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O Melhor Amigo

O Melhor Amigo
Uma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue)
Articles: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7

Articles

Sonêto
2012-02-11 23:51:00
À doce sombra dos cancioneirosem plena juventude encontro abrigo.Estou farto do tempo, e não consigocantar solenemente os derradeirosversos de minha vida, que os primeirosforam cantados já, mas sem o antigoacento de pureza ou de perigode eternos cantos, nunca passageiros.Sôbolos rios que cantando vãoa lírica imortal do degredadoque, estando em Babilônia, quer Sião,irei, levando uma mulher comigo,e serei, mergulhado no passado,cada vez mais moderno e mais antigo.- Lêdo Ivoin Antologia da Moderna Poesia Brasileira, Orfeu
Oficina do Cego, Entrevista
2012-02-11 16:02:00
Não deixa de ser verdade que nos agrada trabalhar com máquinas dos bons velhos tempos da revolução industrial (quando havia sobrecarga horária, exploração de trabalho infantil, conflitos laborais violentos, inanição, doenças de trabalho recorrentes, desemprego crónico, etc.). Enfim, tudo aquilo que agora ameaça retornar, sob a forma de tragédia (travestida de farsa). Também nós aparentamos retornar, mas com um propósito pouco ou nada instrumental. Andamos de voltas um tanto trocadas com a história. A história pode ser indigesta e inconveniente para a saúde. Portanto, vivemos como as vacas no campo, ruminando cuidadosamente os nossos projectos, pouco preocupados com os ontens e os amanhãs patrimoniais. Acreditamos na profecia catalã do vendaval vindouro, que arrastará todos as obras de arte e todos os monumentos para os confins do deserto, onde serão sugados por um umbigo gigantesco e depois cobertos pela areia. Ficará apenas um corninho de fora com um furo na ponta, de...
Confissão
2012-02-11 14:52:00
A Afonso DuarteNa quermesse da miséria,fiz tudo o que não devia:se os outros se riam, ficava séria;se ficavam sérios, me ria.(Talvez o mundo nascesse certo;mas depois ficou errado.Nem longe nem pertose encontra o culpado!)De tanto querer ser boa,misturei o céu com a terra,e por uma coisa à-toalevei meus anjos à guerra.Aos mudos de nascimentofui perguntar minha sorte.E dei minha vida, momento a momento,por coisas da morte.Pus caleidoscópios de estrelasentre cegos de ambas as vistas.Geometrias imprevistas,quem se inclinou para vê-las?(Talvez o mundo nascesse certo;mas evadiu-se o culpado.Deixo meu coração ? aberto ?à porta do céu ? fechado.)- Cecília Meirelesin Antologia Poética, Relógio d'Água
Antonia Pozzi
2012-02-09 20:28:00
PAUSAParecia-me que este diasem tidevia ser inquieto,escuro. Em vez disso está repletode uma estranha doçura, que aumentacom o passar das horas ?quase como a terraapós um aguaceiro,que fica sozinha no silêncio a bebera água caídae pouco a pouconas veias mais profundas se sentepenetrada.A alegria que ontem foi angústia,tempestade ?regressa agora em rápidasgolfadas ao coração,como um mar amansado:à luz suave do sol reaparecido brilham,inocentes dádivas,as conchas que a ondadeixou sobre a praia.DESALENTOTristeza destas minhas mãosdemasiado pesadaspara não abrirem feridas,demasiado levespara deixarem marca ?tristeza desta minha bocaque diz as mesmaspalavras que tu? significando outras coisas ?e esta é a expressãoda mais desesperadadistância.- Antonia Pozzi(tradução de Inês Dias)in Morte de uma estação, Averno
Anti-Kipling
2012-02-09 17:11:00
Se cresceres sinuoso como entre esguiasárvores cresce o cipó, meu filho,ou se engordares no charco, como lodosa planta,olha o azul do céuque o mais não tem a mínima importância.Águia ou chacal serás. O mundotudo comporta e o Sol não discriminaentre alcantis e pântanos.Cometerás os pecados mais torpese eu te absolverei. Nada comprometeou dignifica a vida. A verdade e a virtudeagonizam na mesma solidão do ataúdeonde os vermes e os ratosnão mais têm importância.Estarás com Cristo, sem Cristo ou contra Cristoe te importunarás num mundo desoladoe assaltadopelos lobos do bem, pelas pombas do mal,os cordeiros da guerra, os tigres da bonança.Hás de amar alguém que um dia trairáa tua confiança.Poderás vingar-te na mulher do teu irmão,na tua própria irmã. Cometerás aindaoutros incestos sem nenhuma importância.Se fores ausente a tudo ? e isto nada importa ?e for o teu Sol brilhante, logo atrásdesse brilho acharás tua face mortae a nada mais darása menor importância.Mas se participares, sofrere...
