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O Melhor Amigo

O Melhor Amigo
Uma relação de atenção e interesse... (isto agora não interessa nada mas obrigaram-me a escrever pelo menos 40 caracteres para descrever o blog e pronto, espero que isto chegue)
Articles: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7

Articles

Alcantis da Noite
2008-07-07 21:28:00
Para a Ana e o Diogo que estão sempre láFomos pelos arredores da alegria,tomando caminhos exíguos onde,entre os três, dividimos algunssorrisos benignos. E o corpoera a entrega mais fácil, o que primeirose adapta, desperdício vagante quealgumas vezes não pesa maisque a ligeira impressão de não haverregresso. Um gesto simplese no ínicio da noite ficava extinta,num cinzeiro, a primeira criançaque berrou virando-se num desaireafectivo - baloiço estragadode um parque que há muitodeixou de facilitar-te ingenuidades,delírios infantis e sonhos molhados.Rumámos, calmos, com os estranhosna obsidiante mistura de perfumes -higiene prática entre sórdidos desviose harmonias despedaçadas.Senhas e contra-senhasna lotaria da matéria carente:Bem-me-quer, mal-me-quer -gramáticas ordinárias e frutade uma época morta, crivada de ardorese desejos em segunda-mão. É a elegiapossível, aturando olhares sem fundoe despojos de novelas amorosasa demorar nos degraus que te antecipamtodos os sentidos e quedas pro...
Sou daqueles que
2008-07-07 21:26:00
Sou da geração dos que decidiram fazerpoemas depois de ler Lobo Antunes.Sou da geração dos que vivem a guerradiária contra vasos de flores de plásticoengomadas como os sorrisos que tentamsubstituir, mais falsas que a preocupaçãopelo bem-estar de um dente que imitam; sou dos que vivem a guerra diária contra a desordem no linho sulcado de suor evincos sem sono. Sou dos que antecipam a velhice por preferirem trocar os nomes dos filmes a não ver sempre os mesmos. Dos que estão na segurança tépidada casa como no calor polvoroso da guerra:sozinhos sem saber onde pôr as mãos e apontarcom igual insensatez ironias e metralhadorasde fabrico israelita; dos que não conferem duasvezes o canhoto do espelho, dos que não levantama tampa da sanita nem espremem por baixoo tubo de pasta dentífrica. Sou dos que se colam ao chão malgrado a minha idade e formaçãopara ouvir conversas de criadas com pobres de pedir, animais domésticos de tias etéreas que lhes colocam coleiras, açaimes e guizos. Sou dos que...
Estropiados da vida
2008-07-04 18:24:00
Estaremos reduzidos para sempreaos nossos semelhantes?E. M. CioranDesnecessárias afinal as melhoresdas tuas horas mais tristes, respira-seaqui e agora o ranço da desolaçãoe tu envolves-te uma vez maisem diferenças mínimas: de pequenas insistênciasa uns instantes de contágio.Alguma memória amestradora apertaum pouco mais contigo - uns restosde um sonho de véspera que se aguentarame te insinuam de novo o coração que já não tens.Os dedos, sem nada a apontar, apenasreparam as falhas no verniz e recontam-se.Tens dessas fixações com padrõese acasos simultâneos, alinhados, talvezporque o escuro e o caos te pesem tantonos ombros. A mesa e o corpo aconchegam-se,caucionados entre distâncias muito repetidas,figuras de estilo e outros sintomas que,melhor ou pior, se tratam com o fim da tardee do mundo, alguns copos depois.Aqui não há talento, só a indigente prestezade quem nunca se achou num espelho e que por issorouba de outros corpos o seu reflexo.E como me desculpo!, como me admito assustado...
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A.J.F.
