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O Melhor Amigo

O Melhor Amigo
Uma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue)
Articles: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7

Articles

Procura
2011-11-15 17:20:00
Procurar sem notícia, nos lugaresonde nunca passou;inquirir, gente não, porém textura,chamar à fala muros de nascença,os que não são nem sabem, elementosde uma composição estrangulada.Não renunciar, entre possíveis,feitos de cimento do impossível,e ao sol-menino opor a antiga busca,e de tal modo revolver a morteque ela caia em fragmentos, devolvendoseus intatos reféns - e aquele volte.Venha igual a si mesmo, e ao tão-mudado,que o interroga, insinuea sigla de uma armário cristalino,além do qual, pascendo beatitudes,os seres-bois completos, se transitem,ou mugidoramente se abençoem.Depois, colóquios instantâneosliguem Amor, Conhecimento,como fora de espaço e tempo hão de ligar-se,e breves despedidassem lenços e sem mãosrestaurem - para outros - na esplanadao império do real, que não existe- Carlos Drummond de Andrade
Tríptico de Sônia Maria do Recife
2011-11-15 03:19:00
IMeu Santo Antônio de Itabiraou de Apicucosensina-me um versoque seja brando e fale de amanhecere se debruce à beira-rioe pare na estradae converse com a meninacomo se costuma conversar com formigasbesourosfolhas de cajueiro de ingazeiro de amendoeiraesses assuntos importantíssimosque não adianta o rei escutarporque não entende nossa linpim-guapá-gempém.IIMeu Santo Antônio do Recifepreciso de outro verso bem diferentemas tirado daquele como um jardim se tira da terrae todo macio douradoágil fosforescente cantábilepara significar a moçaque pouco a pouco se formou ao sol do espelhoe agora está sorrindosobre a cordilheira de antepassadose finca no olhar um ramode música, à maneira dos passarinhos.IIIE assim terei celebrado Sônia MariaSônia de som e sonhosonata mozartiana que em modinhabrasileira se ensombrae vai soar suavíssima no sonoMaria de Maria mariamenteou de mar de canaviais mar murmuranteSônia Maria do Recifenesse ponto de luz tamisadaonde as meninas começam a transformar-seem ...
Nudez
2011-11-14 12:15:00
Não cantarei amores que não tenhoe, quando tive, nunca celebrei.Não cantarei o riso que não rirae que, se risse, ofertaria a pobres.Minha matéria é o nada.Jamais ousei cantar algo de vida:se o canto sai da boca ensimesmada,é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,nem sabe a planta o vento que a visita.Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,mas tão disperso, e vago, tão estranho,que, se regressa a mim que o apascentava,o ouro suposto é nele cobre e estanho,estanho e cobree o que não é maleável deixa de ser nobre,nem era amor aquilo que se amava.Nem era dor aquilo que doía;ou dói, agora, quando já se foi?Que dor se sabe dor, e não se extingue?(Não cantarei o mar: que ele se vinguede meu silêncio, nesta concha.)Que sentimento vive, e já prosperacavando em nós a terra necessáriapara sepultar à moda austerade quem vive sua morte?Não cantarei o morto: é o próprio canto.E já não sei do espanto,da úmida assombração que vem do nortee vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,ajusta em mim...
