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O Melhor Amigo

O Melhor Amigo
Uma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue)
Articles: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7

Articles

Memory dogs
2009-06-19 03:59:00
When I put on my coat they're all over meto take them up on the downsfor games with sticks.Their eyes follow me round the room.When I reach for a bookthey hang their heads in shame.I took them to the outskirts of townand opened the car door.By the time I reached homethey were waiting on the doorstep for me.Whatever made me thinkI could live without them?- Hugo Williams
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State of Play (2009)
2009-06-19 01:58:00
8/10
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Três poemas de Guillermo Boido
2009-06-18 17:28:00
Sociedade de consumoA poesia não se vendeporquea poesia não se vendeMetalinguagenshinos de liberdade não são a liberdadesó a liberdade é hino de liberdadeCredoNão vi a ressurreição da carneem contrapartida vi como um homem podeentre os dentes da dor o chicote a fometornar-se alimento da sua própria carneaté alcançar o tamanho dos mortos.(tradução de David Teles Pereira)
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"A poesia tem uma felicidade que lhe é própria"
2009-06-18 17:21:00
Sobre o pentagrama Händelassinalou o momento em que começou a ficar cegoe o manuscrito jaz agora na casa onde nasceu na qualo visitante é convidado a sentar-se e escutar o furiosoadvento do Messiasou, o que é o mesmo, tudo é sacudido pela músicaaté os cravos e os andares onde Händel brincou em criançaenquanto a inscrição marginal assinala que há que fechar os olhose pensar na música do caos, algoque ignoram os astronautas o que conheçopor repetidas incursões na realidademas que para Händel foi ficar cegotentar a borda da cama, provar o vazio a cada passocom o penico na mão por esses corredores de Deus.- Jorge Ricardo Aulicino(tradução de David Teles Pereira)
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«He loved beauty that looked kind of destroyed.»
2009-06-18 13:52:00
Gostava dessa espécie de belezaque podemos surpreender a cada passo,desvelada pelo acaso numa esquinade arrabalde; a beleza de uma casa devolutaque foi toda a infância de alguém,com visitas ao domingo e tardes no quintaldepois da escola; a beleza crepuscularde alguns rostos num retrato de famíliaa preto e branco, ou a de certos hotéisque conheceram há muito os seus dias de fulgore foram perdendo estrelas; a beleza condenadaque nos toma de repente, como um versoou o desejo, como um copo que se partee dispersa no soalho a frágil luz de um instante.Gostava de tudo isso que o deixava muito a sósconsigo mesmo, essa espécie de belezaarruinadaonde a vida encontra o espelho mais fiel.- Rui Pires CabralOráculos de Cabeceira, Averno, 2009
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Teoria da decisão
2009-06-18 12:11:00
Acordara naturalmente. Era raro acontecer-lhe. Sem o toque despertador, sem a voz da empregada a lembrar-lhe que daí a dez minutos estaria atrasado para ir para o emprego. Acordara e, nos segundos que se seguiram, não ouvira nada para além da sua respiração sôfrega. Afastara os lençóis num gesto rápido e mecanizado, tentando afastar as imagens com que sonhara e que surpreendentemente, pareciam não o querer abandonar. Levou a cabo com rigor todas as suas habituais rotinas. Ligou a televisão para logo a seguir lhe suprimir o som, vendo, ainda ensonado, as imagens do mundo entrarem-lhe pelo quarto a dentro, sem qualquer formalidade.Uma curiosa dependência invadira as gentes da sua época. Diante dos seus olhos ? como os de tantos outros dependentes ? passeavam-se imagens de gente morta ou prestes a morrer em guerras longínquas. Homens de farda, envoltos numa espessa névoa de pó, davam-lhe conta de pequenas batalhas. Gostava de ver. Gostava de cheirar a morte pela manhã. Embora todas es...
Agora não, que falta um impresso?