2008-07-03 15:28:00
Podia não parecer, mas tinhamau feitio - e a caspaquase lhe ficava bemno veludo dessas tardesganhas ou perdidasnuma esplanada com vistapara o tráfego sonâmbulo das pombas.Não diria o tráfico, actividadesparalelas não se soube ao certo a quêe os tantos assuntosque morreram a seus pés.De resto, abominava os pássaros,os quatro elementos e a morte,cadáveres poéticos dos seus "contempo-raneozinhos" (necrófilos desempregados,sem jeito para alexandrinos).Repugnavam-lhe - e percebe-se muito bemporquê - a água pungente das sílabase o bucolismo azedo de certos cretinos.Ecologismos, só se lhe dissessem ondee para pós-moderno faltava-lhe o guarda-roupa.Talvez por isso se despeça aindahoje das antologiascomo um dia se despediu da vida:sem sombra de adeus, caramba!- Manuel de Freitas
Desolation row
2008-07-03 11:44:00
Everybody is making loveOr else expecting rainBob DylanÉ tudo uma questão de sombra,demorada e simples.Manuel de FreitasCoisas paradas, imersas na sua inutilidade,convidam-te à enumeração. Lá foraé como se o céu te doesse, aqui é mais fácileducar o cultivo e colecção de sombraspregando-as a variações cardíacas, letrasna direcção de um pequeno enfarte.Da arte poética, como de resto de outraqualquer, já se disse aquilo e o contrário,só o poema é que continua a seruma espécie de crime sem solução,cometido por quem, na altura, não estariapreocupado com isso. Pouca sorte talveze alguma destreza na captura de vestígiosde vida em ângulos improváveis, contraluz.O corpo é uma vaga margem onde atracamtantos silêncios, puxa-se a palavra como um filtropara este excesso que não se pode dizer, e no finalos versos recolhem o pó dos gestos, panfletose cartazes falando por alto da nossa solidão.Se esta fluência numerosa e acidental de artigosmerece atenção, não sei, se isto é um homem,também não fa...
Agente duplo
2008-07-01 23:54:00
Em casa sou um agente duplo. Agora em casa sou um agente duplo. Passo os dias a entrar e a sair com as abas da gabardina levantadas, a murmurar senhas, contra-senhas, códigos esfíngicos a garantir segurança, enquanto faço passar microchips dentro de aspiradores de 3 válvulas, a velhas de barba mal disfarçada, numa lojinha que fica numa cave de uma rua debaixo de uma varanda pegajosa. E tanto passo um chip a velha com barba e voz de barítono, como recebo um outro de um homem de trinta anos dobrado sobre o peso do reumático e e de 7 décadas encavalitadas nas saliências das omoplatas. Vendo e compro, ouço e falo, faço-me acompanhar de malas de couro negro e chapéus largos quando atravesso a cidade borbulhante da sala-de-estar, a despeito das forças inimigas que também são as amigas, e vice-versa (a minha vida é feita de "e vice-versas"). Viajo apenas dentro do nevoeiro londrino que são televisores ligados em explosões de luz, cor e apatia. Estou por dentro e estou por fora, estou contr...