Pedagogia
2011-11-13 04:34:00
Dar aos outros que estudaro que eu próprio ignoroembriagado de silêncio.- António Barahonain Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno
Mudança de vida
2011-11-13 04:32:00
A realidade existe em tantos planosque causa pânico: o pudor do vício,um olhar inocente que desarma,o mêdo de ter mêdo de morrer.É demais. A beleza mata depressaquem ama devagar. Assisto ao meu enterro.Há algumas mulheres que se aproximam.São afastadas pelo olhar dos homens.Os meus filhos desceram já à cova,já alisam o fundo, retiram pedrinhase esboroam torrões, pra não magoarmeu corpo nu envolto na mortalha.A realidade do meu ser pretéritopetrifica em ethérea solidez de som.- António Barahonain Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno
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O tempo aprazado
2011-11-11 20:18:00
Vêm aí dias difíceis.O tempo até ver aprazadoassoma no horizonte.Em breve terás de atar os sapatose recolher os cães nos casais da lezíria,pois as vísceras dos peixesarrefeceram ao vento.Mortiça arde a luz dos tremoceiros.O teu olhar abre caminho no nevoeiro:o tempo até ver aprazadoassoma no horizonte.Do outro lado enterra-se-te a amante,a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,corta-lhe a palavra,impõe-lhe o silêncio,acha-a mortale pronta para a despedidadepois de cada abraço.Não olhes em volta.Ata os sapatos.Recolhe os cães.Lança os peixes ao mar.Extingue os tremoceiros!Vêm aí dias difíceis.- Ingeborg Bachmannin O Tempo Aprazado, Assírio & Alvim
Pouco mais que adornos
2011-11-11 11:27:00
- [Texto de David Teles Pereira, publicado no Ípsilon de 11 de Novembro] Algumas vezes acontece o título de um livro ser o mais cruel depoimento sobre as suas fraquezas. Com ?Adornos? (D. Quixote, 2011), o sexto livro de Ana Marques Gastão, é exactamente isto que sucede. Chega a ser paradoxal o quanto uma poesia que parece procurar a depuração e a limpidez tão radicalmente delas se consegue afastar ao pejar os seus versos de meros adereços imagéticos ou sonoros: ?Tentando não regressar/ a um alagadiço antes,/ suspendo-os em sílex,/ logo encontrando/ um silfídico futuro/ que provisoriamente/ dispo do presente.? (p. 22) ou ?No côncavo dos olhos/ há meninas de fornalha/ achas a martelo abafadas,/ que protegem, ocultas,/ a função obstetrícia.? (p. 20).Trata-se de uma poesia sensorial, ?Queria ver por dentro das artérias/ o sabor de teu sumptuoso rosto/ que não vejo; ouvir a brancura/ aguda d?uns olhos sanguíneos/ que me não vêem? (p. 77). O termo talvez possa parecer d...
The Ides of March (2011)
2011-11-11 03:22:00
7/10
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Recordações da casa do velho poeta
2011-11-10 22:08:00
De tudo o que escrevasdestrói o que te pareçaque restará no fim apenascomo fantasma de ti mesmo.Acarinha os esforçosque são verdade somenteem presença daquelesque existem em seus nomes.Memoriza, se te apetecer,versos que te surpreendamem ocasiões tontascom músicas que passam.Perde, intencionalmente,em papéis antigoso único poema:a tua canção impossível.- Ángel Mendozain Pájaro Negro, La Isla de Siltolá
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Real Steel (2011)
2011-11-10 17:09:00
8/10
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Tulipas
2011-11-10 16:36:00
A filtrar areia no Hotel do Zodíaco,entre a 96.ª e a Madison, tentonão ouvir as sirenes: o punhodo coração, a mão vazia do desejo.O quarto inundado de uma luz terrível,o céu incapaz de chuva. Embalo um copode nada de especial, e tudose resume a isto: a ventoinha,botão de pára e arranca - retida meia-lua de correntede ar por cima da cama, lençóisa transbordar, a cabeça em tempestade. Vêo que deu à costa na mesinha de cabeceira:uma fotografia voltada e um lenço de seda, umaschaves. Estas tulipas que cessam dentro de uma jarra.- Robin Robertson(tradução de Hugo Pinto Santos)in Golpe d'asa n.º1
A dor de um gato
2011-11-08 13:51:00
Quando cegaste foi de vez. Sem aviso prévio e dos dois olhos em simultâneo.Não foi de um dia para o outro, foi mais o que se chama de um momento para o outro.De um momento para a noite, melhor dizendo.Quando cegaste foi como se na casa uma espécie de morte tivesse dado sinal de vida, essa sua espécie de vida.Pois quantas vezes é assim, absurda e traiçoeira, que ela vem. E se instala.Tu, indeciso e desorientado, andavas sem rumo pela casa às topadas a móveis, sacos de plástico, pilhas de livros.Não foi um espectáculo bonito de se ver, acompanhado com miador que eram verdadeiros gritos de dor, de aflição, ou de cólera.Ou, mais provável, tudo isso junto.Grande ironia do destino, pensei na altura, logo os teus olhos.Que eram amplos, redondos, curiosos, sempre alerta e cheios de luz.Uns olhos de fazer inveja a muita gente que eu cá sei.E gritaste, durante uns bons minutos gritaste.Um som não ouvido até então, um novo som arrancado à natureza, ou ao mais fundo da tua animal sinceridade.Um...
