O Melhor AmigoO Melhor AmigoUma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue) Articles
O roubo do silêncio
2011-12-19 01:22:00 Viver ensina a esperar a vez e a conviver com a dor. É o que me segredam as mãos brancas do dentista, quando finalmente a obturação sem anestesia define o limiar da própria dor, dá lições de autocontrole. Quando a fala do médico é curta, chegar até ele é raro, pois ele detém o poder da anestesia, e é preciso oferecer a vida antes da hora para merecê-la; quando o livre curso da natureza é ainda caminho mais manso na direção do fim; quando o melhor é espantar o meu presságio e plantar sua comida - não há poesia que valha uma vida. A vida vai bem em prosa, quando a violência lhe rouba definitivamente a liberdade de corte. Quando minha morte não me pertence, o modo de morrer não me pertence, esse expatriamento vai entrando dentro da vida. Quando minha morte me é roubada, é o roubo que corre para dentro de mim. Para a terapêutica sem recursos, o diagnóstico mais generoso é sempre a eutanásia generalizada, a expansão da autoridade para dentro do corpo do outro, a faxina em seus farrapos d...
Poesia
2011-12-17 13:12:00 Não te devolverá o que te tiraram? pessoas, paisagens, comboios, noites, dias ?,mas dará nome àquilo que se foie haverá menos silêncio nas tuas mãos vazias.Não serás mais feliz por estares com ela,se calhar mesmo nada quase sempre,mas não deixará, como o irmão bom,de te murmurar cúmplice que se aprende com a dor.Não te defenderá de quem te humilhar,não apagará a sombra das dúvidas,estará apenas ali, com a sua parca presença,pondo letra em cada música triste.Quem sabe se vais preferir não ternada a ver com essa forma raraque te ensinou o teu pai de não dizer as coisasou de dizer as coisas com muito poucas palavras.- Ángel Mendoza(tradução de Inês Dias)in criatura n.º6 More About: Poesia
Lapinha
2011-12-16 17:14:00 Para a LorenaÀs 21h25 a ilha fecha,o último pássaro metálicodeixando para trás os portõesencerrados das lagoas.É um tempo de aranhasesquecidas das teias, avessuspensas no voo, amigosque invocam em silêncio as estaçõese recordam ainda a Criação,camada por camada.Sobre os homens desce entãouma redoma de nuvens, que a estrelaúnica vem selar. Cada um riscaas fronteiras do sonho com sebesde hortênsias ou muros de basalto,esperando depois que as trêsvoltas do milhafre não o surpreendamentre as espigas altas do mundo.E o medo torna-se subitamentenavegável, mar de minúsculase carnudas conchas estendidoa nossos pés, para que possamossempre caminhar sobreas águas.- Inês Diasin Em Caso de Tempestade Este Jardim Será Encerrado, Tea For One
O deus
2011-12-15 23:03:00 Quando a noite é só o barulhode um galo desreguladoe o apito distante de um guarda-noturnoNesta horaem que os corpos procuram a ausênciatão necessáriae a dorum ponto-de-vistaProcuroem cada canto do quarto- olhos de treinada coruja -o deus que me pronuncia.- Heitor Ferraz Melloin Coisas Imediatas, 7 letras
Amanhã
2011-12-15 16:02:00 Lançamento do livro de estreia de Inês Dias,dia 16, às 22h30, no Bartleby Bar.Leituras de Marta Chaves e Solange F.-
Nem tudo é épico e oitava-rima
2011-12-15 02:36:00 -Nem tudo é épico e oitava-rimapois muita coisa desabadatem seu sorriso cotidianoe uns dorsos suados, pés humanos,dois utensílios: João e Joanacom seus pequenos firmamentosentre corujas e cumeeiras.Ruas e ruas com as esquinase com os prostíbulos disfarçadose essa mulata ausente ali,com seu sorriso maternalque uns homens míopes não percebem,indo ao nível desses táxis,bondes repletos de marítimosque vêm de barcos gusanados,atrás dos barcos, - limpas aves,mais adiante os negros cais,e contra os cais será que há mar?Será que há mar para um heróiolhar o céu à flor das águas?(...)- Jorge de Limain Invenção de Orfeu (Canto V)
Sexta-feira
2011-12-15 01:59:00 p/ PaulinhaCalcanhares pontudoscaminham pelo andar de cima.Calcam angústiavontade de mudar de nomeendereçode vida -nessa ilhade paredes brancasRobinson urbanodiante da fatalidadeirremediavelmente só.- Heitor Ferraz Melloin Coisas Imediatas, 7 letras
