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O Melhor Amigo

O Melhor Amigo
Uma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue)
Articles: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7

Articles

A praça do coreto
2008-05-03 02:54:00
Na praça do coreto os velhos poetas reúnem as boinasDe estrelas vermelhas sobre fundos negros,um vermelho de coragem esquecida num mundoque tristemente deixou de ser negro, e aqui nos deixama nós, que de passagem lançamos migalhas aos pombose sorrisos condescendentes aos poetas, que nos atiram de voltao cumprimento, dois dedos na pala e amostras de gengivasos velhos poetas como animais num zooexpectantesmesmo quando agem, agem sob o pressentimento dos miúdosque enfiam falangetas por entre grades verdes à reveliado senhor de fato azul e cana fulminante,(ao que parece responsável)e com perícia descascam um amendoim, desfazem-noentre dois dedos, e lançam com uma pancadinha o interiorpara cima de dois macacos que se catam mutuamente;salve-se esta diferença, os velhos poetas do coretonão se catam, nem a si nem a ninguém: vem chuva, não vem chuva,pente no bolso da camisa só em caso de, estará a boina direita?E lá se vão entretendo e entretendo as falangetas dos miúdospara quem é nenhum a ...
Os velhos tolos
2008-05-02 23:56:00
Que pensam eles que aconteceu, os velhos tolos,Para os pôr assim? Porventura supõemQue é mais crescido terem a boca aberta e a babar-seE mijarem-se a toda a hora e não se recordaremDe quem os visitou hoje de manhã? Ou que é só quereremE volta tudo a ser como quando dançaram toda a noite,Ou casaram, ou marcharam de arma ao ombro num certo Setembro?Ou imaginam que não houve mudança algumaE que sempre se portaram como invàlidos e bêbadosOu se sentaram o dia inteiro em devaneio contínuoVendo a luz mover-se? Se não o crêem (e não podem), é estranho:Porque não estão a gritar?Na morte, desfazemo-nos: os pedaços do que éramosComeçam a fugir uns dos outros para sempreSem ninguém a ver. Não é mais que um olvido, é certo:Já o tivemos antes, mas dessa vez ia acabar,E combinava-se com um esforço sem igualpara fazer desabrochar a flor de um milhão de pétalasQue é estar aqui. Da próxima vez não se pode fingirQue vai haver algo mais. E são estes os indícios:Não saber como, não ouvir quem, já não te...
Stabat Mater IV
2008-05-02 09:31:00
A luz fria de Dezembro consentiuque erguesse a mão, a que nadatinha para dizer. No dia em que fazia anos."Tudo morreu" - voltou a dizer Aurora, DonaAurora, última sobrevivente de um bairroem que pretos e ucranianos procuram como elacomprar mais barato tudo aquilo que nos mata.A quem deixará, não sabe, tantas bonecas,coisas de perder concretas, de Espanhaou de longe trazidas. O tecto - reparem -caiu um pouco mais. O frigorífico está desligado.São poucos os clientes que lhe suportama miséria, panela de couves sem lume.Com a poesia, bem sei, é a mesma coisa.Mas eu prefiro esta taberna a todos os poemasque já li. Não foram muitos, de resto.Encostamos a porta - uma caixa de bolachas,pelo dia dos seus anos, dirá a ninguémque estivemos ali. Dois dias antes do Natal,à espera de que tudo finalmente morra.- Manuel de Freitas
Loneliness
2008-05-02 09:24:00
Há refrões que não são fáceis de aprender:Here comes loneliness.Foi essa, desde o início, a nossa história.Que passos te levamou não levam agora aos mesmosbares, a portas fechadas,àqueles de quem nem pudeste despedir-te?Procuras uma resposta,a forca simples de um olhar.Mas é demasiado tarde,cançõesque fingindo a vida nos sepultam.- Manuel de Freitas
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II.
