O Melhor AmigoO Melhor AmigoUma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue) Articles
As palavras do poeta
2009-07-03 15:38:00 Depois das palavras mortas,das recém-pronunciadas ou ditas,o que esperas? Umas folhas errantes,mais papéis dispersos. Quem sabe? Umas palavrasdesfeitas, como o eco ou a luz que morre além na noite enorme.Tudo é noite profunda.Morrer é esquecer umas palavras ditasem momentos de delícia ou de ira, de êxtase ou abandono,quando, desperta a alma, pelos olhos espreitamais como luz que qual hábil rumor.Hábil, posto que preparado fossepor força do seu som sobre uma página aberta,apoiado em palavras, ou elas com o rumor penetramo ar e depositam-se. Não com suprema virtude,mas com uma ordem, infalível, se querem:Porque obedientes, elas, as palavras, submetem-seao seu poder dóceispousam-se soberanas, surgem sob a luzpor uma língua humana que se dedica a exprimi-las.E a mão reduzseu movimento a encontrá-las,não: a descobri-las, útil, enquanto brilham, revelam,quando não, desenganadas, se evaporam.Assim, imóveis por vezes, dormem,resíduo final de um fogo intactoque se morreu não esquece,mas débi...
Windows
2009-07-03 02:03:00 O escritor lança um olhar esquivo através da janela.Esquece-se de acender mais um cigarro e distraidamente abre mais uma window do explorer,Talvez firefox. Ou nem isso, apenas uma distracção para o tempo.Acende finalmente o cigarro e tenta voltar à página branca.Uma espécie de núvem branca que jamais se tratará apenas de um pensamento em BD.Mas também não ameaça tempestade, nem sequer um grãozinho de chuva.Muito menos um texto.Seria capaz de escrever sobre alguém que viu por aí.Talvez numa carruagem de metro a abarrotar de gente.Mas são tantas as pessoas, são tantas as caras,Que fixar-se em alguém é como encontrar uma agulha num palheiro.Olha através da janela e não há ninguém do lado de lá.Um sintoma inesperado de décadas a sair porta foraPara procurar e não se deixar encontrar.E nas veias correm-lhe apenas as palavras que se calhar, pensa o escritor,Ficaram por dizer ou foram repetidas em demasia.E esse silêncio de um acaba por ser o de todos:Os do metro,Os que o esperam à porta.T... More About: Windows , Reyes
Vida
2009-07-02 23:47:00 Um pássaro de papel no peitodiz que o tempo dos beijos não chegou:viver, viver, o sol invisível crepita,beijos ou pássaros, tarde ou cedo ou nunca.Para morrer basta um pequeno ruído,o de outro coração ao calar-se,ou esse regaço alheio que na terraé um barco dourado para os cabelos louros.Cabeça dolorida, têmporas de ouro, sol que declina;aqui na sombra sonho com um rio,juncos de verde sangue que neste instante nasce,sonho apoiado em ti, calor ou vida.- Vicente Aleixandre More About: Vida
Gelo com flores
2009-07-02 23:31:00 Diziam no café que estava prestesa ser servido, mas o quê?A tua nuca? Essas mãosdesamparadas sobre a mesa puídacom nós embaciados de furtivos usose conversas engalanadas e malsãs?Não posso dizer que tenho ainda,sequer neste interior nocturno com abóbadas,o ímpeto de dor que noutras ruasà claridade do sul perto do mar(como eu odeio a claridade, o sul e o seu mar)me fez sossobrar ao segredo do álcool.Mas porque não jurar-te - é o crepúsculo -que certos fogos próximos do fimganham duma inércia consumidao maior poder de cremação.De repente um holofote mais baçoacendeu-se contra o alvo de centro perdido.Atira o dardo, é a tua vez. Porque esperas?Queres que seja eu, em tudo, a manejar?E tu de mãos tão hábeis, o pulso grosso e mesteiral,o cabelo farpado sobre as sobrancelhas de vinil.Com as calças vermelhas, a camisa de riscas ferozese a gabardina abandonada num banco de balcão,o tocador de alaúde saúda um tempo que passou,alegra o tumulto contido do salão onde as bebidas,as refeições lige... More About: Flores , Gelo