Ficção
2011-12-14 23:19:00 Sabendo-me defuntocom todas as barbas de molhoacompanho o dobre sineiropela escadaem caracol de pedraNa extrema-unçãomeus passos escavampouco maisseus degrausSão séculos arrastadosem arenoso silêncio.- Heitor Ferraz Melloin Coisas Imediatas, 7 letras
Noite no quintal
2011-12-14 19:11:00 p/ Noeli PomeranzA noite no fundo do quintallembra o cinema de sombras na paredevento no arbusto sacudindo medo(formas de bruxas noturnasterror de mula-sem-cabeça)- o fundo da noiteestampado na memória________me puxa pelos pés- Heitor Ferraz Melloin Coisas Imediatas, 7 letras
Na medida certa
2011-12-14 14:55:00 Procuro um cinzeiropreciso muito desse cinzeirode vidrosuas três pequenas depressõesonde apoio o cigarroenquanto nadona inconsequente fumaçaEsse cinzeiro ajuda a comporo ambientea janela que dá para o pátioNão é um deus de vidronem nada que o transcendaÉ a piscina de cinzaso arquivo mortodas descobertas pessoais- Heitor Ferraz Melloin Coisas Imediatas, 7 letras
Explicação
2011-12-14 12:46:00 Não sei explicaro que me motivoua colocar fogonaquele pinheiroem frente de casaNão era a beleza"da chuva vermelha"Nem a necessidade de calornuma manhã sem abrigoHavia um fósforouma caixa de fósforos- Heitor Ferraz Melloin Coisas Imediatas, 7 letras
O lago secreto
2011-12-13 11:51:00 Tua cabana entre duas camaso "esconderijo secreto"as crianças cavam buracosno chão(uma, satisfeita, diz quefez o lago Titicaca - a outraprocura um balde de água)Pelos buracos fugiram 19 presosque estavam nas celas do 23º DPOs helicópteros sobrevoamnossa casa, voam baixo,com metralhadoras suspensasMeu irmão morreu em cima da ávoreAs crianças se escondemdentro de túneis de lataProcuro a senha (uma data)- Heitor Ferraz Melloin Coisas Imediatas, 7 letras
Mozart, Requiem
2011-12-13 01:16:00 Chorai arcadasDo violoncelo!Camilo PessanhaNa pauta, ora choram aziagasarcadas de violoncelo, que nos levamà raia do inferno e nos trazem de volta,transidos de pavor;ora vibram e suplicamintensos violinos semelhantesa insectos que pela noite foravão estridulando sem saber porquê.Oh, os violentos violinosque gemem aflitos,rasgando a punhais de geloo seio da lacrimosa!Tudo tão humano. E aspirando tantoao aconchego de um lugar cativoà mão direita - de quem?E a partitura segue salpicando angústias -farrapos de ansiedade misturadoscom farrapos de medo.Amadeus devia ser chamado à ordem:nenhuma música dói tanto, e nenhumacumpre tão severamente o seu papelde demonstrar o avesso que há nas coisas.- A. M. Pires Cabralin Cobra-d'água, Cotovia
Montagem
2011-12-12 20:29:00 para a Paula e para a SofiaE depoiseram os meninos do aniki-bobóno campo longo astranças a preto e branco o bolsodo calção dava para a varanda dorioentre as ervas da chita opassarinho totó e aestrela dos barcosO comboio, a queda, o túnel, o túnel- José Manuel Teixeira da Silvain As Súbitas Permanências, Quasi
Elegia 1969
2011-12-12 15:06:00 Segundo Carlos Drummond de Andrade Arrastas a escravidão até à velhicee nada que faças te vale de muito.Dia após dia passas pelos mesmos gestostremes na cama, tens fome, desejas uma mulher.Heróis representando vidas de sacrifício e obediênciaenchem os parques por onde caminhas.À noite, no nevoeiro, abrem as umbrelas de bronzeou então refugiam-se nos vestíbulos vazios dos cinemas.Amas a noite pelo seu poder de destruição,mas enquanto dormes, os teus problemas irão morrer.Acordar só prova a existência da Grande Máquinae a luz árdua cai nos teus ombros.Caminhas entre os mortos e falasde tempos por vir a assuntos do espírito.A literatura fez-te desperdiçar as melhores horas de amor.Fins-de-semana perdidos, a limpar a casa.De pronto confessas o teu fracasso e adiasa alegria colectiva para o próximo século. Aceitasa chuva, a guerra, o desemprego e a distribuição injusta da riquezaporque não podes, sozinho, rebentar a ilha de Manhattan.- Mark Strand(tradução de José Alberto Oliveira)in Ros...