Escritor residente
2012-02-09 16:43:00
Chego à sala de aula durante a aula de Geografia.Trinta línguas todas elas igualmente perras,até que um rapaz pede para ler. Sento-me numa mesa e ouçoque uma vaca de uma quinta das redondezasdemorou três horas a ter a cria, mas ficou tudo bem.Agora as mãos levantam-se, e os «eu, eu» de cada miúdomostram sobrepor-se ao guião gravado e desconjuntoque enche os reles manuais a que se agarram,mas, depois do fim do ano, a maioria dará cabo deles,quase sem hesitarem, à medida que deixam tudo para trás.Quem é que vai ler para mim, nessa altura? Sento-me com eles, enquanto posso.Eles lêem e voltam a ler muito depois de a campainha tocar.- David Wheatley(tradução de Hugo Pinto Santos)in Misery Hill, The Gallery Press, Oldcastle, 2000
Outono, o Passeio Nocturno, a Cidade, o Rio
2012-02-09 14:40:00
O Outono parecia mesmo ter vindo mais cedo nesse ano,a morrinha era como os humores, a falta de ar.Andar a pé era outra coisa: nervoso, o passo mais apressado,debaixo da tangerina dos candeeiros públicos, num cone de brilho;era preciso luvas e cachecóis. Eu tinha um de cada,e uma gabardine puxada para cima, à volta da boca.Nessas ruas nunca importava a direcção que se tomava.Dantes, andava a pé toda a noite, e desistia alguresa milhas de casa, depois apanhava o primeiroautocarro de volta. O que me importava era perder-me.Qualquer lugar me servia: lembro-me de subúrbiosrepletos de monovolumes estacionados em bermas aprumadas,arbustos, cerejeiras, as casas dos novos--ricos com nomes de santos, que tinham tudo, até TV por cabo;e depois ruas em que cada janela era uma grelha de ferroque se cruzava sobre o espelho das vidraças,o restolho das ervas daninhas, um ruído mais adiante ?um pássaro, um gato ? chegava para eu atravessar para o outro lado da rua.Toda a luz era agressiva: as lojas ...
A hora íntima
2012-02-08 14:43:00
Quem pagará o enterro e as floresSe eu me morrer de amores?Quem, dentre amigos, tão amigoPara estar no caixão comigo?Quem, em meio ao funeralDirá de mim: ? Nunca fez mal...Quem, bêbado, chorará em voz altaDe não me ter trazido nada?Quem virá despetalar pétalasNo meu túmulo de poeta?Quem jogará timidamenteNa terra um grão de semente?Quem elevará o olhar covardeAté a estrela da tarde?Quem me dirá palavras mágicasCapazes de empalidecer o mármore?Quem, oculta em véus escurosSe crucificará nos muros?Quem, macerada de desgostoSorrirá: ? Rei morto, rei posto...Quantas, debruçadas sobre o báratroSentirão as dores do parto?Qual a que, branca de receioTocará o botão do seio?Quem, louca, se jogará de bruçosA soluçar tantos soluçosQue há de despertar receios?Quantos, os maxilares contraídosO sangue a pulsar nas cicatrizesDirão: ? Foi um doido amigo...Quem, criança, olhando a terraAo ver movimentar-se um vermeObservará um ar de critério?Quem, em circunstância oficialHá de propor meu pedestal?Qua...
Balada da moça do Miramar
2012-02-08 12:40:00
Silêncio da madrugadaNo Edifício Miramar...Sentada em frente à janelaNua, morta, deslumbradaUma moça mira o mar.Ninguém sabe quem é elaNem ninguém há de saberDeixou a porta trancadaFaz bem uns dois cinco diasJá começa a apodrecerSeus ambos joelhos de âmbarFuram-lhe o branco da peleE a grande flor do seu corpoDestila um fétido mel.Mantém-se extática em faceDa aurora em elaboraçãoEmbora formigas pretasQue lhe entram pelos ouvidosSe escapem por umas gretasDo lado do coração.Em volta é segredo: e móveisImóveis na solidão...Mas apesar da necroseQue lhe corrói o narizA moça está tão sem poseNuma ilusão tão serenaQue, certo, morreu feliz.A vida que está na morteOs dedos já lhe comeuSó lhe resta um aro de ouroQue a morte em vida lhe deuMas seu cabelo de ouroRebrilha com tanta luzQue a sua caveira é belaE belo é seu ventre louroE seus pelinhos azuis.De noite é a lua quem amaA moça do MiramarEnquanto o mar tece a tramaDesse conúbio lunarDepois é o sol violentoO sol batido de ventoQue vem com ...
