O Melhor AmigoO Melhor AmigoUma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue) Articles
Estranha nacionalidade
2008-06-01 10:53:00 Um domingo e um caderno e uns versos.Nunca nada e ninguém são o mesmo.Pois o tempo, que morreu nos nossos braços,assinalará apenas domingos, mortosdomingos com malhas, com manchas, sóis.José Ángel CillerueloDa noite ficará um ziguezagueante caminhode versos. A impressão de um afecto vadio esombras esvaídas que o narrador,ainda meio embriagado, fará um esforçopor recordar. Neste último lagar(ou caderno de apoio à esplêndida ruínado corpo), cada pensamentodedica-se agoraà reconstrução dos factos, forjandoalgumas provas, enunciandoos diminutivos todos e algumas observaçõesde natureza eufemística.Aqui assoma-se o inconstante retornoda pouco diversa faunanocturna que, por estas e outras linhas,vai recuperando de dívidas em atraso,fugas e evasões frustradas, desviosimpossíveis e mais coisas acumuladasao longo da semana. Era uma vez...e depois outra, hábitos proibidos ea despudorada confissão de segredos,tudo o que álcool devolve à banalidade,o mais puro estado que se consegue. E o mundoco...
Esboço de caminhante sem rosto
2008-05-31 17:58:00 A vista que soçobrae a respiração de ladrilhos que ao passarse crava nas têmporas,ninguém que abrace este corpodesventurado por avenidasde uma cidade que conserva,tal e qual os homens, as ruínas.Os bares que sem atenção o acolheme o misturam com sonhos encobertos,raparigas que sorriem. A vidafoi esvaziando este coraçãoébrio da urina com que os deusesmatam lentamenteaqueles a quem não amam.- José Ángel Cilleruelo
Los Borrachones
2008-05-30 22:52:00 Falamos repetidamente do mesmo,como quem exercita a pontaria num alvocansado - o corpo, a noite,enfim, a morte.Já não se trata de um desuso do tempo,ou da vida que mal nos quer. O pianoembriagado, ao fundo da sala, às vezesainda encontra umas notas que nos sabemmagoar. Há momentos destesem que quase parece fácilrecusar uma companhia afectiva,o breve esplendor sexual e o dano de outraspalavras que se vão gravandocontra o mundo e a pele.É tão mais simples controlar a pontuaçãono papel, no guardanapo em cima de um balcão.Desapontar reflexos, sem que nos preocupeo tempo real ou a habilidade no ensaiode uma expressão vazia.Verter aos poucos todo o nosso desconhecimentode causas, deixando levedar a solidãona sombra de qualquer garrafa.Invocar todas as atenuantes e movimentosno escuro, trauteando cançõesde embalar fantasmas e deixandoque neste brando lume se cozamas melhores bebedeiras, enquantoaperfeiçoamos um epitáfio.A qualidade literária dos versos ficaráà consideração dos críticos e e...
