O Melhor AmigoO Melhor AmigoUma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue) Articles
Roger & Me
2008-09-09 01:53:00 À atenção das putinhas amestradas de direita que continuam à espera que a realidade as atinja para deixarem de lado os andrajos morais, as análises e as teorias bacocas e a filosofia de pastelaria.
Xerox, fala baixo, olha se te ouvem
2008-09-05 21:31:00 Queixas-te, Xerox , a toda a hora, de que os críticosnão ouvem, não promovem os teus versos,que não cedem às milícias de latão com que pretendes,façanhudo, conquistar não sei que posto nas esferasde um Parnaso imaginário. E clamas por justiçanas esquinas, nas escadas dos palácios culturais,encostado a colunatas de cartão; vais queixar-teàs redacções, insinuas um conluio de sumárioscalculismos; chegas mesmo a invocar, como um pobre,o direito que te assiste a um rendimento mínimode encómios por volume! Não percebes, fotocópia,que se os críticos afastam, educados, o olhardesses líricos despejos que publicas, isso apenasindicia escandalosa protecção? Pensas tu que,não te lendo, te maltratam; grande nabo me saíste.Maltratado, meu Xerox, ficarias se te lessem.- José Miguel Silva
O peso e as medidas de uma democracia
2008-09-05 16:13:00 Caixas de comentário, sim e porquê:«A blogosfera é o meio de comunicação mais livre e democrático que existe (aliás, é o único a quem se pode aplicar tais adjectivos), e muita dessa liberdade e democracia têm que ver com o facto de qualquer um, na blogosfera, poder opinar, por muito estúpida e irreflectida que seja a sua opinião. Fazendo um paralelismo com o sistema democrático, ninguém acha (pelo menos ninguém o admite) que o Zé das Couves, cavador em Pencas de Baixo e homem sem qualquer instrução formal, deva ser proibido de exercer o seu direito de voto só porque é analfabeto e nunca teve tempo nem oportunidade para meditar nas magnas questões de natureza política que constituem entretém e ganha-pão de um almirante da Opinião como o Sr. J. Pacheco Pereira. Ora, eu não percebo que direito tem JPP de execrar o baixo nível de discussão nas caixas de comentários da blogosfera e defender a sua erradicação. Se são eleitores, meu senhor! Gente que, por muito ignara e insultuosa que seja... More About: Peso
Marginalia
2008-09-05 08:59:00 Sometimes the notes are ferocious,skirmishes against the authorraging along the borders of every pagein tiny black script.If I could just get my hands on you,Kierkegaard, or Conor Cruise O'Brien,they seem to say,I would bolt the door and beat some logic into your head.Other comments are more offhand, dismissive-"Nonsense." "Please!" "HA!!"-that kind of thing.I remember once looking up from my reading,my thumb as a bookmark,trying to imagine what the person must look likewhy wrote "Don't be a ninny"alongside a paragraph in The Life of Emily Dickinson.Students are more modestneeding to leave only their splayed footprintsalong the shore of the page.One scrawls "Metaphor" next to a stanza of Eliot's.Another notes the presence of "Irony"fifty times outside the paragraphs of A Modest Proposal.Or they are fans who cheer from the empty bleachers,Hands cupped around their mouths."Absolutely," they shoutto Duns Scotus and James Baldwin."Yes." "Bull's-eye." "My man!"Check marks, asterisks,...