Aldeias, Miguel-Manso
2009-07-02 12:58:00 Dia 9 de Julho, às 22h no Teatro do Campo Alegre (Porto)ALDEIA REFLECTIDAsão joão da ribeira- queria pôr aqui este nome -mãos que trazem a fruta ao fim da tardeclero adro cal entusiasmo distritalescolhe tu o país a mesa de cafécontra este absurdo cósmicoeu pago um copolembrar-me-ei hoje de um verso pequeno? ALDEIA DA AZINHAGAadro campanário desolação librinano paul da manhã dormem gatos líquennenhum dos velhos se alevanta da entrada databerna em direcção à sua LanzaroteALDEIA DA PALHOTAo nomadismo é uma sucessão de sedentarismosaté se chegar ao cão voltando à margem à mulherque dorme negra na luz de uma árvore de abismosvê o que vai sobrando das artes dos barcos da noite"Avieiros" 1942 e o mais grave é que nem com a escritaou o cinema se pode voltar ao que já está perdido ALDEIA DO PATACÃOpodia falar dos tomatais do areal e do rio largos do renquedecrépito das casas em palafitas mas o que me ocorre mostraré a fotografia amarelada de dois amantes junto à morteALDEIA DO CADAFAZde ano... More About: Miguel
Air France
2009-07-02 00:02:00 Perdi as estribeiras enquanto andava no ar.Estava fulgurante como um ataque cardíaco,Impaciente como qualquer outro homemCom o sexo duro entre as calças.Estava cheio de gente dentro de mim.Espermatozóides assustadosCheios da possibilidade de virem algum diaA sobreviverem a um desastre.Uma coincidência assustadora e terrível essa a de nascer.E morrer também.Para infelicidade da sorte não havia fêmeas por hora.Descarreguei-me no meio do Oceano Atlântico,Através da água que vai dos ralos de Lisboa até aos canos do Tejo.Nela ficaram as possibilidades.Como as de quem morre num avião.Por: o meu lado masculino More About: France , Reyes
«É bom viver na terra?»
2009-07-01 16:00:00 No parque, sobre a relva,onde é tudo tão difuso,eu não tenho relaçãocom a minha vida. Indistintoentre as dezenas de pontosque um mestre desconhecidodistribui por acidentena tela crua da sorte,não tenho nome ou idade,nem sequer um coraçãopara sofrer outra ofensa:nunca desci ao infernode um amor desenganado,nada perdi que me fosseprecioso ou necessárioe de resto não conheçoos quatro cantos do medo,nem tão-pouco me pertenceeste modo de estar sóque inventei sem querer.De seguro, por agora,só tenho o corpo que ofereçoao calor da primavera ?e nem me custa ser eu, se soutambém qualquer homemde qualquer tempo e lugarque alguma vez se deitousem cuidados ou remorsoentre as árvores enfeitadaspela breve luz da tarde.- Rui Pires CabralOráculos de Cabeceira, Averno, Lisboa More About: Terra
Continuação de Jean Nicot
2009-06-30 19:18:00 sou dentro de mim o que quer fugirembora vá recusando a cada bafoo panorama dos astronautastiro notasdos calendários gigantesdas marés do sol e da luado rasto agrícola das nossas mãossobre a mesade madrugadaremo como exilado incaem direcção à luzse ainda me for fácil mentir direié afinal a única substância do poemaeste cigarro entre estrofes- Miguel-Manso More About: Jean
«Não há mundo aqui»
2009-06-29 19:58:00 não devemos ser eloquentes,não somos profetas, nem somos precursores,não nos agrada o paraíso, não tememos o infernoOssip Mandelstampara o José QuintasI.Sobre a mesa a trégua de um encontrocom livros abertos, meias palavrase a tarde num lento arremessoentre as superfíciesdo também lento comércioonde um vento ronceiro se esfregava,suspirando, tossindo ou engasgando-se,e que ao chegar junto a nósparecia flanquear-nos ? um ououtro golpe de rins? Como estavas lánão preciso de carregar na sensação.Seguimos adiante na falta de assunto,quando já ninguém em nós deseja umsomos de um país que é só um rumor,uma cantiga de bêbedos a favorde tudo o que se tiver de pé.Antes assim, levar a dor ao enjooatravessando algum roteiro exausto,a cidade, um vozear que nos pega e levaaté que o calor nos deixe meioinconscientes. Sentados,virados para um desses ridículosjardins, onde nos afeiçoamosà hesitação que por ali vai florindo,onde às vezes também sinto que sou demaispara o corpo que me envelhece e ent... More About: Mundo