HBO - THE WIRE
2008-05-29 23:56:00 primeira série - 8/10segunda série - 8/10terceira série - 9/10quarta série - 10/10 More About: Wire , The Wire
Any given Sunday
2008-05-29 21:27:00 as a tribute to M. F.A ironia é acordares cada vez maistarde para os dias iguais, este cruel bailadoamarrando-te o corpo a postes eléctricos,à vertigem dos abismos repetidoscom acompanhamento de uma músicacarregando-se de sincronismos, um ritmode que perdes a noção embora não falheso compasso.Cada vez menos o improviso em queacreditaste, nenhum jazz, apenas a aposiçãodo nome a esta sinfonia de pequenos e incalculáveisdesastres, declives e fossas que,sob nenhum pretexto,te darão descanso. A cidade colaboracomo pode, rendendo as suas ruas à forçado hábito, oferecendo anteparosonde atinges facilmente o augedesse anonimato - de que tantos outros,em vão, se esganam para lhe escaparem.E o que querias dizer é "o inevitável"e os variáveis modos de a elenos resignarmos ou a regular sonolênciade uma cidade que nos manda morrer.Mas, como sempre, talvez não seja exactamenteisto o que o verso quer, ainda assimé certo que nos momentosde maior eloquência, será o silêncio quempor nós virá falar.Por... More About: Sunday
Veludo formol e tinta
2008-05-29 02:38:00 Para a AnaOs nossos mortos estão menos mortosDo que os veludos que os embrulhamA rigidez fria dos corpos vem nos livrosNão nos corpos, a língua que trazemos,como lentes de contacto mas opacas,de tanto se valer da cor cegou-nos,De tanto cantar olhos vítreos, alvas facesDedos a acorrentar fios de terços ou deMadeixas de cabelo ? a língua de tantoCantar o suplício graficamente longoDe quem morde as extremidades atéAo sangue para que as sinta, fechou-nosOs ouvidos aos gemidos reais da camaDe ferro e da criatura de carne que jáNão geme, já exangue, a depenar-se,a mutilar-se, a multiplicar-se, enfim,na árdua, infrutífera tarefa: mostrarque o cancro a velhice o fim da memórianão terminam tudo, não consomem tudo. A língua fala-nos dos mortos, mas sãoMortos de veludo, formol e muita tinta.
Pensamentos de Deola
2008-05-28 18:30:00 Deola passa a manhã sentada no cafée ninguém olha para ela. A esta hora na cidade correm todosao sol matinal ainda fresco. Deola tambémnão procura ninguém, mas fuma com calma e respira a manhã.Quando estava na pensão, a esta hora tinha de dormirpara recuperar as forças: a colcha da camasujavam-na com as botas soldados e operários,os clientes que moem os rins. Mas, sozinhas, é diferente:pode-se fazer um trabalho mais cuidado, com pouca canseira.O senhor de ontem, ao acordá-la cedo,beijou-a e levou-a (ficaria, querida,em Turim contigo, se pudesse) com ele à estaçãopara que ela lhe desejasse boa viagem._____________________Sente-se tonta mas fresca hoje,e agrada-lhe ser livre, Deola, e beber o seu leitee comer brioches. Esta manhã é quase uma senhorae, se olha para os passantes, é só para não se aborrecer.A esta hora, na pensão dorme-se e cheira a bafio- a patroa sai a dar um giro - é uma estupidez ficar em casa.Para bater à noite os locais é preciso presença,e na pensão, aos trinta an...
Don't smoke in bed
2008-05-28 17:25:00 Lembro-me que era Inverno,numa aldeia do Ribatejoque me conheceu demasiado bem.Surpreendi-me. Nunca tinha vistotanto charro, tanta música em comum,na ?jovem poesia portuguesa?- esse frouxo refrão do sangue (senão mesmo inodoro, a alugar vertigens).Era eu inédito, desolado. Cultivava o desamor.Apeteceu-me escrever. Escrever-te.Mas as palavras demoram às vezes anosa chegar - e nem por isso nos dãoa garantia de serem necessárias.Gesto, tolhido, que vai ou não vaiter ao coração do coração. Tu sabes,depois do pequeno inferno,quando já não somos jovens.Não tinha, nunca terei, canções.Sei apenas que é de novo Invernoe que passaram alguns anos,num bairro tão perto de Lisboacomo o dedo do gatilho oua palavra do chão. Ouço NinaSimone, espero que não te importes,e pergunto cada vez menospelas artérias do lirismo nacional.O dia, coalhado, vem de ondenão quero. E acho que mudei um pouco,como tudo. Até fumo por semanamenos charros do que os livrosque entretanto publiquei. De ti,obviamente, nada m... More About: Smoke