Poema de Natal
2012-02-08 10:34:00
Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos ? Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na treva Um caminho entre dois túmulos ? Por isso precisamos velar Falar baixo, pisar leve, ver A noite dormir em silêncio. Não há muito o que dizer: Uma canção sobre um berço Um verso, talvez de amor Uma prece por quem se vai ? Mas que essa hora não esqueça E por ela os nossos corações Se deixem, graves e simples. Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre Para a participação da poesia Para ver a face da morte ? De repente nunca mais esperaremos... Hoje a noite é jovem; da morte, apenas Nascemos, imensamente.- Vinícius de M...
The Good Wife (1ª temporada)
2012-02-07 15:22:00
8/10
More About: Wife , Good
Conhecimento
2012-02-07 14:38:00
Sinto terror de mim, mais que do mundo.Que matéria me ergueu, que astro mau?Que fôrça de beleza, unida à morte,Em seus braços de raio me constringe?Quando me olho, tantas formas palpoQue o tempo suscitou pra me plasmar.Adivinho as Erínias, que do infernoChicotadas de ódio me remetemE o signo da flor súbito sustam.Vejo-me estranho a mim, à minha voz,Ao meu silêncio, ao meu andar e gesto.Que espera o Fogo para me esclarecer?Que espera o Fogo para me refundir?- Murilo Mendesin Antologia da Moderna Poesia Brasileira, Orfeu
Indicação
2012-02-07 12:33:00
Sim: o abismo oval atrai meus pés.Leopardo familiar, a manhã se aproxima.Preciso conhecer em que universo estouE a que translações de estrelas me destinam.Em três épocas me observo sustentado:Na pré-história, no presente e no futuro.Trago sempre comigo uma morte de bolso.Assalta-me continuamente o novo enigmaE uma audácia imprevista me pressinto.Arrasto minha cruz aos solavancos,Tal profunda mulher amada e odiada,Sabendo que ela condiciona minha forma:E o tempo do demônio me respira.Gentilíssima dama eternidadeEscondida nas raízes do meu ser,Campo de concentração onde se dança,Beatitude cortada de fuzilamentos...Retiram-me o véu que sei de mim.Ontem sou, hoje serei, amanhã fui.- Murilo Mendesin Antologia da Moderna Poesia Brasileira, Orfeu
Pássaros noturnos
2012-02-07 10:31:00
Pássaros noturnos:Ao longe balançam o canto obscuroPois nas grutas profundas se encolheramE nos maciços de árvores.Pela noite seu canto oblíquoNa soledade do silêncioConfigura-os a bichos desconhecidos,São provisoriamente outros bichosNascidos sem lei nem formaDo intocado abismo e da folhagem.Pássaros fantasmas,Pássaros noturnosAnunciadores de uma vida livreCujo segredo ao nosso ouvido escapa,Uma vida de ignota relação.- Murilo Mendesin Antologia da Moderna Poesia Brasileira, Orfeu
Criatura n.º6, por Silvina Rodrigues Lopes
2012-02-06 14:05:00
[Texto lido na apresentação da revista criatura n.º6 ? no dia 28 de Janeiro]O que posso fazer para apresentar uma revista de poesia, esta revista de poesia, Criatura, nº 6? Em primeiro lugar dizer os nomes dos poetas que nela participam: Ana Duarte, Ángel Mendoza, António Gregório, Clara Pinto Caldeira, David Teles Pereira, Diogo Vaz Pinto, Golgona Anghel, Inês Dias, Jaime Rocha, Jesús Jiménez Domínguez, John Matter, José Carlos Soares, Luís Filipe Parrado, Luís Pedroso, Manuela Parreira da Silva, Nuno Ramos, Paulo Tavares e Tiago Araújo.A apresentação supõe uma leitura dos poemas que compõem a revista, mas não que fale de cada um, ou de cada autor em especial. Seria incorrecto, em primeiro lugar porque qualquer nivelação ou qualquer preferência teria de ser devidamente justificada, e justificada a precariedade dessa justificação, o que, se não for impossível, exige no entanto uma reflexão profunda incomportável nestas circunstâncias.Assim, o primeiro e único gesto que esta apresent...