2008-05-02 08:54:00
Era feriado, não tinha que ir trabalhar. E o trabalho era a coisa menos triste que tinha. Pensou num banho frio, talvez. A mulher saiu da casa de banho nua, com algumas manchas de sangue que não tivera o cuidado de limpar. - Alguma vez foste pura? - perguntou.- Tu é que vês os jogos de futebol depois de fazeres amor comigo. Se lhe tivesse dado carinho nessas alturas, teria sido mais um dos seus amantes e nunca seu marido. E talvez se tivesse sentido ainda mais sozinho com a proximidade dos corpos própria desses momentos. Entraram no carro. Foram almoçar aos leitões. As pessoas eram poucas nas ruas e os carros moviam-se devagar. Pareceu-lhe escassa e lenta a vida, nos dias em que não está presa, excepto nos restaurantes. A sua mulher estava contente. Perguntou-se porque a teria sem a ter. Se ela fosse uma garrafa de vinho poderia bebê-la, esgotá-la rapidamente. Ela duraria apenas o tempo suficiente para não sentir mais sede.
Beautiful Losers
2008-05-02 08:07:00
IAs afinidades que nos elegemtalvez nos tornem uma companhiapouco recomendável, mas o que é quese há-de fazer? A isolaçãoé o encanto restante depois da perdada inocência. E nem aquela queridasorrindo a um canto, à espera que lhe paguemuma bebida ou uma snifadela na flornos convence do sorriso do mundo.Nunca mais. Este ombro sem ombroagora prefere a áspera paredeque seguramente não irá esquivar-se,ficando para a derrocadaquando outro terramoto vierpara saber de nós.Aconteça o que tiver que acontecer,ao menos podem contar connosco.Somos sempre pontuais quando se tratade chegar à tristeza de outro copodepois de termos passado a tardeentre o redil de praças e quintais a abatercom o olhar o voo dos pássaros.IIEste sóbrio estabelecimento,que as entidades reguladoras têm tentado fechar,começa a ceder embora ainda não sirvacocktails ou sonhos. São as mãos menos vigorosasda noite estas que nos servem a primeira imperial.Amortece-nos assim a fúriacom que vínhamospreparadospara nos despenharmo...
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Sweet Jane
2008-05-01 01:07:00
vivi muito tempo pendurada de um fiotelefónico de uma caixa de correio sem fechadura das mãosde uns homens que não quiseram encontrar-meacumulava toda a espécie de comprimidos esquivavacomo podia os domingos à tarde vividemasiado tempo do outro lado do ecrãa olhar o amor pelos anúncios.- Pablo García Casado
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Garner, NC
2008-05-01 00:43:00
suponhamos que ele tem 30 e ela 17música de tom jones os dois a dançar muito juntosno centro da pista suponhamos que se decidemque ela se entrega na retrete dos homensque passam três dias e três noites fechadosno hollyday inn casa de banho piscina vistas para a estradaque ele é um maníaco que ela faz coisas diante de uma handycamsony de 8 mm. coisas que a princípiodoem e depois doem maisque desperta na valeta da nacional 95atordoada pelo efeito dos soporíferos quase despida como os filhos do mare que espera o autocarro em algum ponto do mapa depois decaminhar toda a noite com os sapatosbrancos na mão iluminada pelosfaróis de todos os camionistas- Pablo García Casado
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Código de barra
2008-05-01 00:40:00
sós ou em companhia todos os princípes se foramficamos os de sempre os de outras vezes os que jános conhecemos vou ser breve proponho-teum lugar afastado olhar as últimas estrelastomar juntos o primeiro café com leite do domingonada mais posso oferecer-te apenas tenho o que soualém de um erre cinco com assentos abatíveis- Pablo García Casado
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Antes do Último Comboio
2008-04-30 03:07:00
Às vezes, é tão bom esquecer a literatura- e, acima de tudo ou de nada, a poesia,com os seus devaneios de donzela perra,a latir mazelas, agruras e evidências.Passeámos juntos pelo arraialde Oeiras, sob o rumor contínuode comboios e sardinhas (menos pontuaismas boas). Luzes, carrosséis e barespediam-me a demora que não pude ter,enquanto os gatos, soberanos, atravessavamdevagar a noite. Falávamos de nada, calmamente.Às vezes - ou melhor: sempre - sabe bemdeixar para outro dia a literatura, pensar queos poetas não passam de estátuas inúteis num jardimconcebido por bestas que nem sequer os leram.É inegável que um churro ou uma imperialsão muito mais necessários do que qualquer soneto.De uma maneira ou de outra, as luzes vão em breveapagar-se, indiferentes ao riso que nos juntoue que veio cair, por azar, no chão deste poema.- Manuel de Freitas
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I.