Um homem sentado no seu tempo
2008-05-28 02:54:00 Morrendo em conjunto, morreremos menos.Daí à eternidade é só um passo.A. M. Pires CabralMais do que um passo, a comprováveldoença obcecada com cada gesto que faças,aquela flor ali que já nem quer que lhe chamesflor. Teve os seus dias, mas hojejá não se importa com o sol, pasmaperante a sua própria sombra.E em breve toda ela será apenas sombraantes de se reduzir a pouco mais que nada.O que acontece às flores acontece-te a ti.A molesta tarde aproxima-se e senta-seno lugar, sempre vago, junto a tie acompanha-te no que quer que tu estejas a beber.Cicuta - seria talvez uma resposta bastantepoética, mas nos meus poemas raramentese encontrará alguma virtude genuína,só este deselegante e emudecido choro.«Era outra imperial, por favor.»A esta hora - já o observei antes -cada parque, cada jardim ou esplanada,tudo são estações terminais, imundaspraças que recolhem o que sobejadas vidas. As sobras, os restos, um esgotopor onde o pequeno monstro sensíveldeambula horrorizado.Não há espaço para in... More About: Tempo
Next to nothing
2008-05-26 22:42:00 Não acordei com o teu corpo,mas com um versoque me parece agorao mais triste do mundo:Le tuve tan cerca.Foi verdade, foi tão depressamentira - acabarmos juntosno último bar. Ou apertar-teem plena desrazão os ombros,o pescoço baixo,a cor indecisa dos cabelos.Enquanto se partem tão tristes os tristes coposque nessa noite derrubei - e eras tu.Não sei o que te disse, queoutras partes de quem fostetoquei ou perdi. De qualquer modo,perdi. E foi, só podia ser,demasiado triste: dois corposque ninguém via desciam a ruada Misericórdia, já perto da manhã.Aquela nenhuma distâncianão pôde ser um beijo. Apenas derrota,ressaca, mais uma canção sem nós.Tu não sabes - e ainda bem - queeste homem te desejou todas as noites,até que fechasse o bar. Este homemque não deseja e que tem,infelizmente, um nome igual ao meu.Da próxima vez, quero estar menosbêbado, saber se apanhámosou não o mesmo táxi. Mas«da próxima vez» nunca existirá.- Manuel de Freitas
Occupational hazards
2008-05-25 21:46:00 Antes que o rio seque numa paisagemque dobras e deixas entre memórias de infância,há outros lugares onde é mais fácil revolvera substância da tristeza, a sensação de quealguma coisa correu mal. Ao espelhoo desenho cansado desse rosto teria sido,noutros tempos, uma traição. Mas afinalcomo se explica a uma criança que a vidatem as suas próprias influências e mesmoum gosto ou uma opção estética bastanteduvidável. Não é difícil fazer comparações,reparar no modo como a desilusão nos repete.Estamos à mercê de uma arte desequilibradaque se num momento se entusiasma,no outro se aborrece, risca o que feze logo nos mata.Preso por um momento ao olhar da estátuado poeta, vais apagando o corpo nalgum diluenteenquanto te ocupas do jeito menos rentável que sabes,escrevendo versos para uma cantigaque não se pode cantar. Perdes os teusvinte e dois anos na inominável companhiaque a morte e os seus desconhecidos te fazem.E mais uma vez é só isto, esta contemplativa dordebaixo do açoite das horas, a pl...
Pelos piores motivos
2008-05-25 19:36:00 Uma última canção antes que deixe a luadesistir de nós. Depois será tarde, mesmoque insistas contra o tempo, na repetiçãodo mesmo beijo, outro golpe fraco e triste,sinal apenas de que nunca tivemos jeitopara mentir um ao outro. De um certo modo(que não resultou melhor a nosso favor)fomos sempre fiéis e até nos quisemos bem.Esta noite, se eu prefiro assobiar, és tuquem dança. Seguimos numa despedidaque não sendo a primeira nem a últimavem sendo a constante, e por ruasque não se lembrarão de nós, retiramo-nosdesvirtuando a melodia, no confortoestranho de estarmos juntos, mas dilaceradospela presença de uma terceira sombra.