Sidi Amar no Inverno
2008-07-01 07:22:00
Penso que nunca vi o teu rostoNum dia de chuva, quando as sombrias artérias do céuPulsam junto às árvores, e no teu coraçãoA água corre. Nunca te vi chorarCom o monólogo da noite, com a tua mente resistindo ao silêncio.Chegará o dia em que as linhas do céuSe desprenderão das torresE em que tu, que tremes pela noitePartirás para os lugares sombrios ao lado de um desconhecido.- Paul Bowles
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All you need is love 2
2008-06-29 19:59:00
Mas não é bem assim, dir-se-á.Vinte e seis séculos de líricadeviam, pelo menos, provar o contrário- na hipótese argilosa de essescadáveres afamados terem alguma coisaa dizer-nos quanto ao melhor métodode atravessar ruas superpovoadas.Onde eu te vi passar, meu amor,com o lenço vermelho, os cabelosmais curtos e as pernas que emboratenazes herméticas te davam - porassim dizer - um ar sofrível de corpo.Não sei porque é que reparei nisso,logo eu, logo hoje. Simples distracção da morte- a reinvindicar uma anatomia, e paz.- Manuel de Freitas
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All you need is love 1
2008-06-28 19:44:00
E no entanto regressamos- aos becos onde o sangueinsiste em não ser tocado e visto.À espera de novos punhais. Quem sabe?Talvez a vontade - desejo de anulaçãonos braços tranquilos de ninguém.Ou a simples obstinação da carne, a levar-nospor onde jurámos não ir, lembradosdas vísceras e das intempériesa que emprestámos poemas maisou menos maus e uma urgência igualà que julgamos sentir agora.O amor? Não me fodam.Apenas um filme sem enredoque já vimos demasiadas vezese que vai continuar a acabar mal- como a puta da vida, aliás.- Manuel de Freitas
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Tunning
2008-06-28 17:12:00
O teu carro existe e é vermelhodesejo a tua namoradadisposta a tudo desde que seja contigoaté casar e ter filhospara semprenesta terra de fugir.- João Almeida
Overrated
2008-06-27 00:38:00
Numa estação qualquer, à espera de qualquer autocarro, o corpo é o silêncio e a sua pulsação aderindo aos tiques comuns e destrutivos do tempo, variando entre instantes ardidos numa cronologia imprecisa, descartando afeições - e depois pára. O pensamento recupera uma ordem, um método e vai buscar força aos sinais exteriores, a realidade que por pouco que seja, ou nos convença, ainda é só aquilo que nos faz companhia. Alguns velhos bebem cerveja, jogam às cartas e falam suficientemente alto para que mesmo longe os oiças. E é só isso, a conversa entre os velhos, sem nada que mereça ser sublinhado, mas agora concentras-te neles. Mais tarde chega um outro homem trazendo nos braços uma caixinha de chuva, senta-se na parte final de um verso teu (pode ser aqui) e deixa-se estar muito quieto no seu egoísmo solitário, mimado por alguma tristeza. O som da chuva a cair e as suas expectativas bem calibradas, reduzidas pelo dobro dos anos que acumulas de vida nesta antiga e fácil pátria da amar...
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Fidelidade
2008-06-26 22:07:00
Diz-me devagar coisa nenhuma, assim como a só presença com que me perdoas esta fidelidade ao meu destino. Quanto assim não digas é por mim que o dizes. E os destinos vivem-se como outra vida. Ou como a solidão. E quem lá entra? E quem lá pode estar mais que o momento de estar só consigo? Diz-me assim devagar coisa nenhuma: o que à morte se diria, se ela ouvisse, ou se diria aos mortos, se voltassem. - Jorge de Sena
Casualties
2008-06-24 14:17:00
My thoughts are childrenWith uneasy facesThat awake and riseBeneath running skiesFrom buried places.Philip LarkinUma módica dose de interessesossegado, a ver a transferência entre estadosde umas pedras de gelo no copo. As mãos também,relutantes, umas vezes pousadas outras dissertando.A escrita vai começando bem, pelas palavras,mas depois a tinta permanente tropeça-te no corpo,e não há outro sofrimento mais lúcidodo que o deste pedaço de vidaa boiar nalgum refrão. Enfim,talvez até isto resultasse melhorse se pudesse dispensar o fôlego da voze - já agora - o dos próprios versos.Não disseste ainda o que querias,ou, mais fácil talvez, fosse provar quese nunca tivesses escrito um versoterias dito tudo num arroto, e melhor.Estás mais velho, mais triste, despistasteo teu último sonho e a sua criançanuma carruagem apinhadade outro comboio para a terra do nunca- juntamente com aquela jura de amorque não tinha como ser cumprida - e hojeo mundo que te resta é uma simplese fiável dor de cabeça,...