30 dias a chover
2008-09-04 03:03:00 Seria um bom assuntopara um poema como este.Os poetas sempre se sentiraminspirados pela chuva.Os poetas.A mim porém só conseguefazer com que queira estarlonge daqui, longede todos e de tudo,de ti, que estás a ler istoquem sabese à luz do sol.- Roger Wolfe
Sorrir no inferno
2008-09-02 22:18:00 Chamem-lhes domingos ou dias de doce fadiga.Não é mais fácil esquecer a vida, mas é o que temosde mais parecido com o descanso que a morte promete.Visto-me tão mal quanto possa e vousubindo a rua mais sinuosa, não há pressa. Observogatos a vadiarem por entre curtas sensações de paz,passando à porta dos tugúrios onde me deixosentado a um canto enovelando uma série de pensamentos? como discos riscados ? a tocarem para estas espessashoras de falência, bebidas e, a intervalos, mijadasno urinol. Tenho o suficiente se me apetecer cairsem peso, voar pelo chão, sorrir no inferno.Mantenho um discurso de circunstancia,invento personagens fictícias que me ouvem atentamentee vou quebrando o sigilo, amadurecendo teorias.Deixo-me entusiasmar e crescerplaneando o contra-ataque, a revolução?Mas assim que atinjo o ponto mais alto, os próprioscompanheiros que me inventei, vão virando os bolsos,sacodem de leve as calças e levantando-se passam por mim,deixam cair uma mão fria no meu ombroe despedem-se ... More About: Inferno
Numa biblioteca
2008-09-01 22:58:00 (Versão de um poema de Zbigniew Herbert)Uma rapariga loura está inclinada sobre um poema. Com o bisturide um lápis afiado transfere as palavras para uma folha branca econverte-as em acentos, cadências, cesuras. O lamento de um poetacaído assemelha-se agora a uma salamandra devorada por formigas.Quando o levámos sob o fogo das metralhadoras eu pensei que o seucorpo ainda cálido ressuscitaria nas palavras. Agora que vejo a mortedas palavras, sei que não há limites para o declínio. Tudo o quedeixaremos atrás de nós sobre a terra escura serão sílabas dispersas.Acentos sobre o pó e o nada.- José Miguel Silva
Música de Recâmara
2008-09-01 18:26:00 Pôs Bachna cassete. Disse-meque ia ver umas amigas?um favor, lembrou-me, que devea não sei quem ?. Leio um livro,fumo; o cinzeiroestá sobre a coberta.___________Apaguei todasas luzes desta casa. E ao voltar? os pés descalços sobre o mármore ?da cozinha, numa das mãos o café,a brasa vermelha do cigarro na outra,parei, como com medo, quase,a escutar o compasso da batidado meu coração. - Roger Wolfe
Pagar pouco
2008-09-01 00:31:00 Para o Diogo Vaz Pinto, na esperança de que ele ganhe juízo e diga: cum chavasco, está do catrinoIIIhá dois tipos de valor nos artefactos: o ficcionado eo outro de que nunca ouvi falar. Dá-lhes um só tomde consistência ou realidade e eles desfazer-se-ãoem pó.talvez por isso tudo quanto habitamos permaneçairreal, como a névoa pintada de bistre dos retratosde severos coronéis e impantes bigodes, cujo sanguee defeitos connosco transportamos lepidamente;talvez por isso as margens de páginas dobradas,ou as flores e os recortes e os apontamentos a não esquecersirvam, não para marcar passagens de interesse ido,antes para as preservar do próprio interesse que é fugaz.Inútil. O que resta da intenção é ela mesma, sozinha,o que significa, não me digam, que a intenção falhou.Restam porém amostras de perfume,fotografias de belas mulheres com volumosos penteados,(a nossa mãe quando não era nem mãe nem nossa)com versos desenhados à pressa junto ao recortesemelhante ao dos selos. E damo-nos por sat...
Chega, toca, vai-te embora
2008-08-31 17:19:00 É inútil, disse-lhe.Escrever.Escrever é inútil.Pois, respondeu-me.Pensei nisso mesmohá uns dias.E a que conclusão chegaste?A essa. Ao que tudizes. Que carece por completode sentido.Só que...; bom,também pôr tijolosé inútil.Serve para construir casas...,e paredes. Muros de fuzilamento, também.Talvez se trate disso.De quê?Um ofício, foda-se, umofício. Nem mais nem menosque um ofício.Como dizia Pavese?Não, como Pavese não. Como esse músicode jazz. Lembras-te?Freddie Green.Chega, toca, vai-te embora.- Roger Wolfe More About: Toca
Supermercado
2008-08-30 20:56:00 para a Ana Paula InácioTenho 35 anos e sei finalmente o quequero. Basta olhar para o cestode compras: bolachas Leibniz, papelhigiénico Renova, leite com chocolateAgros e, claro, uma garrafa de FamousGrouse e pelo menos seis latas de Super Bock.Discos já tenho que cheguem, por muitoque me desminta, e não viverei o suficientepara ler todos os livros que me ocuparam a casa.É um bocadinho banal, eu sei, mas é a minhaprestação diária enquanto consumidor, o meu fadosimples, enxuto, quase isento de lágrimas & remorsos.Acordo para almoçar no Doce Lindo (ou Doce Belo, aindanão houve rotina que me fizesse decorar o nome),passo pelo supermercado, onde desejo ou nem por issotodas as ternas e voláteis isildas deste mundo perfeito? e volto a subir devagar as escadas de madeira rombas.Só muitas horas depois, quando as luzesme garantem que o bairro inteiro dorme,escrevo poemas como este, versos em queinutilmente vos digo que sou um homem feliz,un roseau pensant, o mais belo cadáver de Lisboa.- ...