Do outro lado da janela
2009-06-29 04:55:00 Na Casa da Mata todos eram felizes. Construída a partir de tábuas de madeira roubadas à vizinha ? momentaneamente distraída durante a confecção da broa de milho ?, pregos comprados na única loja da aldeia, camuflada com fetos arrancados à terra. Na Casa da Mata não havia telhado. Não se poderiam ver as estrelas do céu quente de Agosto, se as houvesse. A Casa da Mata apenas vivia durante o Verão. A sua existência iniciava-se no principio de Junho até atingir o seu auge no último mês das férias, para, pouco depois em Setembro, se extinguir na memória apressada dos seus moradores. Triangular e relativamente alta, a Casa era sustentada pelo tronco de três árvores, suficientemente antigas para mostrarem orgulhosamente as marcas de outros verões. Afastando a hera que as cobria, podiam ver-se os nomes e datas que, ano após ano, se acumulavam à volta dos seus diâmetros. Remetendo ao próprio tempo um sim: sim, nós estivemos aqui. O pinheiro do lado esquerdo era a escada em caracol. Obrigava ... More About: Outro
No País Das Maravilhas
2009-06-29 04:52:00 Inspirado nessa Alice:Beatriz Hierro LopesHoje passei por um coelho brancoE ele nem um relógio tinha.A menina de cabelos loiros pegou-o pelos braçosPerguntou-lhe as horas do próximo comboioE ele fixou-lhe o olhar esgazeado de um animal.Acendeu um cigarro que os levasse para uma toca,Um local iluminado por velasNo incenso constante de uma presumívelPartilha de nicotina.Era um coelho e não um sapo,Um coelho que nem as horas sabia.Adormeceu então na periferia da linha de aviso,Como um comprimido que vai separandoA linha dos carris e a plataforma dos vivos:Aqueles que sabem os horários da CP.E junto da cabeça sentiu os pontapésDas gentes que vêm e vão,Entrando e saindoDa tua detestável wonderlandComprimida num LCD.Os outros, os invisíveis Xis e ÍpsilonsVão-se juntando a ela,Como uma baralho de cartasEspalhado no chão de Campanhã.E eu, incrédula,Vejo já uma rainha de copasTrucidada de baixo de um vagão,Perguntando-te ao ouvido:"Quem foi que morreu desta vez, Alice?".E a Alice,Cheia de ol... More About: Reyes
Marinheiro
2009-06-28 23:43:00 Nunca conheci esse homemNem nunca vi os seus olhos negrosCom aquelas palavras longínquas.Escondidas e arremessadasAtrás de mil oceanos e um jazz,Quebrado na boca mais ordináriaDe um porto cheio de marinheiros.Nunca lhe conheci essa Beatriz de Chico BuarqueE as suas lágrimas não foram maisQue pontos de exclamação barulhentos,Estupidamente atirados contra uma janela de MSN.Jamais lhe tentei pegar a mãoQue se desvaneceu ao longo de uma noiteSuja de carência e fluídos que lhe são estranhos.O que provavelmente terá sempre sido eleForam essas hipóteses escassasQueimadas segundos antesDe eu lhe ter dito ao ouvido:Penetra-me.Sei lá onde deixei os arquivos de conversa,Se as minhas palavrasMal te sabem oferecer um nome.Evocando apenas um término de gestosEfectuados contra o teclado do computador.Símbolos unidos que te fizeram promessasAinda por cumprir.Abandonei-te na distância de uma mentiraTentando erradicar-nos na burocraciaDe atender o teu númeroE tentar dizer-te "hoje não é um bom dia".E... More About: Reyes
«You are a foreigner of some sort.»