2009-06-18 11:51:00
Agora sim, damos a volta a isto!Agora sim, há pernas para andar!Agora sim, eu sinto o optimismo!Vamos em frente, ninguém nos vai parar! Agora não, que é hora do almoço?Agora não, que é hora do jantar?Agora não, que eu acho que não posso?Amanhã vou trabalhar? Agora sim, temos a força toda!Agora sim, há fé neste querer!Agora sim, só vejo gente boa!Vamos em frente e havemos vencer! Agora não, que me dói a barriga?Agora não, dizem que vai chover?Agora não, que joga o Benfica?e eu tenho mais que fazer? Agora sim, cantamos com vontade!Agora sim, eu sinto a união!Agora sim, já ouço a liberdade!Vamos em frente, é esta a direcção! Agora não, que falta um impresso?Agora não, que o meu pai não quer?Agora não, que há engarrafamentos?Vão sem mim, que eu vou lá ter?
Dois poetas chineses
2009-06-17 23:13:00
Canção de bater no chãoNasce o sol trabalhamos.Põe-se o sol descansamos.Cavamos um poço, para beber,Lavramos um campo, p'ra comer:O Imperador e o seu poder- Queremos lá saber! - poeta anónimo do Século III(versão de Gil de Carvalho)Viva o VinhoNão queira ser lavrador,malgastaria o seu tempo miseravelmentena rotina do arado na Primaverae dando ração ao gado todas as noites.Além disso, os impostosserão cada dia mais insuportáveise raro será o anoem que a sua terra dará boa colheita.Por isso, como a coisa andae para os que já o somos, o melhor serácurar as misérias embriagando-nos.- Bai Juyi (772-846)(versão de David Teles Pereira)
Um pouco mais que haiku de amor
2009-06-17 21:07:00
Tenho medido os dias aos cigarros, rápidos e imprecisos,fumados até ao litoral dos teus olhos. Continuo...no mesmo sítio de sempre, devolvendoàs cadeiras o sorriso emprestado pela familiaridadedos seus gestos tão poéticos.Tenho acertado os dias pelos copos e agoraestão ? ou estarei eu? ? vazios. Vai-me pedindomais um copo, que eu vou convocarcertos demónios no espelho da casa de banho e, depois,beber um pouco de água opaca, lavar bem as mãos, secá-lase regressar à mesa quatro minutos menos feliz.Não morras nunca, digo-te, acrescentando logo a seguirque, mesmo assim, não quero falar da morte,muito embora ? desculpa-me a insistência ?o teu cabelo hoje me pareça mais preto.Sorris.É o que me vale, sabes sempre sorrir tão bem.
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«Nunca se sabe.»
2009-06-17 16:47:00
Papéis velhos com poemas: são o joiodas gavetas. Relê-los causa aversãoe uma espécie de tristeza arrependida ?são tão nossos como as más recordaçõese ainda vemos a circunstância precisa,a causa, a ferida, por detrás de cada um.Mas na altura havia esperança: é issoque representam. Não pelas coisas quedizem ? é só descrença e fastio ? maspela simples razão de termos queridoguardá-los. Com um pouco mais de alento,de inspiração e trabalho, ainda se endireitaisto. Ou seja, os versos. E até a vida.- Rui Pires CabralOráculos de Cabeceira, Averno, 2009
Os Imortais (2002)
2009-06-17 15:44:00
Pela primeira vez desde que iniciei esta rúbrica vou embirrar com um filme português que não é do João Mário Grilo (mas bem que podia ser). A coisa é mais ou menos assim:Fui ontem à apresentação dum romance e a certo momento falou-se de lentidão e indecisão. Segundo entendi - já que ainda não li o livro - esses dois aspectos devem ser vistos como algo de positivo no romance. Não discuto isso e, aliás, pelo que foi dito por quem apresentou o livro e pelo autor, desconfio que têm toda a razão.Já andava há uns dias para escrever sobre este filme - que revi recentemente - porque sempre me pareceu que havia algo de tolo nele. Contudo, nunca tinha tido bem a certeza sobre o que seria, para além da estupidez óbvia que a mera ideia do filme já nos vai sugerindo. Isto é simples: nada naquele filme prometia grande coisa e, pelo menos aqui, o António-Pedro Vasconcelos é um dos meus realizadores preferidos, já que não me dá a mínima hipótese de o elogiar.Ao chegar a casa, depois da apresentação...