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PRINCIPIO
2008-06-23 13:02:00
No meio de frases destruídas,de cortes de sentidos e de falsasimagens do mundo organizadaspor agressão ou por delíriocomo vou saber se a diferençanão há-de ser um pacto novo,um regresso às histórias e àsárduas gramáticas da preservação.Depois dos efeitos de recusase dissermos não, a que diremosnão?Que cânones são hoje dominantescontra que tem de refazer-sea triunfante inovação?Voltar junto dos outros, voltarao coração, voltar à ordemdas mágoas por uma linguagemlimpa, um equilibrio do que se dizao que se sente, um ímpetoao ritmo da língua e dizera catástrofe pela articuladaafirmação das palavras comuns,o abismo pela sujeição às formasdirectas do murmúrio, o terrorpela construída sintaxe sem compêndios.Voltar ao real, a esse desencantoque deixou de cantar, vê-lona figura sem espelho, na perspectivaquase de ninguém, de um corpopronto a dizer até às manchasa exacta superfície por que vaionde se perde. Em perigo.- Joaquim Manuel Magalhães
Sombras pelo caminho
2008-06-22 12:58:00
Foges, mas de tal modo a olhar para trásque a tua sombra fica pelo caminho.José Amaro DionísioAcomodado entre pretensões estafadas,rastos e resumos nas paredes, números de telefonepara ligar no caso do silêncio nos pegar fogo,está ali um rosto a emoldurar o susto deste cenário,com o olhar a pique recortando desajeitadamentecada vulto, os contornos indistintosdo capital humano desbaratado noutros sonhose derrotas. Tresnoitados, inflamáveis, livrespara morrer e diluídos na assombração uns dos outros.De pouco se fazem, aqui, os dias.Alguns trocos para simplicar a ciência holísticado abandono, um modo de florear a ausência,as pontas dos dedos adoçadas, revirando um bolo,depenicando o creme, separando outro cigarropara a extinção - fumo e efeitos no dominódestas tardes. Mas estavas a pensarnuma outra ocasião, sensivelmente distante,em que alguém - cansando-se de esperar -se deixou perder recostada a uma dessas cançõesque na falta de assunto se desviam para o amor,e seguia por aí declara...
Ron Mueck
2008-06-20 18:04:00
A Girl, Mixed Media. 2006 A Girl, (Installation) 2006 A Girl, (detail) 2006 Spooning Couple, Mixed Media. 2005. Spooning Couple, 2005 (in progress) Spooning Couple, 2005. Human hands comparison Untitled (Head of a Baby), Mixed Media. 2003 Boy, 1999. Mixed media. 4.9 x 4.9 x 2.4 m Boy, 1999. Top view Boy, 1999. Close-up Boy, 1999. Close-up foot Untitled (Seated Woman), 1999. Mixed media. 25 1/4 X 17 X 16 1/2 inches In Bed, 2005. Mixed media, 63 3/4 x 255 7/8 x 155 1/2 in. (161.9 x 649.9 x 395 cm). Private Collection In Bed, 2005. Close-up In Bed, 2005. Rollers in the hair - Close-up Big Man, 2000. Mixed media, 80 x 47 1/2 x 80 1/2 in. (203.2 x 120.7 x 204.5 cm). Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, Smithsonian Institution, Washington, D.C. Big Man, 2000. Different angle Two Women, 2005. Mixed media, 33 1/2 x 18 7/8 x 15 in. (85.1 x 47.9 x 38.1 cm). Glenn Fuhrman Collection, New York Two Women, 2005. Close-up Mask III, Mixed Media, 2005. Mask III, 2005 (Insta...