2008-04-29 20:54:00
Saiu do trabalho passeando a sua pasta na mão. É material de qualidade, diz ele aos colegas. Nesse dia teve que voltar para casa de metro. Entrou na carruagem, hora de ponta. Sentiu o cheiro porco e quente das pessoas inconscientes. E não era insuportável. Era incómodo, concordou. Mas não mais do que o cheiro em que se deitava todos os dias. A mistura de odores dos outros trinta homens que todos os meses faziam uso do seu colchão e da sua mulher era de tal ordem que já não se distinguia aquele que teria sido o primeiro a marcar o território.Quando chegou a casa, sentou-se sem acender a luz, sem largar a pasta. Pensou quem seria que odiava mais. A mulher? Por ser mais suja do que uma multidão apertada no calor. Os passageiros? Por serem inconscientes da sua nojice. Não soube responder. Limitou-se a gritar para o peito, tentando abafá-lo. Consolou-se. Tinha uma pasta elegante para mostrar aos colegas.
Placebo
2008-04-28 18:01:00
os autênticos rebeldes, os homens para os quaisa sua verdade última, a sua última sinceridade,está além de qualquer dogma, não costumamencontrar um refúgio cómodo, andamde uma prisão para outraJuan Luis PaneroEste rosto que levas contra o espelho, pareceum gatafunho que não se apaga, e pensas -quem dera não fosse teu. Os olhos grávidosde ramelas e de uma perspectiva seca,começam por capturar vislumbresde uma esquálida figura, um nado-morto,que se senta do teu lado e te acompanhaneste pequeno-almoço tomado à tarde.A mais importante, aliás, a únicarefeição do dia.Já não se demorará o sol e tunão terás que esperar muito para queos primeiros reflexos anoitecidos venham abraçar-tee fiquem por aqui repercutindo um ecopara cada um dos teus gestos.Nós e as noites misturámo-nos e por essa alturadeixámos de crescer em direcção à lua. Dessa superfícienua e luminosa ficaram-nos as crateras e estas horassem força de erosão que passam e nada perdoam.Nada. Já depois do café, ao juntarmais umas pal...
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Que dia? Que olhar?
2008-04-28 16:26:00
Cheguei demasiadamente tardee já todos se tinham ido embora,restavam papéis velhos, horas mortas,identidade, sujidade, eternidade.Comeram e beberam o meucorpo e o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca,e escreveram a minha Obra Completa;sobro, desapossado, eu.Resta-me ver televisão,votar, passear o cão(a cidadania!). Prosa também podia,e lentidão, mas algo (o coração) desacertaria.Dar um tiro na cara como Chamfort?Tornar-me aforista ou ainda pior?Mudar de cidade? Desabitar-me?Post-modernizar-me? Experienciar-me?Mas com que palavras ou sem que palavras?Os substantivos rareiam, os verbos vagueiampor salões vazios e incendiadosentregando-se a guionistas e aparentados.Cheira demasiadamente a morte por aquicomo no fim de uma batalha cansadade feridas antigas, e eu sobrevivido lado errado e pela razão errada.?Que dia? Que olhar??(Beckett, ?Dias felizes?)Que feridas? Que estandar-te? Que alheias cicatrizes?Estou diante de uma porta (de uma forma)com o ? como dizer? ? coração(um sí...