Vida
2009-06-17 01:33:00
Nem feliz nem infeliz: um poucoapático, talvez.Olho para lá da vidraça a rua:uma árvore que o vento,ora brusco ora suave,desgrenha;sombras, claridades,gente passando.E entre papéis que não me dizemnenhuma vida (e nem a morte),vagamente apeteço a rua,o vento,a árvore;ser sombra ou claridade,alguém que passa no seudestino só de passar.Nem feliz nem infeliz: à esperade tudoe de nada.Morre vagarosa a tarde.Logo, depois do jantar,como todos os dias lerei o jornal.Pedro da Silveira - Corografias
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Verde-cinza
2009-06-16 16:10:00
Eu apanhava o jeito a um tom mais grosso,nela eram óbvios os lugares de menina que tinhaainda na voz, talvez fosse a pronúncia e um restodo doce de ameixas que lhe fazia a mãe. Os doissentados na borda de um tanque e o laranjal algarvioem redor. O céu pesava um pouco e depoischovia preguiçosamente, ela distraídarodando entre as mãos o guarda-chuva amareloou então a saia, puxando-a entre os joelhos.Na lama, a sombra, emprenhavade um dócil vagar, sonhos também,mas entre coisas locais. Não me lembroque apedrejasse grandes distâncias, havia apenaso desejo de durar por ali, no declive dessas tardes.A luz baixava e dava-nos à altura do peito,punha-me a apanhar-lhe as flores da blusa edespedaçá-las metodicamente.O verde-cinza dos olhos dela agitando-se,ali onde a tristeza mais comum tomava balançoe depois se largava. Pelo meiosorria abrindo-me e falávamos de lado,o vento mudando de direcçãoentre as coisas que lhe tentava explicar,ela sempre mais directa, como se costurassetodas as frases. ...
«Não quero saber de ti»*
2009-06-16 14:12:00
Faz meses que não escrevese aquele postal em brancoque chegou da tua terranão tinha remetentenem resposta, só a imagemno verso: um verão genéricocom muitas flores de estufae um fundo imaculadode varandas e relvados.Não queres saber de mim,mas eu posso confessar-teque passei todo o invernoentre as tropas de Massena,na fronteira, no Buçaco -e enquanto eles avançavamreino adentro, de capítuloem capítulo, para ganharou perder outra batalha, euficava cada vez mais para trásnas colinas, com os mortos,nos plainos abandonadosentre rascunhos de versosà paisagem em destroços.Olha a grande novidade.- Rui Pires Cabral(Oráculos de Cabeceira, Averno, 2009)*WILLIAM BECKFORD, Diário de William Beckford em Portugal e Espanha [tradução de João Gaspar Simões], Biblioteca Nacional, Lisboa, 1988, p.123
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Noutros lugares
2009-06-15 23:04:00
Não é que ser possível ser feliz acabe,quando se aprende a sê-lo com bem pouco.Ou que não mais saibamos repetir o gestoque mais prazer nos dá, ou que dariaa outrem um prazer irresistível. Não:o tempo nos afina e nos apura:faríamos o gesto com infinda ciência.Não é que passem as pessoas, quandoo nosso pouco é feito da passagem delas.Nem é tanto que ao jovem seja dadoo que a mais velhos se recusa. Não.É que os lugares acabam. Ou ainda antesde serem destruídos, as pessoas someme não mais voltam onde pareciaque elas ou outras voltariam semprepor toda a eternidade. Mas não voltam,desviadas por razões ou por razão nenhuma.É que as maneiras, modos, circunstânciasmudam. Desertas ficam praias que brilhavamnão de água ou sol mas solta juventude.As ruas rasgam casas onde leitosjá frios e lavados não rangiam mais.E portas encostadas só se abrem sobrea treva que nenhuma sombra aquece.O modo como tínhamos ou víamos,em que com tempo o gesto sempre o mesmofaríamos com ciência refinada e sábia(o mes...