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Requiem por um desconhecido - Claude Chabrol (1969)
2008-06-20 06:58:00
Chamem-lhe arcaísmo, se quiserem,mas eu penso que a vingançatem ainda lugar no coração da justiça.Quando o corpo é ofendido e perde sangueaos borbotões, a lei é uma compressaineficaz, não estanca a dor que sentes.Se te arrancam a mão direita, tu vais pôr-te,com a esquerda, a coçar a cabeça?Não vais. Há dívidas que só podemser cobradas por quem sofre.Orestes, que não tinha felizmente, advogado,fez o que lhe competia.Tivesse ele posto uma acção em tribunalcontra Clitemnestra e - quem sabe -ainda hoje andaria por aí, de crânio na mão,a soluçar como um pateta vindimado:ser ou não ser, eis a questão.Não. A lei não dá conta de todo o mal.Às vezes é o sangue, por estranho que pareça,o melhor detergente. Nisto me fundopara reclamar de vós, juízes, a absolvição.- José Miguel Silva
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Advertising space
2008-06-18 14:11:00
I saw you standing at the gatesWhen Marlon Brando passed awayYou had that look upon your faceAdvertising spaceQuem me dera sermenos realista, menos real,menos permeável ao desgosto.Para quem insiste tanto podias(pelo menos agora) fabricaralguma coisa fora do programa,falar que hoje a presença a que confiasas tuas tardes todas, se esqueceuda doença que o há-de levare sorriu quando entrastee lhe reduziste um pouco a médiadas idades que mantêmo seu estabelecimento aberto.Mas, como é sabido,um sorriso é das coisas quemais facilmente se perdempelo caminho de regresso a casa,à medida que deixas o rascunhoe arrumas entre estrofes tudoo que não tens a quem dizer.Falas por alto, sozinho, num disfarcede loucura, falas de tristeza e abulia,este serviço público que varreos seus utentes das ruas para os cafés,onde a luz e a cor só entramde forma muito racionada, em fiapos.Encontra-nos ainda cedo quando vamospara as praças dar o corpo de comeraos dias, e vem chamar-nos, vem brincaràs escondidas. ...
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Spot
2008-06-18 08:51:00
"A vida não pode ser assimtão assustadora",diz a margarina becelem horário nobre,para não-cardíacos.O que, na verdade, medeixa saudades da censura,de uma censura novaque exterminasse imbecise deixasse a terra a quemela é, como deve ser, pesada.- Manuel de Freitas
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Tatuagem
2008-06-18 05:37:00
Olhas para ele divertida e convidas-te a um copo.Se a sua história fosse boa,se tratasse de uns homenzecos sujos,de drogas ou de hotéis vermelhos como um corno,de uma morte não explicadaou de uma vida inexplicável,a coisa, querido, mudaria.Mas não. O pacóvio palra e palra de Acapulco,canta Aznavour com voz de franciscano.Eu sou, atira-te, gémeos, e tu,espera querida, espera, tu és touro.Assim é como o gajoconsegue uma queca lá na tribo dele.Com isto do amor, digo-lhe por coqueteria,vai bem o bâton gretado,os parques remotos, o cigarro sozinha,as luas amolgadas,os carros espatifados.Levanto-me para comprar Gauloises.Deixo-o com os olhosafundados no copoainda mais turvo que os meus olhos.Já na rua,penduro-me de um catalãoE trauteio esta canção de Piquer:E ele veio num baaarco?- Violeta C. Rangel
Estudos comparados sobre o silêncio
2008-06-17 08:14:00
Comprimidos e um revólver para persuadiro sono a avançar agora que já passa das três.A respiração tornou-se mais pesadaenquanto se enrolava no gatilho, só quea consciência não quis ceder e ficou presaa observar o rio parado entre estas mãos,dois inseguros electrodomésticos ligadosà corrente, em standby.A casa suspira longamente e a mobília mental,que encomendaste quase toda por catálogo,abre as suas gavetas e portas para recolhero que fica após o curto-circuito de uns versos.A noite às colheres, a mastigar-te lentamentee quase às escuras, só és um vulto impreciso.Os olhos como dois furos na página e a bocaa tremer, num modo de soletraralguns devaneios e pequenas distorçõesde nicotina. Surge-te pela frenteum corpo de mulher, um breve desenhode fumo, dançando no arantes de se elevar para além do tecto,numa ascensão que oferece provas à tua ideiade que o mundo está todo a cair.Aqui estás tu, outra vez, assumindouma produção em série a partir de vocábulosimperfeitos e memórias vencidas,...
