O Melhor AmigoO Melhor AmigoUma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue) Articles
ZEITGEIST
2008-04-12 23:56:00 Neste documentário não se fala muito nas coisas que te interessam. Aliás este documentário provavelmente não te interessa mesmo nada.10/10 - ESSENCIALDownload disponível no site oficial:www.zeitgeistmovie.com More About: Zeitgeist
Sopa enlatada de origem micaelense
2008-04-12 23:47:00 Cheguei muito tarde ao quarto do hotel. Às cinco damanhã ainda estava a ler, sem nenhum sono. Para nãopensar nas coisas tristes da vida, liguei o televisor.E andei de canal em canal. Quando, em português, oentrevistador disse «Senhora professora, a senhora queé uma técnica, uma especialista em Moby Dick, o que éque acha dos baleeiros açoreanos?»(No rodapé estava a palavra «escritora».)A mulher era quase toda cabeleira, sorriu, complacentecom o termo «técnica» e radiante com «especialista».Respondeu, como se esperava, os baleeiros açoreanoseram muito bons, muito corajosos, homens de fibra, comH grande. Desliguei o aparelho e comecei mesmo apensar em coisas tristes.Tanta gente morta. Conheço mais gente morta do que viva.Tanta gente velha. Eu próprio. Como é que eu iriamorrer? Imaginei vários cenários. Voltei a ligar otelevisor. Ainda a professora. Tinha um laço grande nopescoço. Um casaco pardo, com gola azul marinho. Iadizendo ao jornalista que, os continentais, agora,olhavam os açor...
Idílio no café
2008-04-12 19:37:00 A mim pergunto se durante a vida inteiraestivemos aqui. Ponho, agora mesmo,a mão diante dos olhos ? que latejode sangue em minhas pálpebras ? e os pêlosimensos confundem-se, em silêncio,com o olhar. Pesam as pestanas.Não sei bem do que falo. Quem são,rostos vagos a nadar como numa água pálida,estes aqui sentados, viventes connosco?A tarde empurra-nos para certos baresou entre cansados homens em pijama.Vem. Vamos lá para fora. A noite. Há espaçoem cima, mais em cima, muito mais do que as luzesque às rajadas iluminam teus olhos dilatados.Entre nós também silêncio fica,silêncio_______e este beijo como um longo túnel.- Jaime Gil de Biedma
Inconsequência do lugar
2008-04-12 03:25:00 Todas as cidades se assemelham,escoadouros de ninguém,pátios de sorrisos mortos,gastos campos de combate. Ficamos nisto, um corpo sem outro assunto,afectado por uma realidade regular, diluente,que se reduz à sensação de desterro e o tornanum boneco de arame, um mero artifícioque se deixa conduzir na goteirade mais um fim de tarde, outra que também não temquaisquer garantias para oferecer. Está aí sobre a mesa,na conta que pagas, quase mil escudos tão mal expressosnuma moeda que te arrendonda o cálculo, disfarçando a inflaçãoda mesma taça suja de sempre, o caldoque há muito deixou de ser verde e que se entornapor estes dias acompanhado de reticências, vícios e inscriçõesem itálico cujo sentido deixa as palavras e vem esboroaro próprio papel. Um poema entre as manchas do caféque terá por esta altura perdido o efeito sobre tie já nem a sombra debaixo do olhar te perdoa.Recomeça. Admitamos outro exemplo - um desconhecidoque, sem atender ao horário de um serviço, a uma hora destas vaguei...
Il miglior fabbro
2008-04-10 08:40:00 Era uma vez um poema escrito num guardanapoao balcão do pequeno e discreto bar do Hotel Shangri-la, lugaronde vinham encontrar-se, às escondidas (é bom de notar), não sóromeus e julietas mas sobretudo gente suspeita que fazia por pensare cunhar ideias - marginais e conspiradores, apóstatase assassinos a soldo, um enclave de exilados e profetas sem empregoque ali encontravam uma espécie de justiçapara os seus esforçados madrigais. Havia lá a um cantouma velha grafonola que percorria repertórios de vozes em luto,o inconsolável choro que se afina pelos maus tratos da vida.Havia ainda um telefone de modelo antigo que servia apenaspara efectuar chamadas a pagar no destino. Útil mais comomotivo de decoração, já que destino era coisa em que ninguém aliacreditava. Foi por lá que me foram recomendados os serviços de uma prostitutauma mulher feia e doce que me ensinou a não pedir amor, mas sóum modo de partilhar a sensação de cair que é afinal "aquilo que nos aproxima".Oriunda de um pequeno b...
