e que prestou serviço.Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátriade que escrevo é a língua em que por acaso de geraçõesnasci. E a do que faço e do que vivo é estaraiva que tenho da pouca humanidade neste mundoquando não acredito em outro, e só outro quereria queeste mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,espero envelhecertomando café em Cretacom o Minotauro ,sob o olhar de deuses sem vergonha.- Jorge de Sena
Um espaço que coze por dentro
2008-06-16 05:17:00 Deveria ter feito da minha música um amor mais silenciosocomo se de uma arte privada se tratasse.A ti, a quem falo de poesia, a tique assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,respondo-te que também eu não compreendo,que não há que compreender,porque nada nos condena à falaantes que as palavras aconteçam.Por exemplo, esse poema começado numa manhã de Junhoe nunca terminado: um princípio de verão,a janela que dá para o alcatrão sem tráfego serpenteando pelas colinas.A rua de dia de semanae o arquipélago da solidão despertandopara as poucas coisas que procuroe que o poema irá entretecerse entretecer. -A virtude que, cega,vai conhecendo o seu caminho.Desprende-se um fio luminoso da impossibilidade das palavras,e se ficamos tristes não era para ficarmos,pois não existem momentos irrepetíveis.Eles aninham-se no sanguee voltam a mergulhar-nos na experiência:um dia de verão, um bosque, colinasonde a serpente de alcatrão se enrola.A ausência de tráfego como motivo.A pouco...
Praia de Santa Rita
2008-06-10 18:58:00 Não há muitas tardes assim.O vento chegava quase devagarao teu e ao meu rosto, o marfazia-nos parecer mais juntos,o próprio sol era uma carícia? enquanto um mosquitoassediava o meu copo de cerveja.Mas chegaram os das roulottes,em busca de mesa, obrigando-nosà sua voz motorizada, suspensaentre palitos. Lembrei-me, claro,desse nojo atávico, das tendasinabitáveis da infância, de tudo o que fezde mim um instrumento do desastre,alguém que já não encontra o esquecimentona espuma de cervejas mortase conhece todos os antónimos de beleza.- Manuel de Freitas More About: Santa , Santa Rita
Nome e idade
2008-06-09 20:39:00 Retomando a palavra, "cá estamos,não é?", de volta aos mesmos vazadouros,as arestas onde o rosto se vem esbaterno entorno displicente de um infinito pessoalentre tímidos clientes, profissionaisno desemprego de um coração porco,omnívoro, pegajento, ordinário, fraco e inútil.Nós e o bolor, subindo as paredes,revirando os cantos e o vazio,com esta sensibilidade de amputados.O olhar moderador do taberneiro,sabendo de cor o caminho até ao teu,chamou-te à parte para dizer-te quea juventude está no fime que não ta poderá servir mais -esgotou no stock. E é assim, não há masnem porquê, e nem é raro isto,sermos forçados ao desmame, termosque escolher entre o que há - the nextbest thing - até nada nos restar e a vidair deixando de ser esta, às vezes,tão simples questão de maus hábitos.Se ao menos um verso pudesse fazeralguma diferença..., mas nunca faz.Isto, aqui, são meros recados onde não se deveperceber um destinatário, cheios de distânciasimprecisas e derivações pouco lógicasque alinhas e ...
Hotel Casa de Mar
2008-06-09 19:33:00 Certa manhã abres a janelacom o corpo nu da cintura para cima,o ar entra limpo e turvo e ela imprecisano outro lado da cama.Certa manhã acendes um cigarrosentado à beira da camae olhas demoradamente para ela a dormire demoradamente regressa a imagemdela a beijar-te o sexo umas horas antes,antes, três anos atrás,não havia sequer uma janela para abrir.Certa manhã acordam-te os primeiros ruídos da ruae corres as cortinas e abres a janela,uma ligeira aragem seca o suor das costas nuas,procuras o tabaco no casacoe olhas para ela e o seu rosto não te diz nada.Talvez te apeteça acordar o seu corpo e beijá-lomas fumas lento e olhas-te no espelho do fundoe quase nada te diz o teu rosto.Certa manhã agradeces a frescuraque a janela deixa entrar, apagas o cigarro no chão,vais à casa de banho beber um copo de águae ouves que diz algo no seu sono.Ao passar não te reconheces no espelho do fundoe deitas-te de novo e de novo levas o teu sexoaté às suas mãos.- José Ángel Cilleruelo More About: Hotel , Casa
Closing time