Um velho em Veneza
2008-04-27 03:13:00
Em Veneza, velho e envelhecido, quase mudo,rodeado de livros, de solidão, de gatos,o poeta Ezra Pound,falou, num breve, muito breve encontro, com Grazia Livi.Comentou-lhe, sem autocompaixão e sem desprezo,secamente, com voz entrecortada:«No fim penso que não sei nada.Não tenho nada para dizer, nada.»Se depois de tão alto exemplo, de tão clara sentença,ainda continuo a escrever e risco palavras no fumo,não é, que a morte me livre,por bastardo interesse ou absurda vaidade,mas apenas por uma simples razão,porque não conheço outro meio, a não ser o suicídio- desnecessário é um poema como um cadáver -,para dar testemunho de nada a ninguém,do mundo que contemplo, desta vida,do seu horror gasto e quotidiano.Que o velho Pound, na sua cova,me perdoe por ligar o seu nomea estas sórdidas palavras desesperadas.- Juan Luis Panero
Para a puta que levou os meus poemas
2008-04-26 21:42:00
há quem diga que devemos manter sentimentos de remorsofora dos poemas,ficarmo-nos pelo abstracto, o que até faz bastante sentido,mas meu Deus;doze poemas perdidos e eu não guardo os rascunhos e tutens tambémas minhas pinturas, as melhores delas; é sufocante:estás a tentar deixar-me destruido como os outros todos?porque é que não levaste antes o dinheiro? normalmente é o que sacamdas calças dos bêbados adormecidos e arruinados a um canto.da próxima vez leva o meu braço esquerdo ou uma de cinquentamas os meus poemas não:Eu não sou o Shakespeareum dia simplesmentejá não haverá mais, abstractos ou dos outros;o que existirá sempre é dinheiro e putas e bêbadosaté o cair da última das bombas,mas como disse Deus,cruzando as pernas,Eu vejo que criei um monte de poetaso que não fiz tanto foipoesia.- Charles Bukowski(tradução para o António)
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O coração
2008-04-25 16:25:00
Aquela velha, calorosa imagem:o poeta deita ao chão o rascunho de um poemae o mendigo, preso nos arames da vida,pára e num instante de atenção,desdobra o papel e lê:aqui estão os versos que escrevemas tuas mãos segurando o papel,a garrafa de coca-cola com tinto até cimaguardada no bolso interior do sobretudo,o vento frio de uma noite de novembroque se esqueceu de te ensinar o caminho parao abrigo mais próximo.Volta a amachucar o papel e cospepara o canteiro de buganvílias,recorda o dia em que os primeiros rebentoscobriram a extensa ferida do seu velho companheirode armas; a papa de sangue do rosto,e o caule irrompendo da boca, em direcção ao céucoberto de chumbo - um espelho da sepultura abertapara onde caiu.O papel guardao sopro do poeta; será um poemao lugar onde o coração pára?O mendigo repousa, no seu desgovernado passeio;a força da bala sobre o peito é a verdade queo papel deitado às buganvílas aceita;O coração pára a um sinal do fogo;assim seja.- Sérgio Lavos, no blogue arquiv...
Retiro de ofendidos
2008-04-24 23:46:00
Em vez de cortar os pulsoscortei a linha do telefone. Já não acordo de noitepara lhe perguntar por que não tocas.José Miguel SilvaPassou tempo suficiente. Perguntei a muita gente,quis saber o tempo médio que uma coisa destas demoraa passar. Lembro-me que há uns dias parecia estar tudocomo deve ser, ao deitar-me bebi um copo de leitee acho que entrei no sono pela porta certa. Mas pouco depoisainda era ela, ou pelo menos o corpo dela,o pior dos meus motivos para continuar a fugir.Dos corpos que sei aqueles que se entregam à noitejá não são devolvidos, não em bom estado.Esperámos em vão nos recintes do costumepor um comboio nocturno com destinoao esquecimento, perdemos demasiadas vidase o amor, esse dos filmes, não terá sido maisque uma névoa entre o torpor alcoólico,debaixo da tareia de um ritmo alucinado quecontrastou sempre com a expressão previdentedo céu. Sentíamo-nos estranhos face a nós próprios,espiados por um melindroso luar.Hoje o corpo é um vaso de flo...