2009-06-27 16:22:00 À míngua de uma ideiade futuro, só o medote compelia a mudar.E além dos livros difíceisque te davam as horasmais duras, sofrias os danosdo hábito e uma assíduapreocupação com a morteno escuro antes de dormir.Ao corpo do mundosó o conhecias com a partemais desacompanhadade ti próprio ? um coraçãocom defeito, peça de dúbiaoficina, que confundiao amor e tomava por alegriaum perdido laranjal junto à linhado comboio, com nuvens roxasao largo e os teus amigos todosantes do inverno e do necessárioinferno reservado a cada um.- Rui Pires Cabral More About: Sort , Foreigner
Mar Mediterrâneo
2009-06-26 12:17:00 Na verdade o Mediterrâneo é um pedaço de terra(é uma piada que circula por Jafasobre a fuga de um tal Jonas).Mas eu não estava com disposição para piadas:Sabedoria e dor talharam as pedras dos teus murose no meio das ruínas cravou na belezaa lança dum minaretena virgindade do céu e ali onde abarca todo o olhare toda a existênciaencheu-se com a espuma do mar.Talvez para os pássaros nocturnos que somoshaja algo de acertado naquela piada,quando a terra escurece e florescem os líriose a noite se aproximae o mar semeia uma grande angústia na praia.- Natan Yonatan(tradução de David Teles Pereira)
Rasganço (2001)
2009-06-26 02:05:00 Aproveitando o último post que deixei nesta gaveta, vou voltar a falar de um filme português e que, tal como esse, não é do João Mário Grilo.O filme chama-se Rasganço que, segundo percebi, é uma tradição da Universidade de Coimbra que implica rasgar roupa e tal e, de outro ponto de vista, é aquilo que alguém devia ter feito à fita deste filme antes de ela ter ido para editar. Mas não vale a pena ir já tão rápido ao ataque, primeiro vou explicar que circunstâncias estranhas me levaram ao visionamento deste filme.Há uns meses dei por mim numa sala de cinema a ver um filme baseado num livrito daquela senhora que deu aulas de modéstia - e segundo consta betão armado nível II - ao nosso primeiro-ministro. Dá pelo nome de Corte do Norte e todas as personagens que interessam para a coisa são feitas pela Ana Moreira. Dias depois tive uma ideia: parar de dar papéis ao Nicolau Breyner em todos os filmes portugueses e começar a dá-los à Ana Moreira. Para provar aos meus amigos cépticos e ao me...
Ex Estrelas e Ex Céus
2009-06-25 03:56:00 Ela julgava ouvir Os passos descontrolados de outrora,Para entender que se tratou apenas Dos silêncios em cada música tocada.Os silêncios das mãos apoiadas na cadeira,Segurando um corpo exaustoQue teima em recuar até uma divisão silenciosa Onde uma mulher nua a espera deitada.Ela detem-se nos seus limites selvagens,Reflectidos em casas assombradas e espelhos partidos.Estilhaços voluntáriosDe ex-estrelas e ex céus Sob o tecto de um quarto.O mesmo onde jaz o corpo amanteDeitado à sombra das história de terror velhas.As mesmas em que as frases Preliminarmente refazem o "era uma vez"Descansando um orgasmoNo " e viveram felizes para sempre".Dentro de quatro paredesDesse quase quarto Mantido impronunciável,Congelado no cansaço das mãos e do piano,Irrepetível como o silêncio,Ela está só.Vivendo na luz de ex-estrelasPartilhando ex-noites,Trazendo no pensamento a imagem de um cadáver.Na cama morrera essa amanteEnquanto lhe repetia ao ouvido:"O nosso amor já não é eterno". More About: Reyes
Hey, that's no way to say goodbye
2009-06-24 20:22:00 I loved you in the morning, our kisses deep and warm,your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,yes, many loved before us, I know that we are not new,in city and in forest they smiled like me and you,but now it's come to distances and both of us must try,your eyes are soft with sorrow,Hey, that's no way to say goodbye.I'm not looking for another as I wander in my time,walk me to the corner, our steps will always rhymeyou know my love goes with you as your love stays with me,it's just the way it changes, like the shoreline and the sea,but let's not talk of love or chains and things we can't untie,your eyes are soft with sorrow,Hey, that's no way to say goodbye.I loved you in the morning, our kisses deep and warm,your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,yes many loved before us, I know that we are not new,in city and in forest they smiled like me and you,but let's not talk of love or chains and things we can't untie,your eyes are soft with sorrow,Hey, th... More About: Goodbye
