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O Melhor Amigo

O Melhor Amigo
Uma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue)
Articles: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7

Articles

O sonho: a escada aos pés da alegria
2012-01-22 05:03:00
Ela queria dar maçãs mas sem saber porquêe caber no chão e esquecer-se do seu nomee de crescer. depois, ela queria ter um paísa rebentar na boca, um amante ciumentoa respirar cheio de medo. e poder fingirque o esquece e queimar-se muitonas palavras que lhe diz.havia de mostrar-lhe as mãos cinzentase de cuspir o seu amor na água podredos caminhos. e havia de matá-lo,com a mão de aço na coroada cabeça e o sangue a florir nas ruas de vermelho,arrastando poemas, candeeiros,a cama, o lençol branco, a mesa da cozinha,um nome da alegria, o cesto para o pão,e haviam de chegar à mesma casa, árvore, país,corpo, sonho, vida, poema, como uma fonteque regresse à própria bocaainda com mais sede.- Rui Costain O pequeno almoço de Carla Bruni, Livro do dia
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Tadeusz Rózewicz
2012-01-19 17:27:00
De há um tempo para cáDe há uns anos para cáo processo da morta da poesiatem acelerado.aviseique os novos poemaspublicados nos semanárioscomeçam a decompor-seao fim de duas ou três horasos poetas mortosvão-se rapidamenteos vivoscospemcom pressalivros novoscomo se quisessem tapar com papelum buraco.A morteA parede a janelapara lá da portaa voz de um meninopara lá da janela a ruaum eléctricoentra o rei Herodeso diabo a morteentrego ao rei uma moedae expulso toda a companhiado outro lado da portaa morte éverdadeiraolha em voltae ameaça-me com um dedo.traduções de David Teles Pereira e Constance Nowakówna
A gravidade do coração
2012-01-19 01:13:00
A água das fontes corre gravemente como a boca de um cão. A rosa intimida-me. Nunca ri. E a árvore dorme de pé. Não brinca. Ordena, por exemplo, à sua sombra: deita-te, descansa, partimos assim que anoitecer. Ao anoitecer, a sombra sobe-lhe para os ramos e partem.Quem ama escreve nas paredes.Se eu visse o meu coração, já não teria coragem para te sorrir. Ele trabalha demasiado nesta noite sem lua. Deitado sobre ti, espreito o seu galope, que me traz uma má notícia.- Jean Cocteau(tradução de Inês Dias)in Poésies (1917-1920)?
Auto-retrato em técnica mista sobre linho
2012-01-18 17:33:00
Um homem minimal-repetitivo,a vida toda em três ou quatro notas,a alma morta, o coração lascivo,andando sobre um velho par de botas.Homem suprematista, quase Cage,com o silêncio às costas, como pena,sem vislumbre de boca que se beijecomo Páris beijou a Bela Helena.E, no entanto, um homem singular? mais singular não houve ou haverá! ?,que, num arame torto, soube amarum equilíbrio todo pós-Dada.- Miguel Martinsretirado daqui
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Porta fechada
2012-01-18 06:16:00
Pois bem, eu erao enamorado. O que nuncaquis ser.______Era o que arrastavaos seus sapatos pela cidade,sobre os passos do negócioe a política de guerra.Não adivinhava a hora de dormirnem sabia comoabrir a cancela.Eu era exactamenteo que nunca quisera alguma vezser: o enamorado.Personagem para um conto próprioem que aparece um relógioque se adiantou; para uma históriadifícil de escrevere certamente de êxito.Desconheciao começo e o desenlace:apenas podia escrever o presente,apenas o nu daquele retrato.A saber: cabos eléctricose grinaldas de luzes friasrecordavam a infantilidade;a infantilidade dos meus instintos.Eu desejava o que nuncase desejou como desejo:desejo demais para mim,para os demais, quase nada.Para os outros, menosque uma luz que se acende ou não.E eu deslizava por mimentre o cheiro da injustiça,sendo aquele que amava menosser: o enamorado.Eu conhecia o ninho ocultoque há debaixo dos candeeiros,a pistola que aponta sobre nósdesde os maciços de flores.Com uma experiência tã...