Livros
2008-04-09 04:15:00 O tempo cumpriu as promessas que nos feze o dia já não é corrigido pela música:estas casas não terminam em nenhum jardim,estão viradas de frente para o inverno, a nossadirecção. Mas não deixa de ser estranhoreler agora os livros de que gostávamos, os livrosque não podíamos compreender ainda:enchemos com eles as estantes do futuro,para o dia em que não poderíamos suportá-los,de tão próximos. A bela geometria das superfíciesnão pode continuar a distrair-nos de tudoo que nos atormenta: a vida é isto, esta imensae inútil espera, e os livros afinaljamais nos ensinaram outra coisa.- Rui Pires Cabral
Loja de borboletas
2008-04-09 03:32:00 Estava a ver uma reportagem sobre um americano que gostavatanto de borboletas que o seu sonho era montar uma lojapara coleccionadores. Lá enriqueceu, claro - uns anos mais tardecom o franchising do negócio e agora é feliz para sempre (ou pelo menosenquanto as câmaras se mantêm ligadas). Isto servepara mostrar que tudo é possível - ou seja - não desistam jáda parvoíce que conseguiram dar como sentido para esta vida.A mim aborrecem-me colecções e sobretudo os coleccionadores.De uma maneira ou de outra até juntar estes pensamentosme aborrece e com esta falta de jeito para o negócionão me parece que vá enriquecer. Assim, deste lado do mundo,não estou a ver como possa vir a ser feliz. Faço pouco pela vida(no sentido americano de ver as coisas), tento não ter medo de a perder.Procuro pedaços discretos de mobília e sento-me, as pessoas passame eu fico a olhar, enquanto espero que um fruto madurose desprenda de uma árvore que me ponho a imaginar.Infelizmente ainda há muito que me perturba, ... More About: Loja
Antecipação do lançamento da revista Criatura
2008-04-08 17:00:00 O lançamento da revista «criatura» foi antecipado de dia 19 para dia 18 de Abril (sexta-feira).O motivo desta alteração prende-se com a oportunidade de contarmos com a presença de Nuno Júdice que irá assim apresentar a nossa publicação.Peço desculpa àqueles que já tinham divulgado a primeira data.
Pelos cantos dessa tua boca
2008-04-08 14:17:00 Hoje quando acordei parecia que tinhas estado aqui,ex-parceiros sexuais teus espalhados pelo chão, nus ou quase,atirados durante o sono para fora da cama, atordoadoscomo eu, ficámos em silêncio a olhar uns para os outros,envergonhados, a apanhar as beatas e cinzas, os copose a roupa interior. Estive a pensar em ti, por acaso, agorajá são seis da tarde e não me perguntes porquêmas começou a chover outra vez, agitou-se o tempoe a previsão dos próximos dias não nos livra dos aguaceiros.Lá fora ouvem-se sirenes de ambulâncias desaustinadas- hoje há-de ser dia de morrer para alguns - o ventojá derrubou umas quantas árvorese parece-me que a noite, com as suas glândulasdefeituosas, virá babar-se de tristezasobre os corações de loiça partida, os rostos de nácare a pele suja, soterrada pelas camadas de víciose excessos urbanos. Não há como evitaresta dormência e desapego pelo mundo, seria bomse me invadisse uma esperança qualquer, mesmo que fútil.Não tenho alguém como tu aqui para me acompan... More About: Boca
Cadeia alimentar
2008-04-05 16:58:00 O corpo a soro deixa-se pregar às paredes,pequenos detalhes fixos na obsessão desgastantedo tempo. Uma ou outra visita que vempagar-lhe promessas, ajeitar-lhe os lençóis e confirmarque o mundo lá fora não mudou, continuasem outra saída. Agora qualquer conversa,qualquer tema sem importância pareceuma oportunidade de redenção. A mãonão escreve, não há nada que não sejao estupor em que se desfaz a sequênciade ideias que vão ladrilhando nada.Ficou um cansaço impossível no lugarde cada reflexo ordinário. Ergue-se com ajudaarrasta-se até à casa de banho, deixaum mijo quase sem corque acidifica as crianças pintadasem tons suaves nos azulejos.Verte uma realidade doente sobre outraque o lembra cada vez menos. Dedica-sea um inventário de contra indicações,o que não pode e o que não deve, um manualde sobrevivência enquanto pequenos predadoreslhe passeiam na pele.Naquela janela suspende-se, com a atençãoque os condenados emprestam ao mundo.Ninguém observa à distância nem controla como eleo movi...