Parque Eduardo VII
2008-06-16 05:23:00
Uma sala inteira ouvindoversos insípidos de um poeta,longe do coração, escorrendopelas paredes, previsíveis,como água pelo casco de um navio.(Tratando-se de um filme, os violinosentrariam poventura nesta parte.)Tudo o que sinto é uma bolhano calcanhar do pé direito,mal escolhidos os sapatosque me trouxeram até aqui.A vida raramente nos conduzaos locais certos. Talvez a morte,mas não quero pensar nisso.Há-de haver outra maneirade sair desta cidade.- Vítor Nogueira
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Em Creta com o Minotauro
2008-06-16 05:19:00
Nascido em Portugal, de pais portugueses,e pai de brasileiros no Brasil,serei talvez norte-americano, quando lá estiver.Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,se usam e se deitam fora, com todo o respeitonecessário à roupa que se veste e que prestou serviço.Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátriade que escrevo é a língua em que por acaso de geraçõesnasci. E a do que faço e do que vivo é estaraiva que tenho da pouca humanidade neste mundoquando não acredito em outro, e só outro quereria queeste mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,espero envelhecertomando café em Cretacom o Minotauro ,sob o olhar de deuses sem vergonha.- Jorge de Sena
Um espaço que coze por dentro
2008-06-16 05:17:00
Deveria ter feito da minha música um amor mais silenciosocomo se de uma arte privada se tratasse.A ti, a quem falo de poesia, a tique assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,respondo-te que também eu não compreendo,que não há que compreender,porque nada nos condena à falaantes que as palavras aconteçam.Por exemplo, esse poema começado numa manhã de Junhoe nunca terminado: um princípio de verão,a janela que dá para o alcatrão sem tráfego serpenteando pelas colinas.A rua de dia de semanae o arquipélago da solidão despertandopara as poucas coisas que procuroe que o poema irá entretecerse entretecer. -A virtude que, cega,vai conhecendo o seu caminho.Desprende-se um fio luminoso da impossibilidade das palavras,e se ficamos tristes não era para ficarmos,pois não existem momentos irrepetíveis.Eles aninham-se no sanguee voltam a mergulhar-nos na experiência:um dia de verão, um bosque, colinasonde a serpente de alcatrão se enrola.A ausência de tráfego como motivo.A pouco...
Praia de Santa Rita
2008-06-10 18:58:00
Não há muitas tardes assim.O vento chegava quase devagarao teu e ao meu rosto, o marfazia-nos parecer mais juntos,o próprio sol era uma carícia? enquanto um mosquitoassediava o meu copo de cerveja.Mas chegaram os das roulottes,em busca de mesa, obrigando-nosà sua voz motorizada, suspensaentre palitos. Lembrei-me, claro,desse nojo atávico, das tendasinabitáveis da infância, de tudo o que fezde mim um instrumento do desastre,alguém que já não encontra o esquecimentona espuma de cervejas mortase conhece todos os antónimos de beleza.- Manuel de Freitas
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Nome e idade
2008-06-09 20:39:00
Retomando a palavra, "cá estamos,não é?", de volta aos mesmos vazadouros,as arestas onde o rosto se vem esbaterno entorno displicente de um infinito pessoalentre tímidos clientes, profissionaisno desemprego de um coração porco,omnívoro, pegajento, ordinário, fraco e inútil.Nós e o bolor, subindo as paredes,revirando os cantos e o vazio,com esta sensibilidade de amputados.O olhar moderador do taberneiro,sabendo de cor o caminho até ao teu,chamou-te à parte para dizer-te quea juventude está no fime que não ta poderá servir mais -esgotou no stock. E é assim, não há masnem porquê, e nem é raro isto,sermos forçados ao desmame, termosque escolher entre o que há - the nextbest thing - até nada nos restar e a vidair deixando de ser esta, às vezes,tão simples questão de maus hábitos.Se ao menos um verso pudesse fazeralguma diferença..., mas nunca faz.Isto, aqui, são meros recados onde não se deveperceber um destinatário, cheios de distânciasimprecisas e derivações pouco lógicasque alinhas e ...