A noite misteriosa
2012-01-18 01:39:00
Quando durmo, um pássaropousa no meu ombro.Vou sem minha sombrapor essa alamedaque só há nos sonhos.O sol rompe a névoaque cai do céu branco.O pássaro voae termina o assombro.- Lêdo Ivoin Poesia Completa, Braskem
O que acontece enquanto dormimos
2012-01-18 00:10:00
Gelo. Raposas. Assassinatos de coruja.A abóboda celeste.Camiões troando com um destinopara chegar ao amanhecer.Gotas de orvalho formando-seao longo dos fios do telégrafo.Um cervo vermelho degustando delicadamentecada tulipa fechada como uma oração.- Esther Morgan(tradução de Ricardo Marques)
língua morta 021
2012-01-17 01:37:00
Ainda antes de lançarmos o próximo livro de Miguel Martins («Um Homem Sozinho», Língua Morta 020), este Sábado, dia 21, pelas 22.30h no Bartleby, será lançado o livro «Não Eram Rosas», de Amy Lowell ? poemas seleccionados e traduzidos por Ricardo Marques.
Asilo Santa Leopoldina
2012-01-17 00:46:00
Todos os dias volto a Maceió.Chego nos navios desaparecidos, nos trens sedentos, nos aviões cegos que só aterrizam ao anoitecerNos coretos das praças brancas passeiam caranguejos.Entre as pedras das ruas escorrem rios de açúcarfluindo docemente dos sacos armazenados nos trapichese clareiam o sangue velho dos assassinados.Assim que desembarco tomo o caminho do hospício.Na cidade em que meus ancestrais repousam em cemitérios marinhossó os loucos de minha infância continuam vivos e à minha espera.Todos me reconhecem e me saúdam com grunhidose gestos obscenos ou espalhafatosos.Perto, no quartel, a corneta que chiasepara o pôr-do-sol da noite estrelada.Os loucos langorosos dançam e cantam entre as grades.Aleluia! Aleluia! Além da piedadea ordem do mundo fulge como uma espada.E o vento do mar oceano enche os meus olhos de lágrimas.- Lêdo Ivoin Poesia Completa, Braskem
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Nosso lixo
2012-01-16 21:45:00
Não enterres o lixono lugar do homem.Enterra-o, bem fundo,no lugar do bicho.Mas aprende anteso que é lixo:garrafa de plástico,resto de cosméticoe cílio postiço,bola de bilhar,escova sem pêlos,calota amassada,papel celofaneque envolve as orquídeas,cartaz laceradoque sobra das mídias,fuligem dos sonhosmedonhos que temossozinhos de noite,gordura de pizza.monumento sujode nossa grandeza,pirâmide erguidapelo faraóque dormita em nós,o lixo é sagrado,dádiva do deusque engendra a fumaçae a lava que mataos peixes e os pássaros.Teu irmão trapeiroque vai nos monturose, leal, disputacom os urubuso mais fino achadoensina a verdadeque ilumina o mundo:o que é do homemo urubu não come.Aprende com elea defender o teu:botão de blue jeans,calor de fogueira,vôo de gavião,letra de hipoteca,riso de rameira,púbis de boneca.Aprende a cataro entulho fulgenteque o mundo vomitae depois separao joio do trigoe o enjôo da tribo.Deixa no monturoo que nada vale.Só convém guardaro que consideresútil, proveitoso:res...
Ian Pindar (1970)
2012-01-16 21:31:00
CINZASsão corpos disfarçadosmisturam suspiros comlágrimas num jardim perdido.Um ar de importânciapermeia estescosmonautas deadubo,que a pompa de céu e estrelasignora.Parvos dos homensque habitam corpos comometáforas.?ESTUDO DE UM CORPODespido numa cama, o sexo numa sombra,homem ou mulher, não importa.Qualquer coisa naquele peito enjaulado, cativo, em pousio,um cheiro a lençóis por lavar.Um escuro para lá de tudo.Nada visível, salvomembros que se voltam, buscam descanso,braços e pernas dobram-se, desdobram,como um fantoche vigia as articulações.A cabeça que mexe de lado a lado,como socada por punhos invisíveis,de ângulos diferentes, de dentro.??A VESPA E A ORQUÍDEA«?a forma de vespa da orquídea, a forma de orquídea da vespa».Um milhar de palcosescondem o seu únicoterrível testículo.Debaixo da terra, ergue-se,venusiana, imodestafloração, olhos e tudo,antenas e asas,o proeminente labelo(«coberto de longos pêlos,lustrosos e avermelhados»)«semelhante, na cor e estrutura,ao abdómen da ves...