Sleuth, 2007
2008-04-05 03:30:00 9/10 - Um filme muitíssimo elegante que nos faz imensas cócegas na massa cinzenta. More About: Sleuth
Terra Natal
2008-04-04 00:36:00 IAinda não fugiste de casa. É ainda a mesma,o mesmo caminho para a escola, os mesmos frutosna alternância das estações e tu ainda preocupadocom as notas e com o que a professora dirána reunião de pais. Já não é a casa onde pareciaque crescias, nem voltaste a entrar na sala de aulae as árvores não se vêem daqui mas os frutosainda caem no chão. Tu tiveste boas notas,só que por alguma razão ainda estás à esperade passar. Ainda não fugiste de casa.IIAinda não desisti de procurar emprego para o coração,esse que se tornou numa desajustada referência,um preguiçoso vazio que me cresce no peito. Nos classificadoshoje, como ontem, só querem licenciados em sonambulismo,não encontro uma distância curta, nenhuma convenienteentre a casa e a rua dos cafés. Um pouco mais de açúcarno meu galão, por favor. Cá estamos à venda por preçoscada vez mais acessíveis e a cidade estende-secomo uma paisagem cheia de áreas inacessíveis,feita para nós a partir de pequenas e demoradasreabilitações da tristeza. E... More About: Terra , Natal
Lock it up and leave
2008-04-01 22:48:00 We expected something, something better than before. We expected something moredo you really think you can just put it in a safe behind a painting, lock it up and leavedo you really think you can just put it in a safe behind a painting, lock it up and leavewalk away now and you're gonna start a warWhatever went away I'll get it over now. I'll get money, I'll get funny againwhatever went away I'll get it over now. I'll get money, I'll get funny againwalk away now and you're gonna start a warStart a war, The National More About: Leave , Lock
Descobri o filme da minha vida
2008-04-01 16:15:00 el lado oscuro del corazón, 1992 More About: Vida
Tie your woman to your wrist
2008-04-01 14:15:00 We can?t stay herewe?re starting to stay the samewe can?t stay herewe can?t stay this wayReduz-se depressa um compromisso de inteligênciaa uma clausura afectiva, ao lugar comum onde o corpo é afinalo cinzeiro para apagarmos as nossas mais imprecisascarências. É certo que estanão será a última vez que acabaremos por rodearuma mesa fabricadaem série no estrangeiro e distribuída pelo ikeaao preço conveniente da morte -esta bala que vem disparada no nosso encalço.Distrai-se a antecipada paralisiaque nos há-de perfurar, com truques baratos,a breve ilusão de uma noite que se dispõeno tampo da mesa acompanhada dos seus vícios tranquilos,a bebida, os cigarros e as cartas viradas para baixo, depoisé esperar que chegue a vez de cada um apostara vida que vai deixando de lhe pertencere por cima de alguns solavancos da agulha que sabemais ou menos o seu caminho sobre o viniljogar-se fora a loucura acumulada nos bolsos, a conversa (inútil),palavras e sorrisos para calafetar a imperíciadesta conti... More About: Woman
Fossa comum
2008-03-31 05:12:00 Portugal, dia um de Maio de dois mil e oito.As nossas janelas têm vista para o Mediterrâneo.Os nossos turistas são ingleses. As nossas cozinheiras angolanas.As nossas empregadas brasileiras. Os nossos pedreiros ucranianos.Os nossos comerciantes chineses e indianos. As nossas amantes baratas.As nossas putas romenas, disponÃveis – agora, se faz favor.Os nossos sonhos transatlânticos.Os nossos hábitos light, soft, ecológicos, se possÃvel.Os nossos medos hoje são negros. Os nossos dias contados.Trezentos e sessenta e um, trezentos e sessenta e dois, trezentos e sessenta e três,trezentos e sessenta e três, trezentos e sessenta e quatro, trezentos e sessenta e cinco, (agora podem dizer todos em coro) trezentos e sessenta e... Este ano é bissextoe um dia antes do fim, trezentos e sessenta e (em coro, mas mais alto desta vez)..., precisamente um dia antes, oitenta por cento da população do planeta usará apenas dezassete por cento das palavras com equivalência no Standard E...