homecoming queen
2009-06-23 16:33:00 Deram-me a riqueza,mas não me disseram o que fazer com ela.Ievgueni IevtuchenkoNão há outra coisa que eu espere ? à minha própria casacheguei como um hóspede inesperado e, só então,os meus olhos se sentiram à vontade com o excessode mobília, com os retratos, as carpetes, os castiçais e os livros,tudo desviado como rostos que sorriem para um jardimque fica para lá do jardim de rosas que o meu avô mandouplantar para a minha avó.Eu era pequeno ainda, agora recordo-o, quandopela primeira vez descobri o desconfortável que uma casacheia de livros chega a ser.Falavam-me sobre o martírio de um santo que o meu pai,não sem uma ligeira demonstração de horror materno,me aconselhou a menosprezar. Chorei, era uma criança,incapaz de aceitar o cepticismo como coisa felina.Era feliz, consigo lembrar-me, com a minha consciênciaa flutuar nas prateleiras da história e não o contrário.Desde então apenas procuro isto: sentir-me à vontade,ocasionalmente, como uma visita que surpreendea própria casa onde m... More About: Queen
«La Cathédrale Engloutie», de Debussy
2009-06-23 14:57:00 Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o pianoera, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,o grande futuro paralelo a tudo o que eu seriapara satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,eles achavam-na demais, imprópria de um rapazque era pretendido igual a todos eles: alto ou baixo funcionário público,civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lerao Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,e o Eça e o Pascoaes. E lera tambémnuns caderninhos que me eram permitidosporque aperfeiçoavam o francês,e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas do que eu era,a história da catedral de Ys submersa nas águas.Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouviuma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulantedaquelas fendas ténues que na vida,na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,os ...
Duas cartas
2009-06-23 14:51:00 1Vejo-te a suar à máquina de escreverFabricando versos abusáveisSobre a morte por asfixia na redeDas leis necessárias. Os pedreiros, escreves,Foram usados como argamassa jáNa construção da Grande Muralha, e continuamA construir-se grandes muralhas. Nada de novoSob o Sol, escreves tu. Não escreves nada de novo.Aprendeste a interrogar as respostas.O aplauso que te ensurdece não é uma delas?Os efeitos rápidos não são os novos.Um encontro à noite depois da nossa conversa:Dois republicanos a caminho da camaDiscutem sobre a democraciaPoisissoéaFormamasondeéqueficao Conteúdo?Contam os anos pelos aumentos de ordenadoOs meses pela saída do MagazineCada um é um sábio, modelo KeunerNão há pensamento que não passe pelo estômagoNem medo das poças de água como em BüchnerPequenas cabeças, mas têm razãoQuando, lendo os teus versos, dizem:Que tem, afinal, este Alguém para nos dizer?Será que não entendeu a importância da reforma agrária?2Que pode uma rima contra as cabeças ocas?Perguntas tu. Nada, diz...
Hamlet
2009-06-23 14:25:00 Acalma-se o tumulto. No palco estoucontra o portal da porta,ao longe, reconhecendo vagamenteo que o meu tempo pode ainda trazer.O escuro da noite jorra sobre mimmilhares de olhos que me fitam;mas Abba, Pai, se essa for a tua vontade,afasta esse cálice dos meus lábios.Com firmeza o teu desígnio tem o meu amor,este papel que me deste quero ter;mas agora encena-se um drama diferente:poupa-me agora do teu caminho.E no entanto a ordem dos actos é fixa,o fim do caminho é irreversível.Estou só. Agora é o tempo dos Fariseus.A vida não é como um passeio ao campo. - Boris Pasternak More About: Hamlet
The Postcard Element in Winter (2)
2009-06-22 15:59:00 Your recent letter is so stupid so utterly moronicit?s a little difficult to believe it waswritten by a human being let alone someonewho made it past the second gradeyou miserable bastard do you eatfrom a plate thanks for your letter of January 5thI enjoyed getting it - Charles North More About: Winter , Postcard , Element
"Já é tempo de acabarmos com estas divagações."