2008-06-06 10:05:00 Não demorará muito até que o último refrãote deixe cair um peso nos ombros, um avisoantes que o fade out te escorrace. Porfiaste ali,meio ausente, puxando a alavanca de uma máquinado tempo, a gorgolejar sobre um rastilho de imagens,ligadas por um fio de baba e soprandogolpes de ar para o saco furado que levas no peito.Agora recolhes de volta aos bolsos a pequena agoniadas coisas certas - as chaves de casa e a carteiracom os documentos e as incontornáveis letras do teu nome.Levas aos lábios outro final infeliz e pagastrês, quatro, seis cervejas e nem duas horasde convívio entre outros espíritos espancados,largados aqui à beira da morte.Cá fora uma brisa mijada desperta-tepara o aspecto assassino destas ruas que seinjectam no olhar. A pele parece permeávelaos vírus que se apanham no escuro, pontilhadaaqui e ali por manchas lunares, um susto húmido,sujo e pegajoso. Uma sombra acende-te um cigarroque puxas em espaços muito curtos e seguidos.Chega-te um choro subterrâneo e o seu ecoentre... More About: Time
Mester de hotelaria
2008-06-06 05:37:00 Subiu comigo até ao quarto,vi como acendia um cigarro e falavano corredor a um papagaio cinzento e amarelecido de nicotinaou de vómito. A luz esvaída, áspera,do fluorescente reflectia-se nos seus olhos.Cambaleava, desabotoou a blusae deixou mal dobrada a saia sobre o catre.Senti horror,e um desejo imediato de estar bêbado como ela.Mexeu-me debaixo da roupa e acendeuoutro cigarro e deixou-o nos meus lábios.Não soube para onde olhar, que dizer, comoagradecer a carícia.Foi talvez o combinado.- José Ángel Cilleruelo
[Santa Apolónia]
2008-06-04 23:48:00 O olhar desenha por sobre o vidropaisagens incompletas: horizontede prédios às cores e com lampejosde alumínio e, diante, um descampado.Sucedem-se colinas com escombrosdomésticos, de vez em quando bairrosde lata erguidos com divisóriasde cartão e madeiras, tectos baixos,a meio um pote fumega, criançascorrem a competir com o comboio.O rectângulo da breve janelapassa tão depressa, não retém nadada paisagem olvidadiça, feia,tão cega como os olhos que a vêem.- José Ángel Cilleruelo More About: Santa
Copycat
2008-06-04 16:31:00 A partir daqui não és mais que uma sentinelaobservando lá fora aves de arribação,transviadas depois para o papel.Deixas que tudo se despenhe na vertigemde um mesmo ciclo, na exasperantemímica de pequenas assombrações,o êxito fútil de uns versoscosidos a um corpo sob pena suspensa,um corpo que se drogae quer desertar de si mesmo.Menos sóbrio, vais-te delapidandoaté que a pose circunspecta se perdee se encosta à caligrafia,sucumbindo vagarosamentena inclinação das viciosas ruasque se prendem a essa garganta.Mordes as unhas e as desilusões,enrolas-te e reclamas de novoum lume cansado. Fumasprejudicando gravemente essa saúdee depois apagas a feridanum cinzeiro.Lês nos jornais a hora e o localda tua sucessiva e indiferente morte.Quando à tarde, num jardim mitológico,passeias, não deixas nunca de colheruma cadavérica flore vais com ela na mão fazendo um sorrisoe andando às cavalitasnas costas dos teus fantasmas.Mais tarde escreverás"um revólver imaginário" no diário.Sentindo o seu peso fr... More About: Copycat
Rygning Kan Draebe
2008-06-01 22:36:00 Na Vester Farimagsgade, neste quartode hotel sombrio, tentas escreverum poema sem nicotina e ignoras quase tudo:a língua em que te falam, os materiaisde construção do prédio em frente, o destinodos comboios que perfuram o subsolo de Copenhaga.Mas também o nome das flores e das plantasque alastram pelas fachadas - ou que nuvens trazemou não trazem chuva à janela que deixaste aberta.Não há muito para ver, esta noite. Bicicletaslouras atravessam uma estrada húmidae fumegante, percorrem talvez felizes a ausênciade neve e de sentido. Enquanto não muito longe(prometeste o segredo que não chegas a trair)alguém toma por missão o que é obraapenas do acaso: a poesia, essa doençabranda mas incurável que hoje se recusaa visitar-te - com ou sem cigarros, impossível.Asfixiada, quase gentilmente, pelas luzes todas do Tivoli,onde o esquecimento obedece a tarifas sem retorno.Deixa; não te fará mal - nem bem - menosum poema na tua vida. No reflexo de múltiplas janelas,em todos os comboios que perdere...
Ficções
2008-06-01 13:10:00 Pitchfork: So the second you write something down, it's fiction. Tom Waits: There is no such thing as nonfiction. There is no such thing as truth. People who really know what happened aren't talking. And the people who don't have a clue, you can't shut them up.