Perguntas
2011-12-11 11:32:00 Alguém me permitiu que chegasse a esta idadefazendo perguntas. Boa alma, essaque leu em mim o aguilhão das dúvidase o achou legítimo e me permitiu que às vezesfizesse umas perguntas de trazer por casa.As outras perguntas, as menos correntes,aquelas a cujo cofre só sábios têm acesso(e para as quais aliás nunca encontram resposta,tal qual eu para as minhas ? estou vingado),essas foram-me escondidascomo de uma criança o frasco da compota.Ainda assim, impostos dessa formalimites aos meus passos inquietos,agradeço o benefício. Porque enfimpodia ter nascido sem a urgênciade inquirir coisa nenhuma.Podia dar-me por satisfeito assim,aninhado numa rábula qualquer.Ronronar como um gato que o dono afagamaquinal atrás da orelha enquanto lê.Com acesso garantido a um lugar de balcãocom vista para a bem-aventurança.- A. M. Pires Cabralin Cobra-d'água, Cotovia
Um Fio Que Te Prende À Vida
2011-12-10 14:57:00 Nota: O preço do livro é 6? e não 8?- More About: Vida
Antes da Paixão
2011-12-09 03:35:00 Oh, Tu assim o quiseste, não deviaster nascido do corpo de uma mulher:é preciso extrair Salvadores de montanhas ínvias,onde se separa o que é duro de outra dureza qualquer .Não Te dá pena assim devastaro Teu querido vale? Vê a minha fraqueza;apenas tenho ribeiros de leite e lágrimas para ofertar,e Tu viveste sempre nessa sua largueza.Com tal excesso me foste prometidopor que não saíste de mim em estado selvagem?Se apenas de tigres precisas para ser dilacerado,porque fiz na casa das mulheres a aprendizagemDe um pequeno vestido puro e macio Te tecersem que nele te pudesse magoar a asperezada menor costura; assim foi todo o meu viver,e agora de súbito transtornas a Natureza.- Rainer Maria Rilke(tradução de Maria Teresa Dias Furtado)in A Vida de Maria, Portugália Editores
Panic attack
2011-12-08 13:18:00 De súbito a estranheza cicatriza em cadaobjecto, esmalta-os de trevae o ar da tua habitação é povoadopela cinza azul desse olharque do espelho te lança um intruso.Pede-te que o soltes. Não o abras.As palavras formam no teu cérebroum pelotão de fuzilamento. São já velhastodas as tuas recordações como númerosde empresas falidas há muito.Fechas os olhos, tremes: um barcoabandonado a um mar calcinadopelo esquecimento. Um terror lento encharca-teo peito e o futuro apodrece no passado.- Juan Bonillain El belvedere, Pre-Textos
A ambição de Gottfried Benn
2011-12-08 11:56:00 Com um poema devolver às tabernas o alcoólatraque havia prometido nunca mais provar vinho;com um poema dar a sentir síndromede abstinência a quem havia juradonão voltar a injectar nem mais uma gota de heroína:com um poema erguer nas entranhas de um amantea certeza de que se destróide cada vez que o amor lhe rouba um gesto.Com um poema fazer que abandonem toda a esperançaaqueles que sonham com um mundo melhor.No final da sua vida Gottfried Benn buscava esse poemae para sorte de todos nós não conseguiu encontrá-lo.Mas pulsando no seu fracasso ainda podemos escutar esse rumor:a poesia propõe-se pronunciar uma verdade intolerável,se as suas palavras não te alcançam de uma maneira física- soco no estômago, mordida nos lábios, vertigem no olhar -então não passa de ilusório onanismo.- Juan Bonillain El belvedere, Pre-Textos
A pintura
2011-12-07 10:57:00 6Quando a luz se apagageme a mansa fera dos quadros.O caos apodera-se da explícitasuperfície em que canta a sua mensageme nos apresenta um anjo disfarçado de extenso temano qual brincam linhas sem transvio.Foge a luz, e a pinturarecolhe-se em si mesma. São indistintasas cores que lutam até ao contactodo luminoso pontoo que desperta clamor, ruído de espadas,explosão de matéria nos beijos.Aniquilada fica aos nossos olhosque gostam de procurar o que os seus lábiosnunca dizem às escuras,aquilo que só é possívelquando de súbito invade o nosso sangue,se derramafervilhando pelos íntimosleitos da nossa luz,se converte em nós.A luz que colabora, que despertao adormecido animal da pintura;a luz desperto agora,a qual nos leva conduzidos por suas mãosa interpretar os sinais,a estremecer ante o golpe fulminantede verdades que perfumamsubitamente um ser diferente em si;a luz que ressuscitaa adormecida, aniquilada, informe,matéria escurecida,que coloca alma no homem e nas suas ruínas:a luz que, de...