Sentir aceso dentro da cabeça
2012-02-06 08:27:00
Sentir aceso dentro da cabeçaUm pensamento quase que divino,Como raio de luz frágil e finoQue num cárcere escuro resplandeça.Seguir-lhe o rastro branco em noite espessa,Ter de uma inútil glória o vão destino,Ser de si mesmo vítima e assassino,Tentar o máximo, ainda que enlouqueça.Provar palavras de sabor impuroQue a boca morde e cospe porque é sujaA água que bebe e o pão que come é duro,E deixar sobre a página da vidaUm verso ? essa terrível garatujaQue parece um bilhete de suicida.- Dante Milanoin Antologia da Moderna Poesia Brasileira, Orfeu
A Super-Realidade, de Rui Pires Cabral
2012-02-05 18:22:00
(clica para aumentar)
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Love In the Asylum
2012-02-05 15:26:00
A stranger has comeTo share my room in the house not right in the head,A girl mad as birdsBolting the night of the door with her arm her plume.Strait in the mazed bedShe deludes the heaven-proof house with entering cloudsYet she deludes with walking the nightmarish room,At large as the dead,Or rides the imagined oceans of the male wards.She has come possessedWho admits the delusive light through the bouncing wall,Possessed by the skiesShe sleeps in the narrow trough yet she walks the dustYet raves at her willOn the madhouse boards worn thin by my walking tears.And taken by light in her arms at long and dear lastI may without failSuffer the first vision that set fire to the stars.- Dylan Thomas
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Daqui a pouco
2012-02-04 11:49:00
Hoje, às 17h, no Bar do Teatro A BARRACA, juntamo-nos para o lançamento de dois livros de Miguel Martins, A metafísica das t-shirts brancas (Edições 50kg) e Um Homem Sozinho (Edições Língua Morta). Apareçam.
Crítica de poesia (parte I)
2012-02-03 17:19:00
O discurso não é propriamente novo e as acusações também não, mas ultimamente, não sei bem porquê, tenho lido ? e ouvido ? vários ataques à crítica de livros de poesia em Portugal. As acusações são, essencialmente, quatro:Mercantilização;Indefinição;Compad rio;Ineficácia.Relativamente à primeira acusação, esta revela logo à partida um grave erro de compreensão sobre os modelos em que a crítica literária se pode apresentar. Os jornais e suplementos, onde as influências editoriais e de mercado mais se notam, raramente são espaço para reflexão sobre poesia e isso é mais um problema para a crítica do que um problema da crítica. Sobre isto há algumas coisas a dizer.Em primeiro lugar, revela logo à partida o estreitamento mental de grande parte dos críticos da crítica, que se limitam a passear pelas páginas do Ípsilon, da Atual, da Ler e do Jornal de Letras e julgam que isso serve para legitimar a sua opinião.Em segundo lugar, criou-se uma ideia fantasiosa acerca das pressões editoriais so...
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Toada
2012-02-03 15:29:00
No outro lado da cidade,Não sei o quê, foi o vento,O vento me dispersou.Viajei por terras estranhasEntre flôres espantosas,Tive coragem para tudoNo outro lado da cidade,Sem tomar cuidado em mim.Passeava com tais perícias,Punha girafas na esquina,Quantos milagres na viagem,Meu coração de ninguém!E pude estar sem perigoPor entre aconchegos pagos,Em que o carinho mais velhoInda guardava agressão.Busquei São Paulo no mapa,Mas tudo, com cara nova,Duma tristeza de viagem,Tirava fotografia...E o meu cigarro na tardeBrilhava só, que nem Deus.Fiquei tão pobre, tão tristeQue até meu olhar fechou.No outra lado da cidadeO vento me dispersou.- Mário de Andradein Antologia da Moderna Poesia Brasileira, Orfeu
O grande desastre aéreo de ontem
2012-02-03 12:33:00
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pe...