Amanhã: sessão dupla
2009-06-15 17:05:00
Terça-feira, 16 de Junho, 18h30. Em Lisboa. Na FNAC Chiado.E pelas 22h, o inquebrantável Miguel Martins* regressa ao palco do Bar A Barraca para uma leitura de poesia. Como convidado, Miguel trará o fadista Marco Rodrigues. A entrada é livre.* Depois de quase 20 anos de exílio, um par de imbróglios com a justiça do Ruanda, quatro filmes realizados na Nigéria, um escritório de import-export de sequóias, jacarandás, samambaias e abéculas aberto na Costa Rica, um mestrado iniciado em Araraquara e terminado em Port-au-Prince, badaladíssimos casos de amor com alguns oligarcas de São Petersburgo, Martins não resistiu ao convite de Oliveira e Costa e Dias Loureiro para voltar à terra natal, e reactivar as minas da Panasqueira. Actualmente, Miguel está com 62 anos, apresenta uma cútis revigorada e repete obsessivamente palavras como marmelada, estorninho, dolviran e Kanimambo.Nota da responsabilidade desse grande biógrafo, Senhor Changuito.
Snakes on a Plane - ou o elogio da poesia concreta (2006)
2009-06-15 16:54:00
Snakes on a Plane : o melhor filme blaxploitation-meets-nature-run-amok-meet s-demasiada-parvoíce de finais de inícios dos 80 que, por acaso, é de 2006.As bases do argumento são simples. Uma testemunha ocular de um crime que um mafioso quer ver morta, uma viagem de avião que vai apinhado de gente, um porradal de cobras e o Samuel L. Jackson. O que complica tudo é o bem que o pessoal que fez o filme pôs todas essas bases a interagir. Abordemos o filme a partir destas interacções.Mafioso vs Avião apinhado de gente - De tiros na nuca execution style a verterem cimento nos pés dum gajo para ele se afogar no Hudson, já tinha visto mafiosos a matar gente de várias formas. O mafioso deste filme é especial. Como o gajo quer mesmo matar a testemunha ocular do crime e não quer deixar pontas soltas nem margem de erro, escolhe um método reconhecidamente eficiente: soltar uma cambana de bichinhos rastejantes e venenosos num avião e borrifar o pessoal com uma mistela qualquer que põe os bichinhos e...
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Elogio da vida monástica
2009-06-14 19:05:00
Outrora, uma pessoa retirava-se do mundo,amortalhava-se em vida, fazia-se monge,ou porque a vida lhe dera tudo e a agonia sobrevinha,ou porque desistia de lutar com ela pelo que não vinha nunca(nem mesmo sob a forma de agonia que facilitasse as coisas).Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,a pessoa tratava de salvar a própria alma,de mortificar o corpo, e preparava-se para a morte(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,estava, por estar viva, sempre preparada).Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,e que não podia deixar de encher a solidãocomo gente e amor não tinham preenchido a vida.Era um estar só, rodeado de calor humano,sem os inconvenientes e a incomodidadeque o convívio humano traz consigo,desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirarcomo quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,com alguma imaginação de como o amor cheira.Hoje, não há mais ...
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Isso de existir
2009-06-14 16:44:00
Por vezes torna-se tão clara a diferença entre o louco que vai de cabeça aos sacões, a rachar ventos, e, distraído (como é de sua natureza), tropeça uma vez por outra deixando escapar-se-lhe uma asneirada bestial que, a todos os que o ouvem, soa como um espirro divino, um lamentoso ou irascível grito que quase magoa de tão autêntico e genial,e o outro, aquele taralhouco no meio da praça, que bate os braços e vai ralhando entre o cimo de umas escadas e o desespero, deixando-nos sem saber se está a tentar voar ou se apenas precisa que percam umas ideias para ele.