Soneto vívido
2011-11-06 15:40:00
O meu amor por ti assombra os astrosda noite escassa para o nosso amor.Soneto vívido de versos castos,no desgaste da boca um som de flor.E, no engaste do teu sexo, uma rimaa completar o corpo comum de dois,substantivo ou canção que nos ensinaa fabricar na pele ethéreos sóis.Nas mãos, ainda, a ternura extensa,certeira se dilui nos alvos rubrose o riso se pratica a comer uvas.O meu amor por ti marca presença:dormimos virgens, e os teus ombros cubro-os,temendo, dêste inverno, as ígneas chuvas.- António Barahonain Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno
Os montes curam
2011-11-05 17:24:00
(para Veronik Jussawalla)Os montes curam como não o faz nenhuma mão.O coração aquieta-se com o relâmpago azulda asa de um gaio solitário.Tu pensas que é impossível esqueceras sombras do sol aqui eternamente roxas,as planícies recuadas onde o vento sopra ainda.Porém, o mundo irá maltratar-me outra vez, eu sei,e eu irei alegremente pelo preço do costume.Venho à superfície para me esfolar em poemas.A veia derramada só um fecho formal.- Eunice de Souza(tradução de Ana Luísa Amaral)in Poemas Escolhidos, Cotovia
Perdoa-me, mãe
2011-11-05 17:20:00
Perdoa-me, mãe,por te ter deixado ficarviúva por toda a vidavelha, só.Era matar ou morrere tu tiveste-me, seja como for:O sangue congela ao toque de um amanteAs entranhas dissolvem-se em merda.Nunca fui jovem.Agora estou velha, só.Em sonhosfustigo-te.- Eunice de Souza(tradução de Ana Luísa Amaral)in Poemas Escolhidos, Cotovia
Alcance eficaz
2011-11-04 14:57:00
Alcance eficaz: distância à qual uma bala ainda é mortal.(MANUAL DO GRADUADO DE INFANTARIA)Não falo para os consolados, os satisfeitos de si, os que nem riemporque o riso ainda é sinal de alguma coisa que falta.Ah vida! alguns te cantam para sentir-te nos lábios,mas outros pedem-te a si próprios, não contentes contigo,e as suas palavras terão apenas o obscuro nexo dos abismos sem nomee a estranha música das mãos cortando o vazio intratável.A minha voz é misteriosa de mais para que me compreendam.Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vidae a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas...Seria preciso saber que não há palavras que cheguem onde não há conversa,onde o silêncio é um vai-vem de moscas sobre um prato servido.- Jorge de Senain Trinta anos de poesia, Inova(de Pedra Filosofal)
50/50 (2011)
2011-11-04 13:16:00
Imprescindível-
NUNO RAMOS
2011-11-04 00:10:00
1. Manchas na pele, linguagemdo livro Ó (Cotovia - colecção sabiá)Meu corpo se parece muito comigo, embora eu o estranhe às vezes. Tateio minuciosamente as pequenas saliências da pele, os pequenos pêlos que vão crescendo enquanto caem, e empalidecem, e parecem, aos poucos, cobertos de giz. Embora só consigam crescer em torno do meu queixo e sobre a minha boca, sempre os aparei todos os dias, pois quando não o fazia cofiava, é este o verbo, aquele conjunto unido de pequenos cabelos ininterruptamente, com a voluptuosidade de quem precisasse fumar ou beber ou arrotar, mas parecendo aos demais que adotava uma posição reflexiva e até mesmo irônica, o que não era a minha intenção. Para evitar desentendimentos, desde a primeira adolescência raramente deixei de cortá-los durante o banho, como um inimigo constante que precisasse controlar. Pois bem, quando fiquei alguns dias sem tomar banho e me olhei no espelho, percebi círculos calvos em meu queixo. Os pequenos pêlos haviam c...
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...And Justice for All (1979)
2011-11-03 17:37:00
8/10
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Poesia Traduzida (10)
2011-11-03 12:18:00
RICARDO MARQUES*AA.VV., Rosa do Mundo ? 2001 poemas para o futuro, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001. A última obra de Hermínio Monteiro para a Assírio e Alvim.RIMBAUD, Arthur, O Rapaz Raro ? Iluminações e Poemas, Lisboa, Relógio D'Água, 1998. Tradução de Maria Gabriela Llansol.RILKE, Rainer Maria, Poemas ? As Elegias a Duíno ? Sonetos a Orfeu, Porto, Edições ASA, 2003 (5ª edição). Prefácios, Selecção e Tradução de Paulo Quintela.BORGES, Jorge Luis, Poemas Escolhidos, Lisboa, Dom Quixote, 2003 [1971]. Tradução de Ruy Belo.AA.VV., Uma Migalha na Saia do Universo ? Antologia da Poesia Neerlandesa do século XX, Lisboa, Assírio e Alvim, 1996. Selecção e Introdução de Guerrit Komrij, Tradução de Fernando Venâncio.AA.VV., PULLLLLLLLL ? Poesia Contemporânea do Canadá, Lisboa, Antígona, 2010. Selecção e Tradução de John Havelda, Isabel Patim e Manuel Portela.AA.VV., Assinar a Pele ? Antologia de Poesia Contemporânea sobre Gatos, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001. Selecção e Organização de João Lu...