Chronicle (2012)
2012-02-03 02:43:00
7/10
Primeira canção do beco
2012-02-03 02:16:00
Teu corpo dúbio, irresolutoDe intersexual disputadíssima,Teu corpo, magro não, enxuto,Lavado, esfregado, batido,Destilado, asséptico, insípidoE perfeitamente inodoroÉ o flagelo de minha vida,Ó esquizóide! ó leptossômica!Por ele sofro há bem dez anos(Anos que mais parecem séculos)Tamanhas atribulações,Que às vezes viro lobisomem,E estraçalhado de desejosDivago como os cães danadosA horas mortas, por becos sórdidos!Põe paradeiro a este tormento!Liberta-me do atroz recalque!Vem ao meu quarto desoladoPor estas sombras de convento,E propicia aos meus sentidosAtônitos, horrorizadosA folha-morta, o parafuso,O trauma, o estupor, o decúbito!- Manuel Bandeirain Antologia da Moderna Poesia Brasileira, Orfeu
Once it was the colour of saying
2012-02-02 10:38:00
Once it was the colour of sayingSoaked my table the uglier side of a hillWith a capsized field where a school sat stillAnd a black and white patch of girls grew playing;The gentle seaslides of saying I must undoThat all the charmingly drowned arise to cockcrow and kill.When I whistled with mitching boys through a reservoir parkWhere at night we stoned the cold and cuckooLovers in the dirt of their leafy beds,The shade of their trees was a word of many shadesAnd a lamp of lightning for the poor in the dark;Now my saying shall be my undoing,And every stone I wind off like a reel.- Dylan Thomas
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Fez-se tarde
2012-02-01 10:39:00
Durante todo o dia, um cão negroe silencioso seguiu os meuspassos. Paravaa uma distância prudente, como animalque quisesse e temesse a minha amizade.Quando entrava e saía,esperava-me paciente e sempreerguido, cão incansável,teimoso, quieto, ao alcance da minha voz.Chuviscou, e ali estavamolhando-se. Parou de chover,e o lustroso pêlo reluziacomo a evocação desses camposque eu temo e desejo. Fez-se tardee quando quis, por fim, estabelecer um pactocom ele, senti o fedor do lobo.- Ángel CrespoAntología poética (1949-1995), Visor
Bandoneón
2012-02-01 00:52:00
O litúrgico harmônio das ruas,o mais reles órgão alemão,fez a travessia com os emigrantese chegou a um bordel em Buenos Aires.Como um padre apóstata,ali se foi arrastando por históriasde solidão e de melancolia.Sempre amei os tangos que escutavaem garoto, nas tardes de domingo:meu pai e minha mãe bailandopara lá e para cá no corredor da casa.É a voz de uma épica perdida,com os bandoneones arrastandoletras que falam de um amor culpável.Os que bailam naquele corredorhoje já vivem dentro de um tangoque, misteriosamente feliz, cantaum velho que sorri em passe de dançaaproximando-se da Desconhecida.- Joan Margaritin Misteriosamente feliz, Visor
A tua rua
2012-02-01 00:31:00
Numa manhã luminosa chegas.Aos quarenta e dois. As andorinhasvoam de uma ponta à outra da rua.Há uma altura em que o Cálculoexpõe friamente o fim de um limite.De repente dás contigo só, em casa.E com o inverno que chega à rua.Sorriem-te os setenta anos,e dás-te conta de como tudo é tão perto.Um autocarro, o metro, e estás junto ao mar.- Joan Margaritin Misteriosamente feliz, Visor
A perda da ignorância
2012-02-01 00:23:00
Não escrevas as tuas memórias.Lançarão aos teus pés aquele que foste,como um cadáver inimigo.Quando o passado começa a tornar-se mentiraé muito pouco o que há a reter:uma inútil e indigna convicção,uma crueldade errónea. Quase nadate pede que voltes a falar.A alegria de um velho é o silêncio.- Joan Margaritin Misteriosamente feliz, Visor
Despedir-se
2012-02-01 00:12:00
Retirei os tapetes e as cortinas,todas as mesas em que há muitonão me alimento nem escrevo.Tirei os quadros e pintei os murospara apagar os sinais do tempo.Guardo uns quantos livros. Sei precisamente quais.Destruícartas de amor que já não me amavam.Silenciosos, agora, os amoressão icebergues errando no pensamento.A casa, sem recantos para o medo,deixa-me a vista mais despida.Nada, nem a esperança,poderá perturbar a última morte.Não há outra casa para aqueles que amo.- Joan Margaritin Misteriosamente feliz, Visor
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