Hotel Casa de Mar
2008-06-09 19:33:00
Certa manhã abres a janelacom o corpo nu da cintura para cima,o ar entra limpo e turvo e ela imprecisano outro lado da cama.Certa manhã acendes um cigarrosentado à beira da camae olhas demoradamente para ela a dormire demoradamente regressa a imagemdela a beijar-te o sexo umas horas antes,antes, três anos atrás,não havia sequer uma janela para abrir.Certa manhã acordam-te os primeiros ruídos da ruae corres as cortinas e abres a janela,uma ligeira aragem seca o suor das costas nuas,procuras o tabaco no casacoe olhas para ela e o seu rosto não te diz nada.Talvez te apeteça acordar o seu corpo e beijá-lomas fumas lento e olhas-te no espelho do fundoe quase nada te diz o teu rosto.Certa manhã agradeces a frescuraque a janela deixa entrar, apagas o cigarro no chão,vais à casa de banho beber um copo de águae ouves que diz algo no seu sono.Ao passar não te reconheces no espelho do fundoe deitas-te de novo e de novo levas o teu sexoaté às suas mãos.- José Ángel Cilleruelo
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Closing time
2008-06-06 10:05:00
Não demorará muito até que o último refrãote deixe cair um peso nos ombros, um avisoantes que o fade out te escorrace. Porfiaste ali,meio ausente, puxando a alavanca de uma máquinado tempo, a gorgolejar sobre um rastilho de imagens,ligadas por um fio de baba e soprandogolpes de ar para o saco furado que levas no peito.Agora recolhes de volta aos bolsos a pequena agoniadas coisas certas - as chaves de casa e a carteiracom os documentos e as incontornáveis letras do teu nome.Levas aos lábios outro final infeliz e pagastrês, quatro, seis cervejas e nem duas horasde convívio entre outros espíritos espancados,largados aqui à beira da morte.Cá fora uma brisa mijada desperta-tepara o aspecto assassino destas ruas que seinjectam no olhar. A pele parece permeávelaos vírus que se apanham no escuro, pontilhadaaqui e ali por manchas lunares, um susto húmido,sujo e pegajoso. Uma sombra acende-te um cigarroque puxas em espaços muito curtos e seguidos.Chega-te um choro subterrâneo e o seu ecoentre...
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Mester de hotelaria
2008-06-06 05:37:00
Subiu comigo até ao quarto,vi como acendia um cigarro e falavano corredor a um papagaio cinzento e amarelecido de nicotinaou de vómito. A luz esvaída, áspera,do fluorescente reflectia-se nos seus olhos.Cambaleava, desabotoou a blusae deixou mal dobrada a saia sobre o catre.Senti horror,e um desejo imediato de estar bêbado como ela.Mexeu-me debaixo da roupa e acendeuoutro cigarro e deixou-o nos meus lábios.Não soube para onde olhar, que dizer, comoagradecer a carícia.Foi talvez o combinado.- José Ángel Cilleruelo
[Santa Apolónia]
2008-06-04 23:48:00
O olhar desenha por sobre o vidropaisagens incompletas: horizontede prédios às cores e com lampejosde alumínio e, diante, um descampado.Sucedem-se colinas com escombrosdomésticos, de vez em quando bairrosde lata erguidos com divisóriasde cartão e madeiras, tectos baixos,a meio um pote fumega, criançascorrem a competir com o comboio.O rectângulo da breve janelapassa tão depressa, não retém nadada paisagem olvidadiça, feia,tão cega como os olhos que a vêem.- José Ángel Cilleruelo
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