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Cidade dos desaparecidos
2008-04-23 22:43:00
Muitas vezes não amei Lisboa,não soube amá-la ao anoitecerdos dias úteis, quando era gasta,parada e suja, e nos autocarrosquase vazios viajava de luz acesaa entranhada tristeza do mundoque foi a minha primeira e maisprecoce intuição. Grande cidadedos desaparecidos, eu não tivetantas vezes a saúde de gostardos teus pequenos jardinsabandonados. Quando nos cafésjá iam desligando as máquinase do outro lado da linha ninguémvoltava jamais a respondercomo eu queria, quantas vezesnão pude achar o sítio e o sossegopara esquecer e dormir? Mesmo assim,eu não te fiz justiça, Lisboa, quandome queixei de ti: eu não era exemplo,eu sempre estranhei um pouco a camada vida.- Rui Pires Cabral
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Pedro Jóia
2008-04-23 15:45:00
O que nos falta não são artistas de talento, é um público educado que não se deixe encostar a direcções ou ande a reboque do reconhecimento internacional mas se defina através de uma noção própria do que é um trabalho de qualidade.www.myspace.com/pedrojoia
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Y Miedos de las Noches Veladores
2008-04-23 15:04:00
Nada nem nenhumguarda garante o sono,senão o medo que velaà cabeceira.Noites preenchidas de demóniose quimeras.A candeia quase extintaà míngua de azeiteé que fabrica as sombras.Depois, pela manhã,lambo as feridas,penteio-me como setivesse dormido, como senão fosse nada.- A. M. Pires Cabral
Ardemos e ardemos
2008-04-23 00:24:00
Melhor seria que não me lessem nuncaos que por costume lêem poesia.Muito além deles conseguir falarao que chega a casa e prefere o álcool,a música de acaso, a sombra de alguémcom o silêncio das situações ajustadas.Não esperes nada de mim. Houve temposem que me sentia mais inclinado para a trocade promessas, esse malabarismo de identidadese a busca de atalhos na falta de sentido do poema.Agora já assumo que tudo isto é tempo que percodivagando, trocando moedas por bilhetese preferindo o lado da janela nos transportespúblicos. Se vieres comigo és mais idiota que eu.O que é que ainda não se dissesobre o tom cinzento desta cidade? Hoje,como ontem e anteontem, desenhocom menos precisão um escaravelho egípcioenquanto imagino outros artifíciosque se assinalam entre estas paragens.Cada um saberá no que pensa ao riscaroutra folha do calendário.No primeiro recato haverá alguémrecomendando que puxe uma cadeirasobre esta agonia de termos aindauma vida inteira pela frente e nenhuma distânciaque ...
Jephson Gardens
2008-04-23 00:20:00
Agora és estrangeiro em sentidopróprio, com os nervos toldadospor demasiada música. Sentadona erva de Maio, junto à estufadas carnívoras ? Dragão Vermelho,Sarracenia flava ? a tua Primaveratortuosa, transplantada.Enrolas tabaco holandês, procurasna memória um verso que melhorexplique o lastro das circunstâncias,uma Inglaterra mais funda, deitadaà sombra da experiênciadas palavras. E tal como essepequeno, quase imponderadoesforço, não terá sido afinal inútiltudo o que fizeste na vida?Rodas e repetições, é assim o tempona carne. Mas o que aprendestecom o primeiro desengano não te preparoupara o segundo, o terceiro e todosos que se seguiram. Entretanto faz sole o mundo existe, é quase uma pinturade inocente intenção.- Rui Pires Cabral
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MGMT
2008-04-21 17:12:00
I'm feeling rough, I'm feeling raw, I'm in the prime of my life. Let's make some music, make some money, find some models for wives. I'll move to Paris, shoot some heroin, and fuck with the stars. You man the island and the cocaine and the elegant cars. This is our decision, to live fast and die young. We've got the vision, now let's have some fun.
Slow show
2008-04-21 15:57:00
I made a mistake in my life todayeverything I love gets lost in drawersI want to start over, I want to be winningway out of sync from the beginning
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Foi tudo em vão, novamente.
2008-04-20 23:19:00
Though I know that evenin's empire has returned into sand,Vanished from my hand,Left me blindly here to stand but still not sleeping.My weariness amazes me, I'm branded on my feet,I have no one to meetAnd the ancient empty street's too dead for dreaming.para a PatríciaOs guindastes por trás deste cenário estragam tudo,deixam-nos entrever o princípio de múltiplos acidentes.Chega-nos um assobio de longe, como um gradual despertador,processos sonoros de um ofício que não se deixa interrompere aproveita mesmo as horas mortas. A indústria dos afectose outros métodos de enganar a solidão, coisas que nos fazemresvalar para infelizes fins de ruase os becos em que todas as guerras vêm arrefecer.Assiste a isto, sem bater palmas, a esparsa guarniçãode vultos, amparados pelo néon das roulottes, alguns balcõesonde não nos servem outra coisa a não ser aperitivos ou complementospara os tons claros e medíocres que o sol há-de intensificar.Estes são os redutos onde calhamos sem acalentar projecto...