Our rosy-minded fuzz
2008-03-31 02:49:00 Hold ourselves together with our arms around the stereo for hoursWhile it sings to itself or whatever it doeswhen it sings to itself of its long lost lovesI?m getting tied, I?m forgetting whyEra fácil perder a conta das vezes que premíamos o botão playe o Matt Berninger recomeçava a sufocar-nos com toda a calma.Uma vez mais o álbum servia a desolação do nosso ringueonde ainda nos debatíamos já sem forças e os breves arranjos em pianopareciam conhecer cada uma das infecções da noiteservindo para nos sepultar aos dois, no tapete, no sofá, contra as paredesenquanto fodíamos meio bêbados ou ficávamos a olhar, encordoadose afinados por uma paixão feita de restos, sobras de sonhosque haveriam de te apodrecer a carne e afastar-me para sempre dali.Não tenho pena, não tenho nada além de uma colagem de versosque rejeitaste. Hoje o teu nome já nem parece teue só em silêncio me refiro a ti. Desenvolvo o laborioso métodode esquecer o teu corpo, mergulho o meu no desfecho do quehá muito tinha dei...
O REM
2008-03-30 16:12:00 Subíamos à altura do gritoe atirávamo-nos de mãos dadas para dentro de um sonho.Queriam então analisar os símbolos da nossa viagem oníricae invadiam-nos o consciente com o inconsciente colectivo deles.Fazíamos uso das palavras sem abrir a boca,encontrávamo-nos sem nos encontrar,tocávamo-nos sem nos tocar,intentávamos possuir corpos fáceis e calados:eu ? o brasileiro da caixa do Lidl,tu ? a mulher do professor de direito civil.Às vezes ias embora da minha imaginação REM,por coisas pendentese para cada fim destes eu tinha uma continuação à medida.Uma vez saltaste em cima do cameloque acabava de nascer nas minhas costas;e passaste então a fronteira sem olhar para trás.Fiz desse sonho o Lisboa-Dakar das nossas noitese andei a perseguir-te como um coiote esfomeadonas areias que me arranhavam a vista.Tínhamos a idade dos nossos filhose estávamos contentes com aparecer nos extras das vidas dos outrose esse era o nosso campo de concentração da felicidade.inédito de Golgona Anghel
O Garrote
2008-03-30 16:05:00 Ribeiras limpas acudi-me.Vou ficar vivo encostadoa esta memória de trampa.Os meus olhos já foram brilhantes.Sei fazer alguns versos mas nem sempre.Eu narrador me confesso.A guerra lixou tudo.É curioso como se bebiaágua podre.Não falando no vinho, muito.Durante os ataques doía-me um joelho.Estou pronto, pensei.Ninguém me conhece.Os ratos são felizes.Vocês não sabem como se perde a tusa.De resto não serve para nada.A melhor noite que eu tiveem Nambuangongo foi com uma garrafa de whisky.Sei fazer versos mas doem.Ninguém me conhecia dentro do arame.O único joelho decente de Angolaembebeda-se no Norte.Vou para escrever e paro.Deixei-me disso.Sou feiíssimo ao espelho.Recordação súbita duma litografiacastelhana: o garrote.Não vos perdoo.Suponho que a violência tem os dias contados.Se não é assim é parecido.Eu vi-os sair do quartelcom as alpergatas nas últimas.Vai ali o Ocidente, escrevi.Vai beber água podre.E depois há um que pisa uma armadilha.Houve um que pisou uma armadilha!Sei fazer ve...