Ela
2012-01-16 19:58:00
Franjinha sebosa se levantado banco onde estáe vem sentar-se ao meu ladono ônibus vazioTalvez seja secretariaTalvez preencha boletos ou monitoreas entregas dos motoboysTalvez lave a franjaduas vezes por semanacoma pizza em dias alternadostenha um gato e se masturbequando a novela acabaTão logo toma assentocerra os olhos, cabeceiaTenho medo de que babeperca o equilíbrio e desabesobre a minha pessoaDedos cruzadosem posição de precesua postura é bizarraEla é devota de algo ou de alguéme seu sono conta pontosno placar sombrio de algum paísaonde os versos não chegam - Fabio Weintraub in Baque, Editora 34
Aguardente e pólvora
2012-01-16 15:39:00
Deu errado o que faltavaEstou como quem acordasem ter para onde correrGigolei puta doenteroubei firmabotei fogovendi pedramalhei póAgora só lambo cacovivo mijado e com fomeTremo de frio, caloralguém manda beberaguardente e pólvoraquarenta dias seguidospara ver se enxugoas poças de dentroSe eu pudessefincava um prego no céue amarrava a cordapara o teu pescoço- Fabio Weintraubin Baque, Editora 34
A autora com a edição nas mãos
2012-01-15 20:40:00
A foto aparece no blog da Tea for One com a seguinte legenda: «Inês Dias com o pleno da edição de ?Em caso de tempestade este jardim será encerrado? (foto de Marta Chaves)». Inês ri mas percebemos que o volume ainda pesa e não dá muito jeito a transportar; e o autor do post e editor, Miguel Martins, ri-se manifestamente com a legenda que escreveu para a foto que Marta Chaves tirou, enquanto (de certeza) esta dizia a Inês para se rir para o passarinho. Eis, pois, a diferença empírica entre um livro de poesia e um romance: a edição do romance não caberia num pacote transportável pelo autor. Seria caso para perguntar, entretanto, o que justifica, na era do digital, esta insistência na edição do «livro de poesia». O romance, é sabido, está a acompanhar a grande migração do livro para o e-book, seguido de perto pelo ensaio. O livro infantil será a próxima vítima, seguramente, já que a interactividade activada pela ilustração e pela relação entre esta e o texto só ganhará co...
Achamento e duração dos mortos
2012-01-15 14:44:00
És o cemitério.Os mortos não jazemdebaixo da terra.Não estão ocultosnum lençol de relvamas sob tua pele.Tuas veias sãoruas onde os mortospasseiam fagueiros,e em férias percorrem,turistas do eterno,os museus do éter.E nas terras velhasde tua memóriaalmas veraneiam.Meu filho, viveré comerciarno balcão dos mortos.É achar no chãoo botão caídode um casaco antigo.Os defuntos vivemfora dos seus ossos,ocultos nas lágrimasdos vivos que choramou mesmo no orvalhodo ramo de flor.Mortos continuamvivos, quando amados.Viver é guardá-losdo verme que os come,da erva que os encobre,do nada infinito.Fechado o ataúde,seguras as alças,o morto se evade.Em verdade um mortonunca é enterrado.Volta com os vivosde seu próprio enterro,deixando na covao pó de novembro.Por isso acordamosnas noites escurascercados de mortos.O pai morto dáconselhos miúdosao seu filho aflito.E a mãe morta vemembalar, na noite,o filho barbado.(O menino eternoque qualquer mãe mortacarrega consigo.)Nesse minifúndioque é a tua memóriaf...
Duas coisas
2012-01-14 20:38:00
- Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal.- São talvez as que eu próprio sei.- Sem dúvida. É por isso que aqui estou, e é por isso que podemos falar com toda a franqueza.- Diz-me então a primeira dessas coisas. Sou todo ouvidos.- A primeira é que o mundo em que vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.- Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?- A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.- Albert Cossery(tradução de Júlio Henriques)in A Violência e o Escárnio, Antígona
Finisterra
2012-01-14 18:09:00
Ando na multidão e o meu nome é Ninguém.Na cidade que cheira a peixe podree gasolina e demagogiapisado pela tarde vou roçando as escamasdas paredes que cosem a minha dor.Sob este céu vinagre sugado por turbinasum vômito de cifras me estonteia.Levo na maresia o meu amor de homeme ninguém sabe que amo a não ser os cãesque farejam meus passos pelas alamedas.No auditório do medo o meu fervor respondea um estridência de pedras desmoronadase nas galerias ouço escorrero meu amor de água; e o meu amor de florbrota nos quiosques pálidos e atravessaas pedreiras e miçangas do dia enfeitadode ráfia amarela e branca.Ó dia, altar dos homens, curral de mármore!As reses se aproximam tontas do abatedouroe a sombra do meu querer calcina as calçadas.Os dias são rufiões ocultos nos balcõesonde ninguém paga os juros de minha alma.E este amor que me suga enquanto eu sugoo sumo oculto na gruta insensataabre uma cratera entre os regos e rochasda terra que me nutre em seus peitos de pó.As paliçadas da incer...