Fazendo cócegas ao destino
2008-04-19 02:26:00
A chuva não nos deixa ficar sós,trazida pelo vento a tiracolo.Do céu ainda se espera algum azul. Só issonos mantém fiéis à esplanada. Aqui ao lado,no quarteirão dos pescadores a vida correà medida das marés, com as gaivotasrecortando o horizonte das viúvase as traineiras indo e vindo em formação.E se aqui continuamos, presos pela chuva,é para que a vida não nos entre tão depressapela porta. Ou não fosse a alegriaum bálsamo que raramente se entranhaaté aos ossos. Vale a pena congelarmoso silêncio, o espaço afectuoso entre as palavras.- Vítor Nogueira
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Auriense
2008-04-18 06:35:00
Que tristeza nos saberia conduzir tão distraídospara lá da fronteira, confessando a enormidadedeste fosso íntimo para onde nos cansamos de atirarmoedas e desejos, sem receber nenhum eco de volta?Tempo para a troca de opiniões sem fundamento,esse sentir que se repete até já não ser preciso escutar mais,vai bastando um assentimento geral e uma superfície imaculadaaté que o outro se canse do som da sua voz.Estava-nos destinado um repouso decente num alberguecolado a um cemitério - nenhum intervalopara o regular cultivo da morte. A mim pareceu-me bem.Que outra ilustração poderia elucidar-nos melhordo que aquele sóbrio quintal, ornadopor esclarecedoras advertências e a poda cuidadosados arbustos em volta, corrigindo as vagas expectativasde peregrinos e outros visitantes menos ansiosos,na busca de um pouco mais que nada, seguindopela Via da Prata o rastro de Santiago.Poucos lugares saberiam acolher com tão puranegligência esta solidão. Estávamos pela primeira vez ali,na cidade das Burgas,...
Os melhores anos da minha vida
2008-04-17 23:54:00
A person isn't safe anywhere these days.The ChameleonsOs melhores anos da minha vidapassaram comigo ausente, passaramnuma corrente subterrânea.Não me apercebi de nada, distraídocom a queda das folhas,a densa mistura de pão e desordem.Estava tudo em aberto, mas eu não sabiasenão de pequenas querelas,e tímidos passos à toa, sempre à esperade não ter futuro. Sentado, como um pobre,sobre o poço de petróleo,eu media com tesouras as semanas,misturava-me com livros, ansiavapelo dia em que deixasse de sangrar.Os melhores anos da minha vida troquei-ospor isto.- José Miguel Silva
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Entre dois parágrafos
2008-04-13 15:37:00
Well crucify the insincere tonightWell make things right, well feel it all tonightWell find a way to offer up the night tonightThe indescribable moments of your life tonightThe impossible is possible tonightBelieve in me as I believe in you, tonightPela clarabóia, o último cigarro e o som derradeiro do velho malucoQue insulta a mãe enquanto garante que o mundo vai acabar.Não sei se é o mundo, se a clarividência verbosa que do vinho vem,Se esta noite ? tantas horas numa só página ? mas um deles vai acabarSem que façamos a mínima ideia de quem acusar pela fraqueza da métricada luz que desce repentinamente, sem aviso, entre dois parágrafos,O velho uiva, entre dois parágrafos, mas a noite vai desaparecendo,uivamos mas a noite foge-nos, por entre dois parágrafos,por entre as membranas de batráquio amarelecido que são as nossas mãosTambém calejadas, não da escrita, deus nos livre, antes de segurar o archoteguia no labirinto paleocristão de lombadas e badanas que substituemA formalidade da...
ZEITGEIST
2008-04-12 23:56:00
Neste documentário não se fala muito nas coisas que te interessam. Aliás este documentário provavelmente não te interessa mesmo nada.10/10 - ESSENCIALDownload disponível no site oficial:www.zeitgeistmovie.com
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