A canção do croupier do Mississipi
2008-08-30 20:48:00 Fifteen men on the Dead Man's Chest.Yahoo! And a bottle of rum!Canção PirataFumo muito. DemasiadoFumo para friccionar o tempo e por vezes oiço rádioe oiço passar a vida como quem muda de estação.Fumo muito. No cinzeiro háideias e poemas e vozesde amigos que não tenho. E tenhoa boca cheia de sangue,e sangue que sai das fendas do meu crânioe toda a minha alma sabe a sangue,sangue fresco não sei se de porco ou de homem que sou,em toda a minha alma retalhada por mulheres e criançasque se movem ingénuos, torpes, poresta vida que eu já sei.Apalpo-me no peito prontamente, nervoso,e não sinto o coração. Não há,não existe em ninguém essa coisa a que chamam coraçãosenão talvez no álcool, nessesangue que eu bebo e que é o sangue de Cristo,o único sangue neste mundo que não existeque é como o Mal programado, oucomo fábrica de vida ou um alfaiateque não esqueceu quem é e segue vivendo, ouporventura o relógio e as horas passam.Apalpo-me, nervoso, os olhos e os pés e o dedo grandeda mão que coloc...
Home is so sad
2008-08-29 20:20:00 Home is so sad. It stays as it was left,Shaped to the comfort of the last to goAs if to win them back. Instead, bereftOf anyone to please, it withers so,Having no heart to put aside the theftAnd turn again to what it started as,A joyous shot at how things ought to be,Long fallen wide. You can see how it was:Look at the pictures and the cutlery.The music in the piano stool. That vase.- Philip Larkin More About: Home
Charles Bukowski
2008-08-29 03:39:00 Um homem não deve sero perito forense de si mesmo,há claro a questão dos cheirosda repugnância comedida pela penabem como aquela outrada camisa de forçasdeontológicaa estrangularriso caralhadas e lágrimas,há tudo isso mas vão por mimhá pior: pelas minhas contasvocês estariam mortos. More About: Charles , Bukowski , Charles Bukowski
As ruas
2008-08-28 16:27:00 Há uma hora nelas que é perfeita.Essa hora tão brevedepois de ter fechado o último dos bares.Hora de madrugada e quase noite,de maquilhagem e tédio e o estômago frio.A hora em que todos nos parecemos tantoque não nos conhecemos e em que beijar se torna,portanto, coisa inútil,porque beijamos nada, uma miragemdebaixo da luz azul da albamais pura do que o álcool e mais daninha.A hora em que inferno e paraíso têmuma porta comum: a debandada.A essa hora as ruasa pessoas como tu ou como eureconhecem-nos e acompanham-noscom o seu silêncio cúmplice.E se a negra sorte querque vomites a tua vida numa esquina,elas voltam a cara para outro lado,e seguram-te pelo braço, como o melhor amigo.- Andrés Trapiello
Fim de festa
2008-08-27 23:43:00 Por fim sozinhos, vida. Terminou a festa,e não fica ninguém que possa obrigar-nosa forçar sorrisos, a inventar embaraçosasmentiras piedosas. Todos já saíram.Vai-te despindo sem medo. Eu conheçoas tristes rugas da tua velha carne.Acariciei-as. Sei o que o teu rostooculta debaixo dessa maquilhagem.Por fim sozinhos, vida. A casa em silêncio,tu e eu despidos, calados e ausentes? juntos por rotina, mais que por desejo ?como dois amantes cansados de se verem.- Javier Salvago More About: Festa
Amar em corpo e calma
2008-08-27 23:28:00 Vivo num andar alugado com umamulher de quem gosto,apesar de nem sempre encontrarmosa forma de nos entender.O amor, como tudo, quando deixade ser uma palavrae toma corpo noutro corpo e vida,tem as suas horas baixas:seus momentos de enfado, de chatice,de tédio, de violência,de solidão; seus rostos carrancudos,ridículos e feios.O amor, como tudo, quando deixade ser uma palavra,um tema conveniente e vago, perdea cegueira e as asas.- Javier Salvago More About: Amar
«Morreu Dom Fuas, ...»