Estranha nacionalidade
2008-06-01 10:53:00 Um domingo e um caderno e uns versos.Nunca nada e ninguém são o mesmo.Pois o tempo, que morreu nos nossos braços,assinalará apenas domingos, mortosdomingos com malhas, com manchas, sóis.José Ángel CillerueloDa noite ficará um ziguezagueante caminhode versos. A impressão de um afecto vadio esombras esvaídas que o narrador,ainda meio embriagado, fará um esforçopor recordar. Neste último lagar(ou caderno de apoio à esplêndida ruínado corpo), cada pensamentodedica-se agoraà reconstrução dos factos, forjandoalgumas provas, enunciandoos diminutivos todos e algumas observaçõesde natureza eufemística.Aqui assoma-se o inconstante retornoda pouco diversa faunanocturna que, por estas e outras linhas,vai recuperando de dívidas em atraso,fugas e evasões frustradas, desviosimpossíveis e mais coisas acumuladasao longo da semana. Era uma vez...e depois outra, hábitos proibidos ea despudorada confissão de segredos,tudo o que álcool devolve à banalidade,o mais puro estado que se consegue. E o mundoco...
Esboço de caminhante sem rosto
2008-05-31 17:58:00 A vista que soçobrae a respiração de ladrilhos que ao passarse crava nas têmporas,ninguém que abrace este corpodesventurado por avenidasde uma cidade que conserva,tal e qual os homens, as ruínas.Os bares que sem atenção o acolheme o misturam com sonhos encobertos,raparigas que sorriem. A vidafoi esvaziando este coraçãoébrio da urina com que os deusesmatam lentamenteaqueles a quem não amam.- José Ángel Cilleruelo
Los Borrachones
2008-05-30 22:52:00 Falamos repetidamente do mesmo,como quem exercita a pontaria num alvocansado - o corpo, a noite,enfim, a morte.Já não se trata de um desuso do tempo,ou da vida que mal nos quer. O pianoembriagado, ao fundo da sala, às vezesainda encontra umas notas que nos sabemmagoar. Há momentos destesem que quase parece fácilrecusar uma companhia afectiva,o breve esplendor sexual e o dano de outraspalavras que se vão gravandocontra o mundo e a pele.É tão mais simples controlar a pontuaçãono papel, no guardanapo em cima de um balcão.Desapontar reflexos, sem que nos preocupeo tempo real ou a habilidade no ensaiode uma expressão vazia.Verter aos poucos todo o nosso desconhecimentode causas, deixando levedar a solidãona sombra de qualquer garrafa.Invocar todas as atenuantes e movimentosno escuro, trauteando cançõesde embalar fantasmas e deixandoque neste brando lume se cozamas melhores bebedeiras, enquantoaperfeiçoamos um epitáfio.A qualidade literária dos versos ficaráà consideração dos críticos e e...
HBO - THE WIRE
2008-05-29 23:56:00 primeira série - 8/10segunda série - 8/10terceira série - 9/10quarta série - 10/10 More About: Wire , The Wire
Any given Sunday
2008-05-29 21:27:00 as a tribute to M. F.A ironia é acordares cada vez maistarde para os dias iguais, este cruel bailadoamarrando-te o corpo a postes eléctricos,à vertigem dos abismos repetidoscom acompanhamento de uma músicacarregando-se de sincronismos, um ritmode que perdes a noção embora não falheso compasso.Cada vez menos o improviso em queacreditaste, nenhum jazz, apenas a aposiçãodo nome a esta sinfonia de pequenos e incalculáveisdesastres, declives e fossas que,sob nenhum pretexto,te darão descanso. A cidade colaboracomo pode, rendendo as suas ruas à forçado hábito, oferecendo anteparosonde atinges facilmente o augedesse anonimato - de que tantos outros,em vão, se esganam para lhe escaparem.E o que querias dizer é "o inevitável"e os variáveis modos de a elenos resignarmos ou a regular sonolênciade uma cidade que nos manda morrer.Mas, como sempre, talvez não seja exactamenteisto o que o verso quer, ainda assimé certo que nos momentosde maior eloquência, será o silêncio quempor nós virá falar.Por... More About: Sunday
Veludo formol e tinta
More articles from this author:2008-05-29 02:38:00 Para a AnaOs nossos mortos estão menos mortosDo que os veludos que os embrulhamA rigidez fria dos corpos vem nos livrosNão nos corpos, a língua que trazemos,como lentes de contacto mas opacas,de tanto se valer da cor cegou-nos,De tanto cantar olhos vítreos, alvas facesDedos a acorrentar fios de terços ou deMadeixas de cabelo ? a língua de tantoCantar o suplício graficamente longoDe quem morde as extremidades atéAo sangue para que as sinta, fechou-nosOs ouvidos aos gemidos reais da camaDe ferro e da criatura de carne que jáNão geme, já exangue, a depenar-se,a mutilar-se, a multiplicar-se, enfim,na árdua, infrutífera tarefa: mostrarque o cancro a velhice o fim da memórianão terminam tudo, não consomem tudo. A língua fala-nos dos mortos, mas sãoMortos de veludo, formol e muita tinta. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 |