Nyhavn, 32
2008-05-25 02:48:00 Por estranho que pareça, foi assim:umas manchas de café bastarampara nos afastar, no momento em queo crepúsculo incendiava o Nyhavn.Sentámo-nos ao lado dos que bebiamcerveja, de costas para o canal.E só por acaso fomos pararao café Monten, entre flores, livrosvelhos e um bilhar de pano vermelho.Os outros clientes, obviamente locais,bebiam sem parar, falavam muito.Podia-se até fumar, no dia em que aDinamarca proibia súbditos e visitantesde o fazerem em «edifícios públicos».A Europa serve para isto: para nosamputar gestos e vontades, paranos americanizar a todo o custo.Umas manchas de café, o sanguederrotado que não viste, são coisassem a mínima importância, talcomo este amor fero e desvalidoque procura, apesar de tudo, uma canção.- Manuel de Freitas
Fontana di trevi
2008-05-25 01:03:00 mulheres diáfanas lançam moedaspedem desejos fazem promessasou assim indicam os olhos cerradoscom força e algum talento.Velhos tisnados, rotos, barbadospercebem a deixa e aproveitampara afastar uma mosca invisíveldas malas de ombro, sorriem, e aindaantes de as modelos abrirem os olhos,em jogos de rímel e teatro de liceu,já os velhos larápios saem como quemde direito em direcção ao Mercedes. More About: Trevi , Fontana di Trevi
Tristes passos
2008-05-24 03:41:00 Tropeçando de volta à cama depois de uma mijaAfasto as grossas cortinas e surpreendo-meCom as nuvens que correm, com a lua tão limpa.Quatro da manhã: jardins de sombras oblíquas, jazendoSob um céu cavernoso e rasgado pelo vento.Há nisto uma faceta ridícula,Na lua a lançar-se através de nuvens fugazesE soltas como fumo de canhão, para logo se apartar(A luz pétrea aguçando, cá em baixo, os telhados)Alta e soberba e separada ?Pastilha de amor! Medalhão de arte!Ó lobos da memória! Imensidões! É certo,Há um leve arrepio, quando se olha para o alto.A dureza e a claridade e o alcance,A singularidade de tão vasto e fixo olharÉ lembrança da força e da dorDe ser jovem; do que não se pode ter de novo,Mas que é vivido por outros, em pleno, nalgum lugar.- Philip Larkin
Vem para ficar
2008-05-23 20:37:00 Acontece quando mais o esperamos:um punho bate à porta,não se trata do carteironem da juventude. Diz-seda família. Vem para ficar.Começa por brincar às escondidascom os nossos pensamentos.Acorda-nos de noite, diverte-sea romper as sapatilhas,deixa frascos de formolsobre a mesa da cozinha.Primeiro, não sabendo o que fazer,tentamos distrair a sua fome,mostramos-lhe o relógio,passamos-lhe a carteira para as mãos,os botões da gabardine, os anéis.Por último, os dedos.Neste passo, depressa nos convencea tratá-lo por senhor, a ceder-lhe num sorrisoa cadeira do avô, o telefonedos amigos, a vista da janela.De cabeça descobertaservimos o jantar.Com o tempo percebemos:quer vestir-nos do avesso,forrar de vento nortea gola dos casacos, levar-nos a dizer:?há nas folhas do Outono vivo lume,que faço eu em minha casa??- José Miguel Silva More About: Para
Sweet murderers of men
2008-05-23 00:46:00 I.Há algum encanto no jeito impiedosocomo a meio de uma primavera se abateum dia assim, num feriado nacional.Todos sabem que trabalhar cansa,mas mais que isso cansa-noster que aproveitar um dia de sole insuflá-lo com alegrias e utilidades.O mau tempo dá-te uma boa desculpapara ficares arrumado a um canto,imerso na leitura dos poemas narrativosdo Pavese. E não precisas de acrescentar nada,melhor que tu, a chuva sabe desenharnas janelas o borrão completodestes afundamentos. A tarde fastidiosaaluindo sobre a secretária, essa ilha perdida,essa jangada onde derivas sem destinonum longo suicídio.Numa hora destas alguns morremfechando simplesmente os olhosenquanto tu puxas fogo a uma imagemde mau gosto, acendes outro cigarroe perguntas-te se te apetece ouvir músicaou ficar só, molemente, remendando abismos,adornando vazios com a tua sériecada vez mais limitada de sentimentose pequenas ou frouxas razões.Alguém haverá de telefonar-teou pedir um pouco de atenção.(As pessoas habituam-se muito ... More About: Sweet
Splash