Novembro
2008-03-30 00:07:00 Para a imbecil do costumeI won't fuck us over, I'm Mr. NovemberI'm Mr. November, I won't fuck us over[repeat]Estamos aqui e acredita isso não é pouco, sessenta cêntimos por cabeçaE temos a eternidade coalhada num instante de cafeÃna, do morse dos dedosEm fuga por sobre o tampo da mesa, os sinais de luzes indÃgenas do sorrisoQue imprimes aos lábios, teus e não teus, à s palavras tuas e não tuas, que não dizesPor, não sei, pudor - ou talvez sentido de higiene - e assim mantemos o vidro limpoDa galeria que nos serve de cenário pós-moderno, 3ª mesa ao lado do Woody Allen,Que conversa com Wells sobre planos curvos, que prefere orientar a tertúliaPara a existência ambÃgua de certo falsificador que era talvez ele mesmo,Em frente de Chandler, macerado hipotético e a carregar no estômago o quea curto trecho trará a roer-lhe o fÃgado;por detrás de um padre que descobriu uma nova vocação(no bico de cegonhas das vocações: a efervescência calma do brandy à qualDed...
Dumbstruck
2008-03-29 15:31:00 Sometimes you get up and bake a cake or somethingsometimes you stay in bedsometimes you go la di da di da di da datil your eyes roll back into your headHoje, sim, outra vez,viemos há procura de um frio por fora,caçar sombras a estranhos, imitar o desengonçode uma porta que bate e bate, mas não fecha.Pousar o corpo ali, no bengaleiro, cairfrente a outros espelhos. Às vezes sem que digas nadaum olhar que não voltará a pesar no teufaz sentido - procura-se um conforto,sabendo que ninguém nos fará esquecerque estamos sós.É nisto e num copo baço que nunca brilhouque se reflecte a tua melhor expressão,a ébria flexão do desânimo que pões a sorrirpor cima da impaciente derrota da alma.No espaço sem retorno em que se dissolveesta imagem de ti, conseguesestragar alguns gestos ou a distância entre nadas, deixar um abraçoa quem se remove do quadro com um resto de dignidade.Aninham-se no cinzeiro as noções todasa que nos obriga a mútua desilusão, esta companhiaque nunca nos compensou em nada.Rimb...
W.A.
2008-03-27 23:44:00 ?Não quero atingir a imortalidade pela minha obra. Quero fazê-lo não morrendo.?Woody AllenSentado ao lado da janela que me retribui os gestos e as formas, num espelhar resultante da escuridão de fora contígua à luminosidade de dentro (talvez seja sempre assim que surgem os espelhos, no sentido denotativo e conotativo, raios me partam mais as suposições), ali, sempre ali, parado, perna cruzada com um livro, e não interessa qual, nunca interessa qual o livro, mas o acto de ler, ou apenas, e não é pouco, o acto de ter um livro, contornos faciais duvidosos, nas clareiras de um cabelo desgrenhado, comprido (hei-de acabar careca, típica ironia),uma espécie inacabada de Woody Allen ?citadino, desastrado, socialmente incompetente, vagamente culto e inteligente, perseguido por um portfólio de obsessões pateticamente fugazes e artificiais. Tal e qual Woody Allen, também ele não era Woody Allen antes de se persuadir de que esse era o caminho, a negação digo, o caminho para, dizia, se suportar ...
O som das vírgulas
2008-03-26 21:25:00 para o Jorge Gomes MirandaDeixa estar, Jorge, é demasiadotarde: já não nos livramos daimerecida glória de sermosgrupo, constelação, movimento- "nós" que, a bem dizer,nunca acreditámos em nada disso.Sempre de vozes tontas e ruídoalarve precisou o mundo. Mas agoraimitam os políticos, delegam podernaquilo que nenhum poder aufere -a poesia - esses que em jornaise outras cátedras matariam pai e mãepara chegar a palcos grosseirosem que nem actores conseguem ser.E até dizem que prestamos vassalagema quem simplesmente nos ensinoupor onde não devíamos seguir- à distância dos livros, na pulsãodo irrespirável e, anos depois, do afecto.Há várias maneiras de preferir um descampado.Porque a poesia, Jorge, só interessa- se é que interessa - quando nos visita"com a urgência de quem vertecubos de gelo num copo de whisky".Tão parecida com "o vírus do amor"que faz do corpo o único lugar.Mas para quê falar-te disto?Disseste-o melhor, assim:"nada é a poesiaprelúdio de outras ruínasnunca afirmadas".Não t...