Oráculos de cabeceira
2011-12-06 18:06:00 O arrabalde tem isto: é um verãoque não acaba.Dão nisto os centros:carentes de resina, do cheiro a mar,surdos ao ópus n.3 para vento e jacarandá,ao relapso movimento da alegria,contraem úlcerasque desditosamente se disfarçam em paus de incenso,em certos livros tardios e vinhos mais carose lacónicos. O ventoé todos os ventos, escrevia Hugo,mentindo a si mesmo, em Guernsey.O arrabalde tem isto:tatuado na retina é quase tudo,pois à míngua de uma ideia de futurosó o presente nele s?excelsa.Ler oráculos de cabeceira,por exemplo, enquanto lá fora,sobre a pele do Índico,num flamingo, bifurca a sombra.- António Cabrita
Quase bonita
2011-12-06 14:07:00 I am mainly an idiot you are almost beautiful Robert Creeleyeu julgo que és quase bonitaao ver-te duplicada na janelaimunda de um comboio de invernoajeitas dois fios do teu cabelometes a mão à cara, porventuraa cheirar nos dedos o almoçoconferes o bilhete, o telemóvelo conteúdo da mala não sem pesotoda a soma de últimos valoresde boa passageira infrequenteé que és mesmo quase de se amarmirando a paisagem desoladacomigo, o maior dos idiotassuspeitando de repente alguma mortevagão quinze, pela tardekörmend-szombathely - João Miguel Henriques
Relatório
2011-12-06 10:48:00 É um mundo pequeno,habitado por animais pequenos? a dúvida, a possibilidade da morte ?e iluminado pela luz hesitante depequenos astros ? o rumor dos livros,os teus passos subindo as escadas,o gato perseguindo pela salao último raio de sol da tarde.Dir-se-ia antes uma casa,um pouco mais alta que um impérioe um pouco mais indecifrávelque a palavra casa; não fulge.Em certas noites, porém,sai de si e de mime fica suspensa lá foraentre a memória e o remorso de outra vida.Então, com as luzes apagadas,ouço vozes chamando,palavras mortas nunca pronunciadase a agonia interminável das coisas acabadas.- Manuel António Pinain Como se desenha uma casa, Assírio & Alvim
Chuva de contacto
2011-12-05 10:40:00 Assim que me pus de pé,olhei o sofá,as paredes, o tecto.E então já me deslocavapelo espaço restante.Enquanto descascava uma tangerina,situei-me na minha idade,sacudindo a cabeçacomo quem sacode um fósforoque se nega a apagar-se.Quando voltei a sentar-me,perdi uma ideia.Mas não o seu rastro.- Juan Antonio Bernierin Para los años diez (7 poetas españoles), Hum
Sinopse
2011-12-04 18:22:00 Nem martelo nem bigorna, como sempredesejei: as tardes à janela, sem vizinhos nemardis, a injustiça reduzida ao mecanismonatural da bicharada, o lavradio do amora tempo inteiro.___________ Só me falta, para tudoproteger em cobardia, uma campânulade cego na cabeça, aprender a fechar os olhose ouvidos ao avanço hertziano da desdita.Então serei feliz e integral como um cadáver.- José Miguel Silvain Serém, 24 de Março, Averno
Dois velhos
More articles from this author:2011-12-04 00:17:00 Cada tarde o jardim para que a minha janela dárecebe a visita de dois velhoscom os seus gestos reumáticos e pobres,de peles enrugadas e translúcidas.Pergunto-mea que velocidade passam os seus dias,o que discutem sem fé enquanto passeiam,desde quando não bebem.E é triste imaginar-me nos seus corpos pesados,caducos para o amor.Órfãos. Olorosos.Com o que é que sonham os velhos?Lentamente olham-secom olhos de outra idade, a branco e pretopulsam as suas memórias mal curadas;e passeiamcomo essas nuvens gordas do outonoque arrastam pelo céu a sua desídiabuscando algum motivo, uma ocasião, a desculpapara se reinventarem.- Rafael Espejoin Para los años diez (7 poetas españoles), Hum 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 |