2008-05-22 00:25:00 A ilusão é estares apenasa ler este poema.A realidade é que isto émais do que umpoema.Isto é uma faca de pedinte.isto é uma tulipaisto é um soldado a marcharsobre MadridIsto és tu no teuleito de morte.Isto é Li Po a rirdebaixo de terra.Isto não é a merda de umpoema.Isto é um cavalo a dormir.Uma borboleta noteu cérebro.Isto é o circo dodiabo.Não estás a ler istonuma folha.A folha está-te a lera ti.Percebes?É como uma serpente.É uma águia esfomeada a rodear a sala. Isto não é um poema, os poemas são chatos,fazem-te dormirEstas palavras arremessam-tepara uma novaloucura. Foste abençoado, foste trazido a umaCegante área de luzPodes morrer agoraPodes morrer agora comoas pessoas deviammorrer:imenso,vitorioso,a ouvir a músicaa ser a música,Rugindo,Rugindo,Rugindo.Charles Bukowski - tradução para o Diogo Vaz Pinto More About: Splash
Mescaligrafia
2008-05-20 18:29:00 Arrancando pétalas a floresde uma raiva mansa, destruimos jardins inteirosem horas de sombria dedicação, vivendonesta ligação, quase umbilical, a um vazio doméstico,à composição de pequenos absurdos e rascunhosque não nos levam a nada.E não era bem um poemao que queríamos,mas talvez uma estimativaquanto aos lugares menos comunspara onde pudéssemos transplantaroutro abandono.De cotovelos apoiados nas pernasobservamos na palma das mãosum animal lento, drogado,cirandando sem conseguir adormecer.Triste, vai-nos devolvendo um olharque nos encontra ainda vivos.Só isso e nada de mais conclusivo.Não sei o que fizemos,onde se gastou a loucura nem comose civilizou até o mais brevedos nossos gestos. Um soluçomais um suspiro ou um bocejoe o pensamento é uma manchasobre o pano da realidadeincapaz de negociar a um preço razoáveloutra dose de entusiasmo. Aqui só nos ficaramos destroços a que se afivelou neste ritmo pobreo coração, esse sarcasmoque carregamos por toda a parte.Voltámos a encontrar-n...
Lars and the real girl
2008-05-19 04:00:00 Este filme salva vidas - 9/10 More About: Girl , Real , Lars
A Borges
2008-05-18 02:57:00 Dentro da casa está um homem cego, esqueceu o seu nomeFaz hoje precisamente sete anos sete dias algumas horas.Esqueceu o seu nome e os livros que ocupam as suas mãos,Que se estendem no leito esbranquiçado da visão, não têm letras.As letras são coisa do presente e este que aqui está, a prumo,estranhamente orientado por entre um jogo de crepúsculo e luz,é coisa do passado. É o assombro das imagens, destas outrasletras com menos tinta, pouca consistência e nenhuma partilha,é um homem morto de volta dos bens que esqueceu em vida.Move-se agora, de cabeça bem erguida mãos bem abertas,A primeira agita-se quando as segundas regressam à texturaDe um objecto perdido. As mãos movem-se inseguras e a salaaumenta em todas as direcções ? excepto uma. A rua,o quadrado da janela aceso em instantes de azul escuro,mantém-se à distância original: a distância de um gradeamentoverde a imitar lanças.A sala avança para o território que as mãos conhecem e não alcançam,E talvez por isso ela se mantenha dist... More About: Borges
A little more, please
2008-05-16 20:21:00 para o José Carlos BarrosSe tivesse escolha preferia não me ficar,uma vez mais, pela mera recontagemde vãs presenças, mais ou menos conscientese de qualquer modo desnecessárias,das sombras cada vez mais ténues quevão fazendo circular o anátema desta tardecansada de verbos e de prejuízos literários,capaz até de cortar os pulsosse tiver que engolir outra metáfora,uma cambalhota qualquer sem jeitoou sequer algum efeito real.De metafísico hoje não sinto nada, mas tenhouma dor nas costas e, aliás, foi isso e uma contorçãoo que me conseguiu ainda à pouco uma bebidapaga por alguém que não me conhece(nem precisa). Não sei explicar o caminhopara este sítio.Cada um vem aqui ter pelos seus meios,uns mais tarde outros mais cedo, mas um diatodos teremos feito parte desta assiduidadetriste, estes pedaços de genteindo e vindo aos seus assuntos: coçarcomichões, amarrar o fardo ou qualquer vícionatural. O mundo e as suas históriasficam lá fora e nós entramos deixando os sentidosapagarem-se nestes si...