Melodia
2011-11-03 02:39:00
Eu canto a noite. A noite cresce,crescem os seus membros de veludo. Eu canto a noite,e todavia sei que a minha vozjá não é pura. Seique lentamente se afogou em outra noitedispersa na memória a que me entregode antigas coisas.A noite afoga-me. Disparaseu corrosivo veneno em minhas veias.Eu sou a noite, eu canto a noite, eu vivo a noite.Desce sobre mim, ó integral mansidão, quieto silêncio,simples simplicidade do que é simples.Eu canto a noite. Eu canto a morte.Tenho a noite na garganta. Um toiro negrodorme no meu coração atento. Algo deslizasobre a superfície da mesa, do papel,da garrafa. Algo desliza, vagarosamente,sobre a minha pele. Sobre a cidade.Sobre o mundo. A noite deslizasobre si própria. Eu cantoa noite suavemente deslizante.Sobre mim. Sobre as coisas. Sobreuma nocturna humanidade.Sobre o mundo.- Manuel de Castro
Poesia Traduzida (9)
2011-11-02 17:47:00
INÊS DIAS*1. Jaime Gil de Biedma, Antologia Poética, trad. José Bento2. Emily Dickinson, 80 Poemas, trad. Jorge de Sena3. E. E. Cummings, XIX Poemas, trad. Jorge Fazenda Lourenço4. Paul Celan, Sete rosas mais tarde, trad. João Barrento/Y. Centenno5. Constantin Cavafy, 90 e mais quatro poemas, trad. Jorge de Sena6. Henri Michaux, No País da Magia, trad. Aníbal Fernandes7. Federico García Lorca, Antologia Poética, trad. José Bento8. Arsenii Tarkovski, 8 ícones, trad. Paulo da Costa Domingos9. Philip Larkin, Janelas Altas, trad. Rui Carvalho Homem10. Lope de Vega, Antologia Poética, trad. José Bento11. Paul Eluard, Algumas das Palavras, trad. António Ramos Rosa/Luísa Neto Jorge12. Joan Margarit, Casa da Misericórdia, trad. Rita Custódio e de Àlex Tarradellas13. T. S. Eliot, A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock, trad. João Almeida Flor14. William Blake, Cantigas da inocência e da experiência, trad. Manuel Portela15. ...
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A poesia de um homem
2011-11-01 23:09:00
A ironia como atitude perante a vidaé antiquado, disseste.Que seja, meu amigo.Deixa-me ser antiquada e sobreviver,Deixa-me a aresta cortante das palavraspara limpar um mundopara o meu ego.A raiva já quase passou.A minha alma é quase minha.Há até hipótesesde que o meu paitambém não desejasse morrer.A minha mãe vigiava à sua cabeceirae nunca se perdooupor ter adormecidona noite em que ele morreu.Ele deixou uma mesa, uma cadeira,uma máquina de escrever e um bloco de notas.Nas reuniões de famíliaa minha mãe sorriano seu melhor chiffon desbotadoe viajava em terceiraenquanto a família dele viajava em primeirano mesmo comboio.Fui crescendoe só desejavarir espontaneamente.Tudo o que emergiaera um relincho nervoso.Os meus membros começaram a soltar-sea minha cara a dissolver-se,o meu amor abraçava-me com forçadurante horas quando eu não podianem falar nem chorar,trazia comida e alimentava-me.Com ele estou a aprender a amar.- Eunice de Souza(tradução de Ana Luísa Amaral)in Poemas Escolhidos, ...