Revista Criatura
2008-03-25 18:34:00 O primeiro número desta revista literária já está impresso. Em breve será anunciada a data e o local para o lançamento oficial.114 páginas | 7 euros | Tiragem única de 500 exemplaresParticipam no primeiro número os seguintes autores:Ana Aleixo LopesAna M. P. AntunesAntónio Ramos PereiraBeatriz Hierro LopesCláudia Santos SilvaDavid Teles PereiraDiogo Vaz PintoJosé Carlos BarrosMaria SousaMarta CaldeiraMarta ChavesNuno AraújoRita Branco JardimSara F. CostaSusana AlmeidaQuem quiser encomendar a revista neste momento beneficiará do desconto de lançamento - 5 euros.
Unmagnificent lives of adults
2008-03-25 12:22:00 É tão difícil escrever um poemaque não fale da morte.Manuel de FreitasPara não escrever a repetição dos dias e a sedeque nos move, caminho em círculos,faço ilustrações de corpos desérticos e explicoo que acontece quando se atinge aquele estado críticoem que a desidratação carrega a consciência para um lugar ermoe a abate com um tiro pelas costas.Leio muito ainda, mais que tudo ensaios sobre o anonimatoe a cegueira, o comércio e o livre tráfico de fantasias, tudo o que sirvaum conflito de ficções. Cada um de nós riscaa sua imobilidade no papel, traçando um corpo de texto que se arrastaenvolto em ligaduras, frágil, balançando apoiado sobre muletas, rima, tropeça, caie depois reergue-se e continua nesse lento suicídio da identidade.Surgem estranhos, personagens loucas que vão perdendo o autor e se evadem,num acto de dispersão que consome a realidade.Depois há quem se contente com um simples diário,com a enumeração de factos biográficos comprováveis e a percepçãodesiludida e crua das co... More About: Lives
Caravane
2008-03-24 17:51:00 Parce que j?en ai les larmes aux yeuxQue nos mains ne tiennent plus ensembleMoi aussi je tremble un peuParce que je ne vais plus attendreEst ce qu?on va reprendre la routeEst ce que nous sommes proche de la nuitEst ce que ce monde a le vertigeEst ce qu?on sera un jour puniEst ce que je rampe comme un enfantEst ce que je n?ai plus de chemiseEt c?est le bon Dieu qui nous faitEt c?est le bon Dieu qui nous briseEst ce que rien ne peut arriverEst ce qu?il faut qu?il y ait une justiceJe suis né dans cette caravaneEt nous partons aller viens ?Parce que ma peau est la seule que j?aiQue bientôt mes os seront dans le ventJe suis né dans cette caravaneEt nous partons aller viens ?(Raphael)
Esperanto
More articles from this author:2008-03-24 15:16:00 Para a AnaÉ noite e inverno fora deste café irlandês deixa-te fica fora do invernoE entra para o lado iluminado mas fosco, translúcido mas herméticoDa porta entaipada por anúncios tabelas de preços e boas intenções,Não ligues ao tapete, entra e traz contigo comigo as marcas argilosasDa rua enlameada de onde vimos e da qual nos separa uma portaUma só porta e tantos quilómetros quantos podem ter todas as portasQue faremos adjacentes por sentidos metafóricos que nós (e não as palavras) trazemos ao peito;adivinho-te conhecedora de que as contradições se unem não excluem, as contradiçõesdestes vidros embaciados onde alguém, por ter os dedos cansados de cabeloEscreveu umas iniciais que nada importam mas tudo resumem; as iniciaisComo o nome, a pessoa, e antes ou depois os vidros desaparecerão:a escrita no vidro permanece de mãos cerradas em redor das suas incoerências. as incoerênciasdos ruídos, dos sons em teia, do vozear vindo das outras me... 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 |