Post-Scriptum
2008-05-16 15:25:00 Não sou daqueles cujos ossos se guardam,nem sequer sou dos que os vindouros lamentamnão hajam sido guardados a tempo de ser ossos.Igualmente não sou dos que serão estandartesem lutas de sangue ou de palavras,por uns odiados quanto me amem outros.Não sou sequer dos que são voz de encanto,ciciando na penumbra ao jovem solitário,a beleza vaga que em seus sonhos houver.Nem serei ao menos consolação dos tristes,dos humilhados, dos que fervem raivasde uma vida inteira pouco a pouco traída.Não, não serei nada do que fica ou serve,e morrerei, quando morrer, comigo.Só muito a medo, a horas mortas, me lerá,de todos e de si se disfarçando,curioso, aquel? que aceita suspeitarquanto mesmo a poesia ainda é disfarce da vida.- Jorge de Sena More About: Post
IV.
2008-05-16 14:15:00 Os olhos ardem, picados pelas cores das imagens viciosas da televisão. O vazio de sentidos de certos dias é coisa que mata a razão pelo tempo suficiente para fazer ninhos na cabeça. Levanta-se do sofá para fazer uma ronda pelas divisões frias e desertas da casa. A única acção viva é a da chuva que bate nas janelas. Então o seu cérebro projecta no chão algumas imagens, memória imaginada. Decide que a vida dos outros existe na medida em que os faz viver dentro de si. A porta da entrada abre-se. A sua mulher limpa os pés no tapete. Ele olha-a fixamente.- Pareces um fantasma! - analisa ela.- Estou só, mesmo agora que chegaste. Nem que me fizesses companhia a morrer eu deixaria de estar só. Para onde vou não te posso levar comigo.- Pois, não podes. Para onde vais é um sítio que não existe. - respondeu ela enquanto despia o casaco e encostava o guarda-chuva à sombra de um canto ao lado da porta. Depois concluiu, sorrindo:- Talvez fiquemos lado a lado debaixo da terra.- Mas já não haverá ...