O lixo doméstico
2012-01-14 16:04:00
O Céu é o terreno baldio da Terra. Entre as estrelas vagueiam os satélites avariados.Sob o esplêndido lixo planetário, esperamos ouvir o Sinal. E assim se passam as nossas vidas, até a morte, quando os dejectos de nossas almas são lançados na eternidade e poluem as galáxias.- Lêdo Ivoin Poesia Completa, Braskem
Os pobres na estação rodoviária
2012-01-13 19:23:00
Os pobres viajam, Na estação rodoviáriaeles alteiam os pescoços como gansos para olharos letreiros dos ônibus. E seus olharessão de quem teme perder alguma coisa:a mala que guarda um rádio de pilha e um casacoque tem a cor do frio num dia sem sonhos,o sanduíche de mortadela no fundo da sacola,e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibuseles temem perder a própria viagemescondida no névoa dos horários.Os que dormitam nos bancos acordam assustados,embora os pesadelos sejam um privilégiodos que abastecem os ouvidos e o tédio dos psicanalistasem consultórios assépticos como o algodão que tapa o nariz dos mortos.Nas filas os pobres assumem um ar graveque une temor, impaciência e submissão.Como os pobres são grotescos! E como os seus odoresnos incomodam mesmo à distância!E não têm a noção das conveniências, não sabem portar-se em público.O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritadoque do sonho reteve apenas a remela.Do seio caído...
Misfits (1ª e 2ª temporadas)
2012-01-13 14:38:00
8/10
A garrafa vazia assemelha-se à minha alma
2012-01-13 00:50:00
Solícito o silêncio deslizapela mesa nocturna,excede o irrisório conteúdo do copo.Não beberei mais até tão tarde.Volto a ser o tempo que me resta.Por trás da penumbrajaz um corpo desnudoe há um jorro de música hediondadilatando as bolhas da vidraça.Tão distante como a minha juventudepernoita entre os móveis o amorfoo tenaz e oxidado material do desejo.Que aviso mais penúltimoameaçando nas portasnas torneiras, nas cortinas.Que repentino terror de campainhas.A garrafa vazia assemelha-se à minha alma.- José Manuel Caballero(versão de J. E. Simões)
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Feliz Ano Novo
2012-01-12 23:27:00
Mais um ano termina em estridência e fumaça.A invejosa boca do tempo se escancarapara engolir as almas de isopor.Os dias são iguais. E para separá-los? como quem afasta alguns pêlos entre lábios ?as valvas fulvas se contraemsob os lençóis da Noite.Tudo é passagem para o som e a formamas não se ouve a trompa que ressoabuscando alguém na Ilha do Tesouro.A espada pende no vazio do mundo e chamao estojo. E os suspiros vagamnos brejos que resumem o diálogoentre o pênis e a vagina.Feliz Ano Novo! diz o meu irmão hipócritae vomita o que comeu e bebeu o ano inteiro.Nas igrejas, boates e macumbasbalimos e bailamos, as ovelhasque os filtros da redenção embebedaram.E lançamos ao mar o tributo floridode nossa gratidão. E os deuses nos desprezam.- Lêdo Ivoin Poesia Completa, Braskem
Só para cavalheiros
2012-01-12 20:32:00
Numa cama de gradesa aurora clareia um lençol encardido.O dia já nasce sujo. E a fumaçadas pontas de cigarro sobe dos cinzeiroscomo o incenso dos altares.Um cheiro de fritura entontece os homensque entre espelhos e latas de conservascaminham para a morte.Alugam-se quartos para cavalheiros.Meu imundo irmão sem nomeouve a água escorrerda descarga quebrada de uma latrina.- Lêdo Ivoin Poesia Completa, Braskem
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Parada de ônibus
2012-01-12 20:03:00
Nas filas dos ônibus, quando anoitece, e o nada recolhe ao seu arquivo mais um dia jogado foraum cigarro entre os dedos é tudo o que restada iracunda piedade que o homem tem por si mesmo.- Lêdo Ivoin Poesia Completa, Braskem
O Caçador
2012-01-12 18:24:00