[As pedras]
2009-06-14 16:04:00
As pedras que eu tirava dos bolsospara depois rasá-las no espelhodos açudes. A ver na tardea quase aleatória repercussãoda sombra. O silêncio a descerde novo após os incêndiosda reverberação. E outravez a quietude do mundo suspensado arremesso das pedrasguardadas nos bolsos.- José Carlos Barros
Aviso de porta de livraria
2009-06-14 15:18:00
Não leiam delicados este livro,sobretudo os heróis do palavrão doméstico,as ninfas machas, as vestais do puro,os que andam aos pulinhos num pé só,com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,enquanto com a terceira vão tapando a bocados que andam com dois pés sem medo das palavras.E quem de amor não sabe fuja dele:qualquer amor desde o da carne àqueleque só de si se move, não movidode prémio vil, mas alto e quase eterno.De amor e de poesia e de ter pátriaaqui se trata: que a ralé não passeeste limiar sagrado e não se atrevaa encher de ratos este espaço livreonde se morre em dignidade humanaa dor de haver nascido em Portugalsem mais remédio que trazê-lo n'alma.- Jorge de Sena
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Domingo
2009-06-14 11:31:00
Na orla do mar azulde um céu quase sem nuvens,as águas, crespas, murmuram.Jogam ao sol criançasna aragem primaveril.Já outras param pensandoas formas do corpo alheio.Os barcos, suaves, singramnos olhos de solitárioscujos passos hesitantespela praia se misturamaos de corridas e jogosda juventude esgotando-se.As vozes chegam longínquas...Meus passos deixam sinaisque a tarde, ténue, adejando,aos outros misturarána orla do mar azul.- Jorge de Sena
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Silogismos da Amargura (2)
2009-06-13 15:54:00
§ Das «verdades», já não queremos suportar o peso, nem sermos delas vítimas ou cúmplices. Sonho com um mundo onde se morresse por uma vírgula.§ Só os espíritos superficiais abordam uma ideia delicadamente.§ Estando gastos os modos de expressão, a arte orienta-se para a ausência de sentido, para um universo privado e incomunicável. Uma vibração inteligível, seja em pintura, música ou poesia, parece-nos, com toda a razão, obsoleta ou vulgar. O público desaparecerá em breve; a arte não tardará em segui-lo.Uma civilização que começou pelas catedrais tinha que acabar no hermetismo da esquizofrenia.§ Essa espécie de mal-estar quando tentamos imaginar a vida quotidiana dos grandes espíritos... Por volta das duas da tarde que poderia Sócrates andar a fazer?§ Uma poesia digna desse nome começa pela experiência da fatalidade. Apenas os maus poetas são livres.§ Uma moda filosófica impõe-se tal como uma moda gastronómica: não há qualquer diferença entre contestar uma ideia ou um molho.§ Aprofun...
A Piaf
2009-06-13 02:53:00
Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,ou docemente lírica e sentimental,ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do ?ça ira?,ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao ladonas noites desesperadas da carne saudosa que se não conformade não ter tido plenamente a carne que a traiu,esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,como exactamente a vida que os outros continuam vivendoante os olhos que se fazem garganta e palavraspara dizerem não do que sempre viram mas do que adivinhamnesta sombra que se estende luminosa por dentrodas multidões solitárias que teimam em resistircomo melodias valsando suburbanasnas vielas do amore do mundo.Quem tinha assim a morte na sua voze na vida. quem como ela perdeutoda a alegria e toda a esperançaé que pode cantar com esta ciênciado desespero de ser-se um ser humanoentre os humanos que o são tão pouc...
«A cadeira amarela» de Van Gogh
2009-06-12 15:49:00
No chão de tijoleira uma cadeira rústica,rusticamente empalhada, e amarela sobrea tijoleira recozida e gasta.No assento da cadeira, um pouco de tabaco num papelou num lenço (tabaco ou não?) e um cachimbo.Perto do canto, num caixote baixo,a assinatura. A mais do que isto, a porta,uma azulada e desbotada porta.Vincent, como assinava, e da matéria espessa,em que os pincéis se empastelaram suaves,se forma o torneado, se avolumam astravessas da cadeira como a gorda argiladas tijoleiras mal assentes, carcomidas, sujas.Depois das deusas, dos coelhos mortos,e das batalhas, príncipes, florestas,flores em jarras, rios deslizantes,sereno lusco-fusco de interiores de Holanda,faltava esta humildade, a palha de um assento,em que um vício modesto ? o fumo ? foi esquecido,ou foi pousado expressamente como sinal de queo pouco já contenta quem deseja tudo.Não é no entanto uma cadeira aquiloque era mobília pobre de um vazio quartoonde a loucura foi piedade em excessopor conta dos humanos que lá fora p...