2008-08-27 05:56:00 Morreu Dom Fuas, gato meu sete anos,pomposo, realengo, solene, quase inacessível,na sua elegância desdenhosa de angorá gigante,cendrado e branco, de opulento pêlo,e cauda com pluma de elmo legendário.Contudo, às suas horas, e quando aconteciaque parava em casa mais que por comerou visitar-nos condescentemente comoa duquesa de Guermantes recebendo Swann,tinha instantes de ternura toda abraços,que logo interrompia retornandoaos seus paços de império, ao seu olhar ducal.Nunca reconheceu nenhuma outra existênciade gato que não ele nesta casa. Os maistodos se retiravam para que ele passasseou para que ele comesse, eles ficandoao longe contemplando a majestadeque jamais miou para pedir que fosse.Andava adoentado, encrenca sobre encrenca,e via-se no corpo e no opulento pêlo,como no ar da cabeça quanta humilhaçãoo sofrimento impunha a tanto orgulho imenso.Por fim, foi internado americanamente,no hospital do veterinário. E lá,por notícia telefónica, sozinho, solitário,como qualquer humano aq...
A. M. Pires Cabral
2008-08-25 20:09:00 O MEU CARRO DE LATAAo Vítor NogueiraEra um carro de lata. Era amarelo.Não era carro para uma marca só:a maior parte das vezes era um Plymouth,mas também podia ser um Dodgeou mesmo um Caddillac.Dependia.Não era maior que uma romã,uma romã de lata e amarela.A imaginação tinha de se encolher muitopara entrar nele. Mas uma vez lá dentropartia à desfilada na berma do passeio,ultrapassando caricas, fazendo acrobaciaspara não chocar com pontas de cigarro.Roncava com os seus doze cilindros,buzinava, enchia a rua de som.Era um carro. Era de lata. Era amareloe faiscava. Dava duzentos à hora.E podia até levantar voo,bastava eu querer.Alguns despistes foram-lhe amolgandoa chapa. Nada de grave.Até que um último acidente atirou com ele,derrapando num pião desgovernado,para uma arca do sótãoe daí para a sucata irrevogável.Ainda deve existir, mas já não anda.A poeira das décadas soterrou-oe vai-o corroendo,metodicamente e por esta ordem:primeiro o amarelo, depois a lata,depois a memória.Dentro, per... More About: Cabral
Os amigos do meu pai
2008-08-25 17:54:00 os que ainda têm carnemexem-se devagarfalam baixoensurdeceramestão obrigados a uma saudade- entre a lucidez da hora e o nojo do futuro -já pouco pensam na obranos inimigosna famílianos haveresvivem com um único medo:morrer e serem descobertosquando o cheiro chegar a outros patamaresestão muito magros os amigos do meu pai- Senhor Changuito More About: Amigos
Prognóstico
2008-08-25 17:46:00 Sou do tempo em que não se corrigiamdentes defeituosos.Além disso, perdi praticamentetodos os molares.Para piorar as coisas,a TAC acusa um desvio para a esquerdado septo nasal.Ainda por cima, um desvio acentuado.Bonita caveira hei-de dar,não haja dúvida.- A. M. Pires Cabral
Conspirateurs d?occasion
2008-08-24 15:46:00 A noite não começou muito mal.Alguns passos de anónimo sentido, entre tantos,e outra vez uma esplanada que merecemelhor publicidade e só por isso não levauma referência. De um lado o mar, enfadado,do outro mais uma feira de livros,novos e usados, corrigindo para melhorou pior o calão algarvio daqueles que,talvez como nós, precisam menos de culturae mais de um sossego que não se lê nem escreve.Morámos ali por um tempo largoe depois fomos voltando a casa, à varanda,aos temas mais inofensivos e aos vícios do costume.Antes das primeiras deserções acho que ainda sentiuma espécie de satisfação. Pareceu-me felizaquela piada que fizeste sobre a mais insignificantedas coisas. Mas aos poucos a noite foi deixandode nos pertencer ? alguém se lembrou de alguémque devia estar ali connosco e já não estava.Falar mais alto não adiantou,a quem podia interessar já não nos ouvia.E uma noctâmbula hora destas não nos perdoaque estejamos para aqui vivos e sem nenhum sono.A lua esgotada como a última rodel...