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Mulheres na pintura holandesa
2011-11-01 19:53:00
(para Melanie Silgrado)O sol da tarde toca-lhes os rostos.São calmas sem serem estúpidas,grávidas sem serem bovinas.Conheço mulheres assimsem ser só em pinturas ?uma tia que não respondeu ao maridonão por ser simplese a Anna que escreve poemase espera que os caroços de abacategerminem na cozinha.A voz dela é farinha de aveia e mel.- Eunice de Souza(tradução de Ana Luísa Amaral)in Poemas Escolhidos, Cotovia
Casa de Hóspedes
2011-11-01 14:23:00
Estás próximo e és uma saudade.Tudo neste estranho lugarse desdobra próprio, para quem reflectea razão da sua serenidadeem música, quase inexistente, quase familiar.Em cada parede há uma pausa. Retratosíntimos. Livros de folhas soltas.A tua alegria é um gesto calmo, conveniente.Na suavidade ambientechovem pétalas envoltasde desejos simples.Mornos nos meus ombros acaricio dois gatos.Avisei que levassem estas flores.É perigoso dormir com rosas.Corram os estores.- Manuel de Castroin Paralelo W, edição do autorretirado daqui
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Falar de Mulheres, Miguel Martins
2011-10-31 14:42:00
Para acompanhar enquanto é escrito, aqui.-
CONTRIBUTO PARA O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA
2011-10-30 20:18:00
O centenário da república: um nojo.O lodo e o lixo vêm outra vez à tona.Palhaços da patética demônió-craciaensaiam novos números de circoe a multidão ignara rejubila.Centenário, eleições, crise, fome,sindicatos, manifestações, a puta que os pariu!,por enquanto ainda há muita gente que come,depois haverá fome como nunca se viu!O poder vai cair de muito baixo,falho d?autoridade, no meio da estúrdia,e a Anarquia de direito sobe ao trono:montras partidas de pastelarias finas,restaurantes, cafés, mercearias, tascas,assaltos a super-mercados, cofres, bancos,à mão armada, ossos a romper a pele,fogo posto nas morgues dos museuse na morgue com bicos do nobél.Escancarada a porta à Anarquia absoluta!A grande choldra cerce, sem misericórdia!Ecoam uivos as ordens aos verdugos:à polícia de choque, cortem-lhes a cabeça!A classe baixa e suja dos políticoslimpa as latrinas públicas e cava valas!Banqueiros, corretores e usurários,esses ocupam-se da limpeza dos esgotos!Os cobradores de impostos apanha...
More About: Para
Lobos
2011-10-29 20:18:00
Lobos são meu nome e minha sombra. Paul ÉluardÉ um reinoonde canta o caos, velhos deuses senisenlouquecendo ao colo crianças, comobrinquedos, babando inocênciasnesta desarrumação. Eu e os diassomos muitos, mas não chega.O espaço fica louco com o rumor da luznos nomes, pequena vozdispersa e os objectos trocandosombras. Pulso circulando, coração,bailando sonolento pela casana bebedeira de um doce cansaço.Abri um poço, abismei-me, sou um ecodeliciado. No quarto, desde há meses,escavando vestígios de antigas civilizações.Alto, na parede, esse relógio avariandoa melodia do tempo, conta-me como tudonão foi nem será, as coisas que euia ser, imagens de lugares onde não fuie alguém que eu não levei, isso que chorae prendo à corda junto aos pássaros de acasoque me distraem os gatos.Um livro aberto, lê sem me pedir nada.Desatento, viro a cabeça e vejo o sol,apodrecendo, rolar até ao fim da mesa.As varandas alinham vasos de silêncio,fragrância das tardes sem sentidoe coisas que se bebem tropeça...
António Barahona
2011-10-29 19:40:00
Habituámo-nos a ver a intemporalidade à distância de uns quantos séculos. As palavras de Tucídides, que nos falavam de ?uma obra que não foi concebid[a] para ganhar prémios ao ser ouvid[a] de momento, mas como um legado para sempre?, são interpretadas como se realmente tivesse que passar um ?para sempre? pelas obras para estas serem dignas da tão honrosa memória.António Barahona é um poeta intemporal, porque esta palavra deve necessariamente ter o sentido que Tucídides lhe deu, mas deve também ter outro sentido, o da comunicação vibrante entre o antigo e o novo, entre o consagrado e a promessa. Neste sentido, este ?poeta limpo, obstinado? que mede ?linha a linha o universo que o seu gesto d?escrita construiu?, ocupa um lugar na poesia portuguesa que até agora esteve sempre vago.António Barahona é um dos poetas do Café Gelo, ?um café à beira do abismo: conversas incendiadas, sismo a sismo, no desabar da época?, é amigo de Cesariny e de António José Forte, este último um poeta ?com a ...
Realista, sim, mas
2011-10-29 04:15:00
Realista, sim, mas absoluta-mente contrao «terrorismo da realidade»que põe a imaginação a ferrosarruïna castelos subversivose retira aos corposa nudez dos nervos(fumar charros em telhados de jazigos).Realista, sim, mas absoluta-mente contra(por uma questão de higiene)a racionalidade de merdaque afunda a imaginação em esgotose retira aos corposo perfume do esperma.- António Barahonain Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno
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