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Passagem cuidadosa
2009-06-12 04:12:00
No ténue perpassar de nuvens cuidadosascomo flores que abriram no silêncio de outras,a mim próprio escuto, e os olhos com que vejosão minha voz falando o tempo de passaremmais outras nuvens, qual a vida ao sopro,ao invisível sopro ou chama ou só alturainteriormente aberta ao espaço que a rodeia.A mim próprio escuto, eu sei. Mas não de mim,que alheio vivo a vida que em mim fala.Como as nuvens que passam cada vez são outras,a quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,abertos olhos, meu destino alémde mim, de tudo, eu próprio sou porquejá fui e não serei, ou serei sempre maisde meu destino a essência que lhe douna extrema contingência de tornar a ser.As nuvens passam cuidadosamente.Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?Um cicio brando, um murmurar, um fluidoe ténue perpassar de pétalas molhadas,como flores que abriram no silêncio de outras.- Jorge de Sena
Os trabalhos e os dias
2009-06-12 03:13:00
Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiroe principio a escrever como se escrever fosse respiraro amor que não se esvai enquanto os corpos sabemde um caminho sem nada para o regresso da vida.À medida que escrevo, vou ficando espantadocom a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,quando fico triste por serem palavras já ditasestas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.E os convivas que chegam intencionalmente sorrieme só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundoe desenhei uma rena para a caçar melhore falo da verdade, essa iguaria rara:este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.- Jorge de Sena
Glória
2009-06-12 03:06:00
Um dia se verá que o mundo não viveu um drama.Todas estas batalhas, todos estes crimes,todas estas crianças que não chegaram a desdobrar-se em carne vivae de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,todos estes poetas furados por balase todos os outros poetas abandonados pelos quenem coragem tiveram de matar um homem,toda esta mocidade enganada e roubadae a outra que morreu sabendo que a roubavam,todo este sangue expressamente coalhadoà face íntegra da terra,tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.Um dia nos libertaremos da morte sem deixar de morrer.- Jorge de Sena
Um poema, cada poema
2009-06-10 23:27:00
"(...)Escreve-se um poema devido à suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formidável, algo que nos transformará, que transformará tudo. Como na infância, quando se fica à porta de um quarto obscuro e vazio. Ficamos durante um minuto, uma brisa levanta-se nos confins da obscuridade: um redemoinho no ar, uma luz, uma iluminação talvez? Estamos prontos para o assentimento. Outro minuto, cinco, dez, ali, diante do anúncio suspenso e ameaçador: não acontece nada. Poder-se-ia esperar um dia inteiro, dias seguidos. Às vezes pára-se no meio de um jardim ou de um parque ou de uma avenida deserta. São variantes do quarto. Acontece o mesmo, quero dizer: não acontece nada. A suspeita apenas de que nos aguarda uma espécie de graça reticente, um dom reticente. Ou contempla-se um rosto, alguém que se ama, um ser imediato; ou então um rosto desconhecido, defendido. Pensamos: é uma vida nova, uma força nova e profunda, é uma paisagem misteriosa, profunda e nova que se re...
A nuvem de calças
2009-06-10 23:12:00
(recomposição de pedaços levada a cabo pelo José Quintas)Se quiserem,serei apenas carne loucae, como o céu, mudarei de tom.Se quiserem,serei impecavelmente delicado;não serei homem, mas uma nuvem de calças! Acham que é um delírio de malária?Mas isto aconteceu:aconteceu em Odessa. Disse Maria: «Virei às quatro.» Mas deram as oito.E deram as nove.E deram as dez. E a tardeda janela fugiupara o nocturno horror,umbrosoe dezembrino. Ninguém poderia agora reconhecereste gigante musculosoque gemee se contorce. De que valeser de bronzecom um coração de ferro frio? Entretanto fervem e saltam as rimasde amor aos rouxinóis e outras bagatelase a rua contrai-se em pantomima ?não tem com quem cantar e discorrer. Os Krupp fazem as cidadescom o cenho franzidoe a bocacheia de palavras como mortos:só duas vivem, engordando:«sacana»e ainda outra qualquer -«sopa», parece. Os poetas,amolentados com soluços e choros,abandonaram as ruas de melena no ar:«Como se pode cantar com tais palavrasa mulhe...
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