O país à porta
2008-08-23 04:09:00 Se pudesses, O'Neill, ver hoje o teu país,(ou tu, Assis Pacheco, filho pródigodestes quintais floridos)velho de oito séculos e pouco mais velhodesde que o deixaste,país que secretamente não votapara não se maçarenquanto furta com arte as gaiolas vizinhasa cantar nas paredes caiadas,país com mais que fazer(futebol para vere mato para queimar);se pudesses vê-lo agoranão levarias a peito,mas confirmarias, estou certo,que tem defeito de nascençaou de fabrico,mais valendo, por isso,como em vida tua valeu,deitar por terra a lança do ódio,fechar a navalha do tédio,sacudir o ombro amigo da solidãoe rir sonoramente de tudo,talvez não tanto à porta da pastelariacomo, hoje em dia, à porta dos chineses,mas rir sonoramente de tudo, dizia,- de ti mesmo,sobretudo.- Rui Lage
Wong Kar-Wai
2008-08-23 04:06:00 Como se perguntasse o teunome, e um eco de mimrespondesseque não existese me apetecesse morrermesmo assim à tua porta.Como se no banco de trás de um táxinão seguisses comigo para a morte,nem tivesses no meu colo pousadaa tua cabeça,no teu rosto branco o batom aceso,e o azul dos olhos como um espelhodebruçado sobre a noiteou luz de navio perguntando por terramas passando ao largo.- Rui Lage More About: Wong Kar Wai , Wong
Memórias da minha avó (parte I)
2008-08-20 01:18:00 Em memória de Maria Alzira Bonifácio RamosEstamos velhos, fatalmente velhos, quando nos começamosa dividir em preocupações por pingos noctívagos das torneirasmal fechadas, pelo medo vago, confuso a botijas de gáse carteiros, versão pós-moderna dos homens que traziambilhas de leite e perguntas desinteressadas acerca da família.Estamos irremediavelmente velhos quando decaímosem conjunto com a casa, mais depressa é certo, com elaainda assim. Nos móveis negros acumulam-se agora traposde cor incerta vestidos lustrosos de outrora, que se vestiamde acordo com o calendário litúrgico e que se deixavam despirpor mãos que a noite de ginja e canastra desorientava, nosmovimentos bruscos de ilhargas ou bocas secas e medrosas;despiam-seapesar de protestos frágeis e das risadas nervosas da senhorae dos gemidos daquela porção de cabeça e cabelo sobretudoque habita no berço entre panos turcos e exigências de leitee fraldas de pano. O chão tabuado ondula e estala ao andamentoandante triunfal do duet...
1 de Dezembro de 2000
2008-08-17 15:58:00 Habito um corpo - é apenas isso.As crianças, na rua, preparama morte, pisam as folhasdo acaso. Quem as olhará, nestemomento parado na praça das Flores?Benilde, ao balcão, diz que é uma flor,talvez a última. Mas as canções,na rádio, desmentem qualquer sorrisoe banalizam em língua portuguesao milagre sem voz do amor.Não me venham dizer que existo.- Manuel de Freitas
Derrame
2008-08-17 01:59:00 Os venenos, digamos, são para todos os dias.Paul BowlesUm momento, algures ? no fim do mundopossivelmente ?, uma silhueta detém-secom uma luz no lugar da boca.Só a lenta progressão de fumo, desenvolvendoaté se dissolver por entre as imprecisastonalidades do pôr do sol. A calma inexpressãodos minutos, a enrolarem-se uns nos outros,dando um nó no tempo: o eterno suspirae agarra-se ao pensamento, paralisa-o,apagando cada um dos seus pontos de tristereferência. A realidade interrompe-see desfalece. É apenas uma memória gasta,um zumbido distante. Depois de tudose ter dito e feito, só a música seguindo-noscada movimento, acompanhando,tocando e tocando-nos até nos cansaro cansaço.E assim se vive um pouco melhor,quando nos parece ser mais fácilmorrer.
Le Scaphandre et le Papillon
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