2009-06-21 21:23:00 Sete e meia: também a praçatem as suas horas mortas.Alguns trocam de esplanadapelos bancos do jardim -aí se sentam ao frio, gravescomo sentinelas, não se sabeo que vigiam. Terão chegadomais jovens à solidão derradeira?Ou são apenas o espelhoda tristeza de quem passae se interroga? Os do costume,entretanto, até bebiammais uma, catam dos bolsosmoedas, pedacinhos de cotão.Mas está na hora, senhores,que o dia pesa no corpoe o rapaz que serve às mesasjá pôs o lixo na rua. Meus amigos,faz-se escuro: adeus, adeus.- Rui Pires CabralOráculos de cabeceira, Averno More About: Tempo
Onde a noite cai sobre Antuérpia
2009-06-20 21:54:00 há uma ventoinha no texto soprandoum possível começo um hotel um homembebendo whisky no balcão do baro gelo roça no vidro do copoo calor atrasa as pás da ventoinhauma mulher lê uma carta junto à janela sentadanum esquecido cadeirão de vimeé meio-dia ouve-se lá fora a claridade de um motorde automóvel europeu fazendo a curva de uma rua inquietaum pouco de cinema algum pótem o longínquo nome de Kikwit esta cidadeo nome do hotel não sei ? Congo Belga anos cinquentaa película retrata um tempo colonialnão conheço esta históriasei apenas que a mulher tem um vestido azulque a carta foi tecida na distância de Antuérpia ao pôr do soljunto ao porto por um homem que a já não quera mulher tem um cigarro ao fim dos dedos a cinza caia perna cruzadao joelho branco apontado ao janelãoque dá para a ruao homem no balcão é o dono do hotelé português usa fato gravata impecável no pescoço suadotem um livro dentro do bolso do casaco e espera alguémolha a mulher sem olhar a mulherdentro dela cai a noite s...
Má sorte que ela fosse mercenária
2009-06-20 20:28:00 Não era só a bela do bairro, era a lusa Marilyndos arrabaldes portuenses. Alta, toda loira,só faltava miar. De longe e de perto a seguiao longo dos anos mais tolos. Uma tarde,no acaso de uma rua: meu amor perdido,você ainda mora em Vilar do Paraíso?Quando eu telefonei dias depoisela me perguntou quanto é que eu ganhava.Ao saber que era tudo lágrimas e livros,ouvi ? ai sim? ? como arrefecia o paraísodo outro lado da linha. Os meus vinte e cinco anosaprenderam aí uma lição qualquer.Mas já não me lembro muito bemque aplicação ela teve, na gorada sequênciadesses meses. A que só volto agoraporque já posso rir à vontade.- José Miguel Silva
Casamento de Bangkok
2009-06-20 15:36:00 disse-meaprendi o essencial tailandêspara não me perder na ruasaber o que vou comer nos restaurantesdizer-lhe que a amomas não o suficiente paralhe explicar o porquêpor issoaponto com o olhar as árvores do pomarsão o nosso pequeno resguardode belezaseguimos o perfumeela sabe- Miguel-Manso More About: Bangkok
?I felt that it was all unreal.?
2009-06-19 20:13:00 Chega ao fim do diaa hora mais lenta, quando o céué vago e as luzes se acendemno prédio da frente.Vemo-los por vezesdentro das janelas, vultosdelicados como miniaturasou meros reflexos que passamnos vidros.Alguns prosseguem encargosde sombra, outros detêm-sea olhar a rua, no gestoa expressão do seu puroenigma.E são como provasde coisa nenhuma. Se acasonos fitam, parecem dizer:a morte não será decerto mais estranha que a vida.- Rui Pires CabralOráculos de Cabeceira, Averno, 2009 More About: Felt , Unreal
Tea
More articles from this author:2009-06-19 14:30:00 I like pouring your tea, liftingthe heavy pot, and tipping it up,so the fragrant liquid streams in your china cup.Or when you?re away, or at work,I like to think of your cupped hands as you sip,as you sip, of the faint half-smile of your lips.I like the questions ? sugar? ? milk? ?and the answers I don?t know by heart, yet,for I see your soul in your eyes, and I forget.Jasmine, Gunpowder, Assam, Earl Grey, Ceylon,I love tea?s names. Which tea would you like? I saybut it?s any tea for you, please, any time of day,as the women harvest the slopesfor the sweetest leaves, on Mount Wu-Yi,and I am your lover, smitten, straining your tea. - Carol Ann Duffy 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 |