Mudança
2008-05-16 03:37:00 À força de mudar-meaprendi a não colaros móveis às paredes,a não pregar muito fundoa aparafusar só o necessário.Aprendi a respeitar as marcasdos velhos inquilinos:um prego, uma moldura,uma pequena mísula,que deixo em seus lugaresmesmo que me estorvem.Algumas manchas herdo-assem as limpar,entro na casa novatentando entender,ou melhor,vendo por onde sairei.Deixo que a mudançase dissolva como uma febre,como uma crosta que cai,não quero fazer ruído.Porque os velhos inquilinosnunca morrem.Quando vamos,quando deixamos outra vezas paredes como as recebemos,sempre fica algum prego deles,num cantouma ruinazinhaque não soubemos resolver.- Fabio Morábito(tradução do senhor changuito)
Vimos todos os filmes
2008-05-15 22:47:00 Vimos todos os filmesmas ainda não sabemos o fim de nenhum,somos como a luz que desconhecea própria velocidade.Os relógios são a decoração domésticada angústia, damos cordaaos que precisam e não precisamsem sabermos nadada corda e da angústia.Anos e anos amontoam-secomo nuvens ou tumores benignosentre as nossas pequenas ciênciase o pressentimento de queDeus escreve direito e nóssomos as linhas tortas.Pedro Mexia
Suicídio
2008-05-15 14:07:00 CADÁVER ATrouxeram-na para dentro, um minúsculoCasulo esmigalhado,O pequeno corpo ferido comoUma lua amedrontada:E com as suas ténues sinfoniasFeitas runas do entardecer.CADÁVER BDeram-lhe encontrões de um ladoPara o outro.O seu corpo ficou à prova de choqueComo o de um gato da cidade.Ficou lá fora sem vida como a cerveja mortaQue restou na pequena caneca.- Djuna Barnes
A Morte, o Espaço, a Eternidade
2008-05-14 21:43:00 De morte natural nunca ninguém morreu.Não foi para morrer que nós nascemos,não foi só para a morte que dos temposchega até nós esse murmúrio cavo,inconsolado, uivante, estertorado,desde que anfíbios viemos a uma praiae quadrumanos nos erguemos. Não.Não foi para morrermos que falámos,que descobrimos a ternura e o fogo,e a pintura, a escrita, a doce música.Não foi para morrer que nós sonhámosser imortais, ter alma, reviver,ou que sonhámos deuses que por nósfossem mais imortais que sonharíamos.Não foi. Quando aceitamos como natural,dentro da ordem das coisas ou dos anjos,o inominável fim da nossa carne; quandoante ele nos curvamos como se ele forainescapável fome de infinito; quandovontade o imaginamos de outros deusesque são rostos de um só; quando que a doré um erro humano a que na dor nos damosporque de nós se perde algo nos outros, vamostraindo esta ascensão, esta vitória, istoque é ser-se humano, passo a passo, mais.A morte é natural na natureza. Masnós somos o que nega a natureza...
Malaise
2008-05-14 21:07:00 Só muito a medo, a horas mortas, me lerá,de todos e de si se disfarçando,curioso, aquele que aceita suspeitarquanto mesmo a poesia ainda é disfarce da vida.Jorge de SenaHoje só a certeza de uma músicaque role sem nenhuma pressa, abatendo-sesobre ti a cada intervalo, procurandoo mais ínfimo detalheou irregularidade que te tenha preenchidoessa solidão - até não ser mais possível sentir,nem o frio, nem a voz quete transporta por tudo e de voltaa nada - só disso precisas. De um golpea outro neste pugilato contra o vazio,para acabar como sempre,vencido, resignado e com o olhar presoa qualquer coisa, a um cata-vento,a uma estrada onde passamtão poucos carros, aos estendaisde roupa cansada no prédio em frente.Disfarçamos cada vez pior os dias,pequenos charcos, disponíveis a um balcão,soletrando a mínima desatenção e desviandodo caminho, com a colher, os legumesda sopa. Ficam alguns riscos e não rastosdo pouco que fazemos, o uso excessivodas palavras para tapar cada espelho.Aqui somos isto,...
Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
More articles from this author:2008-05-14 01:15:00 Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.É possível, porque tudo é possível, que ele sejaaquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,onde tudo tenha apenas a dificuldade que advémde nada haver que não seja simples e natural.Um mundo em que tudo seja permitido,conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.E é possível que não seja isto, nem seja sequer istoo que vos interesse para viver. Tudo é possível,ainda quando lutemos, como devemos lutar,por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,ou mais que qualquer delas uma fieldedicação à honra de estar vivo.Um dia sabereis que mais que a humanidadenão tem conta o número dos que pensaram assim,amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,de insólito, de livre, de diferente,e foram sacrificados, torturados, espancados,e entregues hipocritamente à secular justiça,para que os liquidasse ?com suma piedade e sem efusão de sangue.?Por serem fiéis a um deus, a um... More About: Filhos , Carta 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 |