Volto a atravessar os camposonde as andorinhas escondemseus ninhos azuis.E a raposa amaldiçoada em todos os quintaisme acompanha entre as moitas.Inocência, orvalho evaporado!Joguei pedra em passarinho.Arranquei as asas das tanajuras.Mutilei lagartixas e borboletas.As flores não apagam meu cheiro de sangue.Pelas folhas frementes ouço o avançorancoroso e fraterno desse bichoque vê nascer no meu ombro a espingardade um encontro futuro. E me pungea dor de ser um homem.- Lêdo Ivoin Poesia Completa, Braskem
A Memória
2012-01-11 20:26:00
És o animal que lembra.Teu dia colossal roça os talismãsna manhã escurenta do varjão.E é do fundo de todas as aurorasque vens, perpétuo e antecedente,com o teu perfil entre palmeirasrajado de alvoradas.Matinal e rupestre, no teu berçoembalas o passado caeté.Ontem, hoje, amanhã, agora, quando...Tudo é draga no tempo e funde-se no gritoda criança que brinca no mormaçodebaixo da árvore de mel.O menino herda o mundo quando nasce? os diamantes da vida e os foguetes da morte.Sesmarias doadas por um reite esperam. São léguas de cajueiros, céus ainda inocentes,ó soldado do povo, ó capitão.- Lêdo Ivoin Poesia Completa, Braskem
Os emblemas do dia
2012-01-11 04:18:00
Vives hoje o teu dia e o de teus ancestrais.Horas de louça vibram junto ao mar.Que coisa antiga o dia! Seu troféunós, operários, o exibimos ao sol.E sua migalha é, na areia, um vestígiodo espaço baldio que abrigou outroraa trilha das formigas geodésicas.O dia é apenas um calhau: algo esponjosoentre animais à espreitade um velho fervor desfeitoDo que, no mundo, é pobre como um piolho a caminho dos aeródromosda ganga do tempo faz-se o diaque o homem muda em sonho em seio em flor.Dia, borra da eternidade, vejo-te escondidono toldo dos circos, no estrondeio do amor.Teus detritos tapam a boca do horizonte.No mundo sem aragem, as baratas, moscas e excrementoscobrem os sarcófagos que restaram de mudas hecatombese onde múmias enrugadas, últimas sobras de antigos poderios, nada sabem da tarde equatorial que estremece ao zumbir das cigarras e lava-bundas.Dia, branca pantera lavradia,tua luz ilumina as catraias nas praias circularese teu mormaço doma as pitangueiras.Neste universo cuneiforme,...
Josep M. Rodríguez (algumas traduções de "Raíz")
2012-01-09 13:23:00
O farol Conto popular argentino Cada mañana había que limpiar la linterna de pájaros muertos. Azorín Deserto adentro, Construir um farol. Há algo que salvar em todas as partes. Não deixes que me esqueça, por favor. Ânsia de escuridão torna-se caverna, isolamento. Graças a ti, acedo ao exterior, desenho um rumo. Assim amanheço luz de entre as minhas sombras: Pouco importa se há pássaros mortos. Postal de inverno Às vezes regressar é uma escusa. acaricio-te, a pele tem memória e luz um piercing: Lua cheia. Mais além Mais além, o bosque é um biombo: No consigo ver o que oculta. O vento assobia o nome das árvores. Ouve-se um comboio a passar. Reconheço-me na peça que une dois vagões. E sempre é o maior o da morte. Atentado The silence is deathAnne Sexton Apago as imagens e o silêncio derrama-se sobre a casa como um escuro líquido. O vento enredou-se nas janelas. Olho através dele, procuro uma trégua no beijo da neve que ainda resta nas montanhas ou nessa borboleta que ...
Até à tristeza
2012-01-09 00:37:00
Um bosque entre a névoaé a sensação das recordações.Vão surgindo e apagam-secomo o caminho que entra? molhada terra vermelha ?onde procuro os pássaros,que com a névoa não cantam.Aqui tudo está imóvel:fui mesmo atéao fundo da tristeza.Nalgum sítio há alguémque lê este poema.Também eu te vou lendoatravés destes meus versosque segues com os olhos.Um lugar desses já tãoraros em que aindapodemos encontrar-nosé aqui, nesta tristeza.- Joan Margaritin Misteriosamente feliz, Visor
Boss (série televisiva / 2011)
2012-01-08 20:15:00
9/10
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